/
/
Recall: segurança nas pistas é responsabilidade compartilhada

Recall: segurança nas pistas é responsabilidade compartilhada

A cada ano, o número de automóveis que recebem convocação para recall só aumenta, mas nem todos os consumidores atendem o chamado.
A cada ano, o número de automóveis que recebem convocação para recall só aumenta, mas nem todos os consumidores atendem o chamado.
A cada ano, o número de automóveis que recebem convocação para recall só aumenta, mas nem todos os consumidores atendem o chamado.
Shutterstock
As montadoras Tesla, Xiaomi e Stellantis anunciaram grandes recalls globais devido a riscos de incêndio e falhas de segurança em seus veículos. No Brasil, quase 1 milhão de carros foram convocados em 2024, mas apenas metade dos consumidores atende aos chamados. Especialistas alertam que a falta de controle na cadeia de suprimentos e problemas financeiros de fornecedores aumentam o risco de novos recalls, destacando a importância da due diligence para proteger consumidores e marcas.

No dia 28 de setembro, a BMW anunciou o recall de 196.355 veículos nos Estados Unidos. A ação se deu devido a uma falha que pode provocar curto-circuito e risco de incêndio. O problema foi identificado no relé do motor de arranque, que pode sofrer corrosão e levar ao superaquecimento do sistema. A informação é da Administração Nacional de Segurança do Tráfego nas Estradas (NHTSA).

Já na China, a Xiaomi Corp, gigante chinesa de tecnologia, realizará um recall de cerca de 117 mil sedãs elétricos SU7. O objetivo é corrigir falhas de segurança no sistema de assistência ao motorista. Este será o maior recall da montadora desde o lançamento do modelo no ano passado, afetando veículos fabricados antes de 30 de agosto de 2025. A informação é da SAMR (Administração Estatal de Regulação do Mercado). O número corresponde a cerca de 1/3 das vendas totais do modelo.

Por sua vez, no Brasil, recentemente, a Stellantis anunciou um recall. No caso, o chamado foi para os SUVs Peugeot 208, Citroën C3 Aircross e Basalt, além da picape Fiat Titano. Em síntese, o recall foi anunciado devido à necessidade de troca de componentes que podem causar vazamento de gases, disparo acidental do airbag e risco de incêndio. Os defeitos afetam os modelos 2025 dos SUVs franceses, nos quais foi identificado um problema no coletor de admissão que pode levar à obstrução. Se isso acontecer, o defeito pode acarretar na evaporação de gases.

Recall e defesa do consumidor

O assunto recall (aviso de risco) chama atenção do ponto de vista da defesa do consumidor. Em resumo, ele é bem importante pois envolve, em primeiro lugar, a segurança dos veículos que circulam nas vias. E, em segundo lugar, a responsabilidade das montadoras em garantir a integridade dos seus produtos.

O termo recall é uma palavra inglesa que diz respeito a uma solicitação de devolução de um lote ou de uma linha inteira de produtos feita pelo próprio fabricante. Geralmente, isto ocorre pela descoberta de problemas relativos à segurança do produto. Em síntese, o recall é a convocação feita pelo fabricante para que um defeito que possa afetar a saúde ou a segurança dos usuários seja reparado gratuitamente. No Brasil, essa prática está prevista no Código de Defesa do Consumidor (CDC). No setor automotivo, ela é regulamentada também pela Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran).

Aumento de recall

Mariane Ferri, do Finocchio e Ustra Sociedade de Advogados.

Apesar da relevância do recall, os dados mostram que esse fenômeno se tornou uma realidade preocupante na indústria automotiva nacional. Isso por conta do aumento de convocações. Segundo informações da Senatran, entre janeiro e outubro de 2024, foram convocados 999.393 veículos para recall no Brasil. Só para exemplificar, esse número dá uma média de 3,3 mil carros por dia. E o montante superou o total do ano anterior, que registrou 975.234 veículos convocados.

Mariane Ferri, advogada da área Contratual e de Negociação Estratégica do Finocchio e Ustra Sociedade de Advogados, comenta que esse desafio não é novo. Ela então lembra que, entre 2014 e 2018, foram realizadas 517 campanhas de recall apenas no setor de automóveis. No período, 9,5 milhões de proprietários de veículos foram convocados. “Sabe o que é mais preocupante? Estima-se que menos da metade dos consumidores, cerca de 48%, atendeu ao chamado.”

Consumidor não atende ao recall

Isso significa que milhões de carros continuam circulando em situações de risco. De acordo com a Senatran, em setembro de 2024, havia 3,4 milhões de recalls pendentes no País, envolvendo veículos que não passaram pelo reparo obrigatório. Esses números evidenciam não apenas a frequência dos recalls, mas também o passivo de segurança viária gerado por falhas na cadeia de produção.

Ademais, a falta de ação por parte dos proprietários, muitas vezes motivada pela falta de informação ou pela subestimativa dos riscos, contribui para a perpetuação desse cenário alarmante.

Recall e inadimplência: o que tem a ver?

A produção de um automóvel envolve uma cadeia de suprimentos complexa e globalizada, que conta com diferentes níveis de fornecedores. Os chamados Tier 1 fornecem sistemas completos, como freios e transmissões, enquanto os Tier 2 e Tier 3 entregam componentes básicos, como peças metálicas e eletrônicos. Analogamente, quando um elo dessa cadeia apresenta problemas, toda a estrutura é afetada. Por exemplo, um lote de aço com falha pode comprometer a segurança de peças essenciais, e semicondutores defeituosos podem impedir o acionamento de airbags.

“Desse modo, o cenário econômico atual do Brasil aumenta esse risco. Muitas empresas dos Tiers 2 e 3 enfrentam dificuldades financeiras, como inadimplência e restrição de crédito. Isso as torna mais suscetíveis a atrasos nas entregas e à redução dos controles de qualidade, o que pode resultar em recalls massivos. Essa situação pode, surpreendentemente, resultar em recalls em massa, colocando em risco a segurança dos consumidores. Mariane Ferri adverte: “Em um modelo just in time, qualquer falha no fornecimento gera um efeito dominó. Se o Tier 1 não consegue entregar, a montadora para a produção e os consumidores ficam expostos a riscos”.

Monitoramento

Luis Felipe Dalmedico Silveira, do Finocchio e Ustra Sociedade de Advogados.

Nesse ínterim, diante desse panorama, adotar práticas de monitoramento contínuo junto aos fornecedores se torna uma necessidade urgente. A due diligence, nesse contexto, se destaca como uma ferramenta essencial. Mas, o que é a due diligence e como ela pode impactar o consumidor positivamente?

A saber, due diligence diz respeito a uma avaliação detalhada da estrutura financeira, operacional e processual das empresas fornecedoras, permitindo entender a real situação de cada uma e mensurar o risco de interrupção no fornecimento.

Luis Felipe Dalmedico Silveira é sócio da área Contratual e de Negociação Estratégica do Finocchio e Ustra Sociedade de Advogados. Ele ressalta que “uma due diligence eficaz deve ir além da simples conferência documental”. Em seu parecer, ela é uma ferramenta de gestão de risco que ajuda a antecipar problemas.

Ou seja, para que esse processo de monitoramento funcione de maneira eficaz, é fundamental considerar fatores como a saúde financeira dos fornecedores, a conformidade tributária e potenciais passivos relacionados a falhas de qualidade. “Detectar precocemente problemas como a dependência excessiva de um único cliente ou deficiências nas certificações de qualidade é crucial para evitar rupturas que possam levar a recalls e inadimplementos contratuais”, orienta o especialista.

Minimizando o passivo de recalls

Por fim, para Luis Felipe, na indústria automotiva brasileira, que desempenha um papel vital na economia e na segurança de milhões de pessoas, é imperativo incorporar a due diligence como uma prática estratégica. Focar apenas no Tier 1 já não é suficiente. Já Mariane enfatiza que “é nos fornecedores de base que estão os riscos menos visíveis, mas que têm grande potencial de desencadear falhas”.

Fortalecer essa análise não apenas ajuda a reduzir as rupturas na cadeia fornecedora, mas também minimiza o passivo de recalls e preserva a confiança do consumidor, protegendo a reputação de marcas consolidadas. A proteção do consumidor e a segurança viária são desafios que exigem seriedade e planejamento. Em tempos de incerteza econômica, quem não se adapta pode ficar para trás. Portanto, é hora de olhar para a cadeia de suprimentos de forma mais ampla e estratégica.

Compartilhe essa notícia:

Recomendadas

MAIS +

Veja mais noticias

O consumo phygital redefine a jornada do consumidor e levanta dúvidas sobre a aplicação do direito de arrependimento no artigo 49 do CDC.
CM Entrevista: Consumo phygital está redefinindo o direito de arrependimento no CDC
O consumo phygital redefine a jornada do consumidor e levanta dúvidas sobre a aplicação do direito de arrependimento no artigo 49 do CDC.
Com 82,8 milhões de inadimplentes, o Brasil aposta no Desenrola. Mas renegociar dívidas resolve ou prolonga o ciclo do endividamento?
Desenrola que enrola? O paradoxo do consumidor brasileiro no ciclo da dívida
Com 82,8 milhões de inadimplentes, o Brasil aposta no Desenrola. Mas renegociar dívidas resolve ou prolonga o ciclo do endividamento?
Mesmo com a regulação, o avanço das plataformas ilegais expõe consumidores a riscos e limita a atuação do Estado.
Apostas ilegais no Brasil: o maior desafio para o jogo responsável
Em meio ao avanço das bets no Brasil, especialistas discutem os desafios da regulação, os riscos do mercado ilegal e os caminhos para fortalecer a proteção ao consumidor.
Nova fase da NR-1 e discussão sobre jornada 6x1 expõem o desafio de equilibrar produtividade, saúde mental e impacto no consumo.
Menos horas ou mais produtividade? O impasse do trabalho no Brasil
Nova fase da NR-1 e discussão sobre jornada 6x1 expõem o desafio de equilibrar produtividade, saúde mental e impacto no consumo.

Webstories

SUMÁRIO – Edição 296

A evolução do consumidor traz uma série de desafios inéditos, inclusive para os modelos de gestão corporativa. A Consumidor Moderno tornou-se especialista em entender essas mutações e identificar tendências. Como um ecossistema de conteúdo multiplataforma, temos o inabalável compromisso de traduzir essa expertise para o mundo empresarial assimilar a importância da inserção do consumidor no centro de suas decisões e estratégias.

A busca incansável da excelência e a inovação como essência fomentam nosso espírito questionador, movido pela adrenalina de desafiar e superar limites – sempre com integridade.

Esses são os valores que nos impulsionam a explorar continuamente as melhores práticas para o desenho de uma experiência do cliente fluida e memorável, no Brasil e no mundo.

A IA chega para acelerar e exponencializar os negócios e seus processos. Mas o CX é para sempre, e fará a diferença nas relações com os clientes.

CAPA: Rhauan Porfírio
IMAGEM: IA Generativa | ChatGPT


Publisher
Roberto Meir

Diretor-Executivo de Conhecimento
Jacques Meir
[email protected]

Diretora-Executiva
Lucimara Fiorin
[email protected]

COMERCIAL E PUBLICIDADE
Gerentes

Daniela Calvo
[email protected]

Elisabete Almeida
[email protected]

Érica Issa
[email protected]

Gustavo Bittencourt
[email protected]

Juliana Carvalho
[email protected]

Marcelo Malzoni
[email protected]

NÚCLEO DE CONTEÚDO
Head de Conteúdo
Larissa Sant’Ana
[email protected]

Editora do Portal 
Júlia Fregonese
[email protected]

Produtores de Conteúdo
Bianca Alvarenga
Danielle Ruas 
Jéssica Chalegra
Marcelo Brandão
Victoria Pirolla

Head de Arte
Camila Nascimento
[email protected]

Revisão
Elani Cardoso

COMUNICAÇÃO E MARKETING
Coordenadoras
Nayara Manfredi
Paula Coutinho

TECNOLOGIA
Gerente

Ricardo Domingues


CONSUMIDOR MODERNO
é uma publicação da Padrão Editorial Ltda.
www.gpadrao.com.br
Rua Ceará, 62 – Higienópolis
Brasil – São Paulo – SP – 01234-010
Telefone: +55 (11) 3125-2244
A editora não se responsabiliza pelos conceitos emitidos nos artigos ou nas matérias assinadas. A reprodução do conteúdo editorial desta revista só será permitida com autorização da Editora ou com citação da fonte.
Todos os direitos reservados e protegidos pelas leis do copyright,
sendo vedada a reprodução no todo ou em parte dos textos
publicados nesta revista, salvo expresso
consentimento dos seus editores.
Padrão Editorial Ltda.
Consumidor Moderno ISSN 1413-1226

NA INTERNET
Acesse diariamente o portal
www.consumidormoderno.com.br
e tenha acesso a um conteúdo multiformato
sempre original, instigante e provocador
sobre todos os assuntos relativos ao
comportamento do consumidor e à inteligência
relacional, incluindo tendências, experiência,
jornada do cliente, tecnologias, defesa do
consumidor, nova consciência, gestão e inovação.

PUBLICIDADE
Anuncie na Consumidor Moderno e tenha
o melhor retorno de leitores qualificados
e informados do Brasil.

PARA INFORMAÇÕES SOBRE ORÇAMENTOS:
[email protected]

Rebeca Andrade – Ensinamentos e Aprendizados O futuro do entretenimento no Brasil NBA é a melhor experiência esportiva do mundo Grupo Boticário, em parceria com a Mercur, distribui gratuitamente produtos inclusivos.