Imagine chegar a um supermercado e encontrar geladeiras e freezers com a temperatura alterada por criminosos. Ou descobrir que equipamentos responsáveis pela conservação de bolsas de sangue foram invadidos. Parece roteiro de filme, mas situações como essas aconteceram recentemente.
Na França, refrigeradores de três bancos de sangue regionais foram alvo de um ataque cibernético durante a madrugada de domingo para segunda-feira. O caso aconteceu poucas semanas depois de hackers assumirem o controle de equipamentos de refrigeração em centenas de supermercados do país. Como resultado, perdas de alimentos e até incêndios.
“O episódio mostra como vulnerabilidades digitais podem ultrapassar o ambiente virtual e causar impactos físicos e econômicos. Por isso, o desafio não é apenas proteger informações, mas garantir a segurança de toda a infraestrutura, fortalecer a capacidade de resposta e proteger serviços essenciais à sociedade”, explica Fabio Assolini, pesquisador líder de segurança da Kaspersky.
No setor financeiro, a Binance, maior corretora de criptomoedas do mundo, foi alvo de um ataque hacker que resultou no roubo de US$ 6,3 bilhões (cerca de R$ 34 bilhões). Uma das maiores ações criminosas já registradas na história do setor.
O problema não está restrito à outros países. No Brasil, ataques ao Hospital Israelita Albert Einstein e ao Hospital Sírio-Libanês, em outubro, também trouxeram à tona a vulnerabilidade de informações de pacientes. Mesmo quando o atendimento continua funcionando, dados sensíveis podem ficar expostos.
O que esses episódios têm em comum? Equipamentos e sistemas conectados à internet que, quando apresentam falhas de segurança, podem se tornar portas de entrada para criminosos.
Uma análise da Kaspersky identificou mais de 4.500 dispositivos de controle de refrigeração acessíveis pela internet no Shodan. No Censys, ferramenta semelhante, foram encontrados aproximadamente 4.300. Os números podem incluir os mesmos equipamentos e não significam que todos tenham sido invadidos. Ainda assim, mostram quantos dispositivos podem ser localizados na rede.
Para Assolini, o avanço dos ataques tem relação com a capacidade dos criminosos de utilizar novas tecnologias para ganhar escala. A Inteligência Artificial, por exemplo, permite automatizar invasões, encontrar vulnerabilidades com mais rapidez e desenvolver golpes cada vez mais difíceis de reconhecer.
“Os ciberataques continuam crescendo porque, enquanto as tecnologias de proteção evoluem, os criminosos também se sofisticam, utilizando Inteligência Artificial para automatizar ataques, explorar vulnerabilidades e ampliar a escala das invasões”, diz.
Mas não é necessário que os criminosos inventem uma nova forma de invasão a cada dia. Muitas ações ainda utilizam técnicas conhecidas, potencializadas pela velocidade e pelo alcance que a tecnologia proporciona.
“Muitas empresas ainda possuem sistemas vulneráveis, equipamentos desatualizados e falhas nos controles de segurança, o que facilita a ação dos criminosos. E não estamos falando apenas de ameaças futuras: já estamos vivendo essa realidade”, explica.
Outro caminho são os ataques à cadeia de fornecedores de tecnologia. Nesse tipo de operação, os criminosos comprometem um desenvolvedor ou fornecedor para chegar a outras empresas que utilizam seus serviços. Assim, uma única brecha pode abrir caminho para diferentes organizações.
Quando os dados pessoais viram matéria-prima para golpes
Se os ataques a hospitais e bancos de sangue mostram o que pode acontecer com serviços essenciais, as fraudes digitais revelam uma preocupação mais próxima das rotinas dos consumidores. Afinal, quantas vezes por dia alguém informa o CPF, telefone, endereço ou dados bancários para acessar um serviço, fazer uma compra ou receber um benefício?
Essas informações têm valor para os criminosos. E não são apenas senhas e números de cartões que interessam. Histórico de consumo, nomes de familiares, endereço e hábitos pessoais também ajudam a construir golpes personalizados.
A Inteligência Artificial torna esse processo ainda mais preocupante. Com informações sobre uma pessoa, criminosos podem criar mensagens que parecem legítimas, imitar a voz de alguém conhecido e produzir vídeos falsos. Fotografias, vídeos e dados biométricos também podem ser utilizados para fraudes de identidade, abertura de contas e solicitação de empréstimos.
“Este ano já vimos o avanço de malware capaz de se adaptar seu comportamento para escapar dos mecanismos de proteção, além da expansão de deepfakes, áudios e vídeos falsos, trojans bancários distribuídos pelo WhatsApp e ataques a pagamentos por aproximação (NFC)”, destaca.
O executivo chama a atenção para a variedade de golpes que já circulam. Entre as ameaças estão os deepfakes, trojans bancários distribuídos pelo WhatsApp e ataques a pagamentos por aproximação. Também cresceram as páginas falsas que reproduzem sites oficiais.
A Kaspersky identificou, por exemplo, páginas que simulam benefícios do governo, pagamentos de pedágio no sistema free flow e venda de ingressos para grandes eventos e shows.
O resultado é um ambiente em que nem sempre é fácil reconhecer uma tentativa de fraude. Uma mensagem pode parecer vir de uma empresa conhecida. Um áudio pode reproduzir a voz de um familiar. Um site pode ter a mesma aparência da página verdadeira.
É possível confiar os dados às empresas?
Diante desse cenário, o consumidor precisa desconfiar de toda empresa que solicita seus dados? Para Assolini, o caminho é ter mais atenção ao que é compartilhado e entender como as informações serão utilizadas e protegidas.
A recomendação é fornecer apenas os dados necessários para cada serviço e procurar saber como as empresas armazenam e tratam essas informações
“O consumidor precisa adotar uma postura de vigilância constante ao compartilhar informações pessoais, fornecendo apenas os dados realmente necessários e buscando entender como as empresas armazenam, utilizam e protegem essas informações. Com o avanço da Inteligência artificial, os criminosos não estão interessados apenas em senhas bancárias e números de cartões”, diz.
O cuidado também precisa acompanhar a evolução dos golpes. Afinal, proteger a vida digital exige atenção não apenas às senhas bancárias, mas a tudo aquilo que pode ajudar alguém a se passar por outra pessoa.
“É preciso ter com os dados digitais o mesmo cuidado que temos com a nossa segurança física: assim como trancamos a porta de casa para impedir a entrada de desconhecidos, precisamos criar barreiras para proteger nossa vida digital”, conclui o pesquisador.





