É difícil lembrar de um tempo em que as redes sociais não eram regidas por algoritmos. O falecido Orkut – que dá sinais de uma ressurreição há alguns anos, mas ainda sem previsões ou spoilers – é um bom exemplo dessa fase. Ele permitia a conexão com amigos, trocas de depoimentos, criação de comunidades e até jogos virtuais online. Tudo isso sem anúncios, conteúdos criados por IA ou impulsionamento de publicações.
Mas desde a chegada de grandes players, como Facebook, Instagram, Twitter (o atual X) e TikTok, as redes sociais ganharam uma nova cara. As conexões com amigos ainda existem, mas os anúncios passaram a fazer parte do feed. Publicações com mais visualizações ganham ainda mais força, alcançando novos públicos. Uma única pesquisa sobre a reforma da casa de uma influenciadora pode levar o usuário a consumir dezenas de vídeos sobre o mesmo tema. Sem falar nos vídeos de brain rot, que tomaram das telas ao ponto de se tornar a palavra do ano de 2025.
Esse apodrecimento mental, junto à exaustão cognitiva, anda de mãos dadas com tendências, publis de marcas, memes do BBB e social commerce. Soma-se isso à velocidade das transformações tecnológicas, das incertezas econômicas e da hiperprodutividade, e temos um consumidor cansado.
Com isso, o minimalismo digital vem ganhando novos contornos. Tornou-se desconectar-se, ficar offline, limitar o tempo de uso de telas, e até aderir a hobbies analógicos. Não por acaso, a Geração Z é uma grande adepta da nostalgia. É a galera que está aderindo ao crochê, que está aprendendo a costurar ou até a tirar fotos com cybershots e câmeras com filmes 35mm.
É nessa toada que a Perfectly Imperfect vem ganhando destaque – que mais parece uma rede social que não quer ser uma rede social.
A velha nova rede social
A Perfectly Imperfect nasceu como uma revista online. Fundada em 2020 por Tyler Bainbridge, ex-engenheiro da Meta, e Alex Cushing, o novo veículo se dedicou a entrevistar diversas celebridades na cidade de Nova York. Em 2024, lançou sua própria rede social, que leva o mesmo nome, com a abreviação PI.FYI.
A característica mais gritante da plataforma é, justamente, a vibe nostálgica. A estética remete ao início dos anos 2000, com um visual menos refinado e mais funcional. São gráficos mais simples e retangulares, com caixas de texto e imagens num estilo similar aos primórdios do Orkut ou do Tumblr.
Na rede social, usuários são estimulados a compartilharem recomendações de atividades, música, filmes, hobbies e hábitos. Ou então, a fazerem e responderem perguntas sobre tudo e qualquer coisa. Ainda, as pessoas podem fazer parte de “cenas” – como se fossem comunidades sobre fotografia, gastronomia, cidades, jogos e muito mais.
A ideia é que, ao invés de receber recomendações de algoritmos, os usuários podem receber indicações e dicas de pessoas.
Perfectly Imperfect: Desconexão conectada
Por esses motivos, apesar de não ser tão recente, a Perfectly Imperfect está atraindo diversos usuários que estão cansados da vida digital, mas não querem abrir mão de interações sociais. Até o ator Kyle MacLachlan, estrela da série Twin Peaks e Fallout, está por lá, compartilhando ideias e recomendações.

Não é raro encontrar publicações que comentam sobre a Inteligência Artificial – muitas vezes, de forma crítica. Uma cena chamada Anti-AI já conta com 518 membros que compartilham suas opiniões sobre a tecnologia. Um usuário, @lychgate, expressa que não aguenta mais ver apresentações de slides criadas com IA.
Na PI.FYF, os usuários buscam conteúdos mais autênticos, com menos filtros e de temas pouco virais. É a coleção de CDs de rock, sobremesas favoritas, fotografias de rua, podcasts e videogames independentes.
Em um mundo digital saturado por anúncios, conteúdos virais e IA, algumas pessoas buscam uma “desconexão conectada”, uma volta aos velhos tempos para se relacionar e trocar experiências de forma mais autêntica.
Dificilmente essa rede social ganhará a mesma tração que outras grandes plataformas, como TikTok ou Instagram. Mas já demonstra que os consumidores também buscam espaços em que o algoritmo tem menos presença.





