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O que está por trás da redução do preço do Ozempic em 2026?

O que está por trás da redução do preço do Ozempic em 2026?

Em 2026, o Ozempic promete se tornar mais acessível. Mas, o que mudou para que isso acontecesse e quais os benefícios para o consumidor?
Em 2026, o Ozempic promete se tornar mais acessível. Mas, o que mudou para que isso acontecesse e quais os benefícios para o consumidor?
Foto: Shutterstock.
A expiração da patente da semaglutida, prevista para 2026, inaugura um dos movimentos mais aguardados da indústria farmacêutica recente: a democratização de um medicamento que redefiniu o tratamento do diabetes e da obesidade – e que já começou a transformar hábitos de consumo, gasto familiar e até a dinâmica do setor alimentício.

A expiração da patente da semaglutida, princípio ativo presente em medicamentos como Ozempic e Wegovy, está prevista para março de 2026. E isso representa uma mudança significativa no cenário de tratamentos para diabetes e obesidade no Brasil.

Afinal, este princípio ativo, presente nos medicamentos da Novo Nordisk, deve impactar o acesso dos consumidores a esses tratamentos em três dimensões principais. São elas: preço, disponibilidade e diversidade de opções terapêuticas.

Redução de preços: efeito mais esperado

Leonardo Carvalho da Fonseca, da Medquimica Indústria Farmacêutica.

Com o término da proteção patentária, a entrada de medicamentos genéricos e biossimilares tendo como base a semaglutida se torna uma realidade palpável. Historicamente, a introdução dessas alternativas no mercado tem resultado em uma redução de 30% a 60% no preço final de medicamentos de referência.

Hoje, os produtos à base de semaglutida estão entre os mais caros nas farmácias brasileiras. Em suma, eles representam uma barreira de acesso tanto para pacientes em busca de controle glicêmico quanto para aqueles em tratamento da obesidade. Para os consumidores que necessitam de uso contínuo, essa mudança é promissora, pois poderá tornar os custos mensais mais compatíveis com o orçamento familiar.

Quem melhor explica é Leonardo Carvalho da Fonseca, gerente de pesquisa e desenvolvimento na Medquimica Indústria Farmacêutica. De acordo com ele, isso se dá porque o medicamento genérico, desenvolvido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), tem um objetivo: facilitar o acesso da população a tratamentos médicos.

E, por lei, esses medicamentos devem ter um preço inferior ao do medicamento de referência. “Assim, o principal benefício é que se tornam mais acessíveis para pessoas com menor poder aquisitivo.”

Maior oferta e menor risco de desabastecimento

A expiração da patente no mercado brasileiro promete aumentar a produção e diversificar as opções disponíveis, o que deve reduzir a dependência de um único laboratório. Isso se traduz em menos espera nas farmácias, diminuição das compras antecipadas por receio de falta do medicamento e maior previsibilidade para tratamentos de longo prazo.

Ademais, a intensificação da concorrência no mercado deverá estimular o surgimento de novas formulações, dosagens, apresentações e combinações terapêuticas. Para os consumidores, essa evolução significa acesso a tratamentos mais personalizados e adaptados à sua rotina, incluindo desde versões orais mais acessíveis até produtos com intervalos maiores entre as doses.

Com a expectativa de preços mais baixos, aumenta ainda a possibilidade de que versões genéricas ou alternativas baseadas em semaglutida sejam incorporadas por planos de saúde ou até consideradas para uso no Sistema Único de Saúde (SUS). Isso é particularmente relevante no tratamento do diabetes, uma vez que sua continuidade tem um impacto econômico significativo. Por consequência, essa mudança pode resultar em menor gasto direto por parte do consumidor, inclusão de populações atualmente excluídas devido ao custo e maior equidade no tratamento de doenças crônicas.

Os desafios

Entretanto, para os laboratórios que produzem o medicamento, com a chegada dos genéricos, o desafio está em manter sua participação no mercado. “Atualmente, o Ozempic detém quase 100% desse mercado, sendo o único disponível. Contudo, com a introdução dos genéricos, esse cenário mudará, resultando em mais opções para os consumidores”, explica Leonardo Carvalho da Fonseca.

Ele então enaltece que, geralmente, medicamentos de referência possuem uma base de clientes bastante fiel, pois há uma série de informações incorretas sobre os genéricos. “Nesse ínterim, hoje, o Ozempic é considerado seguro, e a Anvisa realiza um processo de avaliação e aprovação de dossiês muitos rigorosos. Embora a Anvisa funcione com alta qualidade, muitas pessoas ainda mantêm uma preferência pelo medicamento de referência, pois ele teve um efeito positivo para elas. Portanto, o maior desafio para o laboratório produtor do Ozempic, após a chegada dos genéricos, será conseguir preservar a fidelidade de seus clientes ao medicamento de referência.”

Para os consumidores, a popularização do medicamento, especialmente para fins estéticos, poderá ser acentuada com a redução de preços e aumento da variedade. Nesse sentido, especialistas alertam para a necessidade de reforçar orientações médicas e políticas de prescrição responsável, a fim de evitar a automedicação e os riscos à saúde que podem advir de um uso inadequado.

Ingrid Devisate é cofundadora e diretora-executiva do Instituto Foodservice Brasil (IFB). Parafraseando um estudo, do Grocery Doppio, ela mostra que seis em cada nove famílias reduziram significativamente os gastos com alimentação nos primeiros seis meses de uso da semaglugtida.

Maior revolução nutricional do século

Ingrid Devisate, cofundadora e diretora-executiva do Instituto Foodservice Brasil.

Ingrid então mostra que os impactos já são visíveis nos hábitos. 65% dos consumidores priorizam proteínas, 51% substituem refeições por shakes ou smoothies e 12% a 13% da população adulta já experimentou o uso de GLP-1. Chama atenção o fato que metade dos usuários da semaglutida não tem diagnóstico de diabetes tipo 2. “Essa transformação abre uma fronteira inédita para a indústria. O consumidor do futuro será aquele que busca nutrição eficiente, funcional e prazerosa, uma combinação que exigirá inovação em formulação, tecnologia de ingredientes e personalização.”

Não é à toa que a previsão é que o mercado global desses medicamentos supere US$ 100 bilhões até 2030, crescendo a taxas acima de 50% ao ano.

Na visão da especialista, a crescente demanda por soluções que atendam a esses novos hábitos alimentares desafia as indústria de alimentos. Isso inclui a criação de produtos que não apenas atendam às necessidades nutricionais, mas que também sejam agradáveis ao paladar. Empresas estão começando a investir em pesquisa e desenvolvimento para criar alternativas mais saudáveis, mas que não comprometam o sabor e a experiência do consumidor. “Nesse ínterim, quem entender esse novo comportamento não apenas sobreviverá à disrupção, mas poderá liderar uma das maiores revoluções nutricionais do século”, aponta Ingrid Devisate.

Semaglutida

A semaglutida pertence à classe dos agonistas de GLP-1, que atuam regulando a saciedade, o apetite e a glicemia. A combinação entre benefícios metabólicos e perda de peso significativa fez esses medicamentos ultrapassarem a esfera clínica tradicional: eles se tornaram parte de conversas culturais, de estratégias de saúde pública e, principalmente, de um mercado bilionário em rápida expansão.

A expectativa de competição mais intensa já começa a mobilizar a indústria farmacêutica. A própria Novo Nordisk tem acelerado pesquisas sobre novas formulações e moléculas de próxima geração, buscando manter sua liderança antes que concorrentes ocupem espaço. Empresas rivais, por sua vez, se preparam para lançar alternativas com maior conveniência de uso, eficácia ampliada e combinações inovadoras.

A expiração da patente, portanto, não representa apenas o fim de um ciclo regulatório, mas o início de uma nova fase – possivelmente mais competitiva, acessível e marcada por avanços tecnológicos. Em um cenário em que a obesidade é reconhecida como epidemia global e o diabetes segue entre as doenças crônicas mais prevalentes, o que acontecer a partir de 2026 terá impacto direto em pacientes, médicos, sistemas de saúde e na própria dinâmica da indústria farmacêutica.

Automedicação

No Brasil, a venda de medicamentos à base de GLP-1, como Mounjaro e Ozempic, de acordo com a IQVIA, aumentaram mais de 600% entre 2018 e 2024.

César Eduardo Fernandes, presidente da AMB.

Em meio a esse crescimento, a compra de medicamentos análogos de GLP-1 só pode ser feita mediante retenção de receita médica. A medida visa fortalecer a vigilância sanitária e diminuir os riscos associados à automedicação, ou seja, o uso indiscriminado desses fármacos, considerados hoje uma das maiores revoluções no tratamento da obesidade. Ela impacta diretamente tanto pessoas que já usavam os remédios com acompanhamento médico, como quem fazia o uso por conta própria.

Recentemente, as principais associações médicas do Brasil encaminharam uma solicitação formal à Anvisa visando a suspensão cautelar em todo o País da fabricação, comercialização, distribuição e prescrição de versões manipuladas e injetáveis de agonistas de GLP-1/GIP.

Esse pedido se fundamenta em um risco sanitário iminente. Ele está respaldado por evidências clínicas, sanitárias e policiais que indicam a circulação nacional, em larga escala, de formulações clandestinas. Essas não têm qualquer garantia de qualidade, pureza, esterilidade ou estabilidade. De acordo com o presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), Dr. César Eduardo Fernandes, a situação chegou a um ponto crítico. “Estamos diante de um cenário que ultrapassa a irregularidade pontual. O que vemos é um sistema estruturado de fabricação e venda clandestina, com risco real e imediato para a saúde dos pacientes”, afirma.

As entidades que encaminharam o documento à Anvisão são:

  • Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM);
  • Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD);
  • Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO);
  • Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO);
  • Associação Médica Brasileira (AMB).

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