/
/
A narrativa da vida faz mais sentido do que a vida real?

A narrativa da vida faz mais sentido do que a vida real?

Contra uma realidade dura de ser encarada de frente, criam-se narrativas paralelas. E há quem viva de acordo com elas. Mas será que vale a pena?
Legenda da foto

Isolamento, distanciamento, quarentena: nos últimos meses nós nos acostumamos com novas palavras e mudamos nossos comportamentos. Para preservar a nossa saúde e a nossa vida, renunciamos a muita coisa – o jantar no restaurante preferido, a convivência com os amigos, o happy hour de toda semana, a estreia no cinema, a festa de aniversário, a rotina social no local de trabalho diário, o evento tão esperado. Fomos rapidamente criando nossas bolhas de segurança e conforto mental, evidentemente, considerando aqueles que tiveram oportunidade para moldar seus ambientes residenciais para trabalhar remotamente e conciliar a vida familiar, pessoal e profissional.

Mas a quarentena forçada para uns e a necessidade de isolamento provável para outros, reforçou a dissonância cognitiva que há anos vem se disseminando nas sociedades de inúmeros países, particularmente nas ocidentais. Não é de hoje que a sociedade brasileira vem sucumbindo, de modo inconsciente à uma doença sorrateira, que pouco a pouco foi condicionando as pessoas a se fixarem em suas bolhas, procurando apenas cultivar ideias e informações que se alinhassem às suas crenças e visão de mundo.

De modo imperceptível, aos poucos fomos renunciando à nossa habilidade social de confrontar opiniões, enriquecer nossas conversas, estimular o debate a respeito dos mais diversos assuntos. Sob o signo da polarização, a sociedade sentiu-se estranhamente à vontade para se dividir e se aglutinar em polos opostos diante de qualquer assunto. Da política – esquerda ou direita – essa tendência esparramou-se por praticamente todos os assuntos e escolhas da nossa vida. Hoje, precisamos assumir uma posição que é sempre a favor ou contra uma ideia, um produto, uma pessoa, até mesmo um remédio!

As consequências dessa polarização são terríveis: de que forma podemos oferecer segurança e respeito aos cidadãos se o diálogo cedeu lugar à raiva, à agressão gratuita, ao alinhamento automático e sem reflexão à uma extremidade ou outra? A principal consequência que se observa diariamente em todas as plataformas de comunicação – mídias tradicionais, disruptivas, sociais, subterrâneas e conspiradoras – é a criação de narrativas que exploram os vieses de confirmação, crenças e zonas de conforto dos cidadãos, procurando reforçar ideias, conceitos, preconceitos, posições políticas sem dar tempo à reflexão e sem criar pontes de diálogo possíveis.

Mas os efeitos das guerras de narrativas também trouxeram consequências mais danosas às mentes individuais: a busca por construtos e histórias que modelem a realidade e a percepção das pessoas para dar sentido às suas próprias vidas. A realidade dos fatos se vaporizou diante da força de argumentos fracionados, deliberadamente montados, manipulados para trazer conforto à mentes frágeis ou incapazes de encarar a vida como ela é.

Percebam que todo fato precisa ser discutido, desconstruído, exagerado, relacionado, associado até que ele perca sua essência e daí em diante seja reduzido a um pedaço de informação que possa ser reconstruído, “ressignificado” ao bel-prazer para servir de combustível a grupos, grupelhos e redes orquestradas inflamarem seus discursos e reforçarem suas narrativas e também para empurrar os indivíduos para dentro de suas bolhas perceptivas. Camadas de informações desconstruídas, de fatos “ressignificados” vão se formando até tornarem as mentes impermeáveis à realidade. Fatos, evidências, dados, contrapontos, nada é capaz de penetrar o muro que protege e filtra toda informação para reforçar o viés de confirmação.

É incrível como a vida em si perdeu seu sentido, diante da narrativa que embala a vida e redesenha a realidade para que ela aprisione vontades, sequestre o bom senso e faça da tolerância uma atitude para os fracos. A existência só ganha o sentido com o confronto, o atropelo, a radicalização. O diálogo, a harmonia, o jogo de contrastes é demonstração de fraqueza, debilidade e uma concessão para os “inimigos”.

 

Mas então é lícito e real viver a vida que se cria e não aquela que está à nossa frente? É melhor viver nesse “Second Life” (um mundo virtual do início dos anos 2000 onde as pessoas criaram avatares de si mesmas, muitas vezes em desacordo com sua personalidade) mental que os indivíduos idealizaram para não enfrentar nada que se oponha ou divirja das próprias percepções?

Então, nesse mundo plástico, moldado para reforçar crenças rasas e ideias incansavelmente repetidas para que se tornem verdades únicas, não há espaço para o novo, o diferente, o inovador? Tudo necessariamente precisa trazer um ponto de inflexão, um interesse escuso? Caminhando nessa direção, as pessoas que se refugiam em suas realidades imaginadas não desenvolvem paranoias incontroláveis que se manifestam ao menor sinal de controvérsia ou de “ameaça” às percepções cristalizadas?

É necessário refletir até que ponto não nos tornamos reféns das nossas próprias narrativas, para que nos ajustemos às outras narrativas que nos alinhem a grupos de interesse, para que sejamos integrantes de massas de manobra. Temos de ter a coragem de ver se não estamos nos tornando simples unidades de informação que reagem aos comandos de algoritmos que podem sim comandar nossas decisões. Em última instância, a liberdade individual reside na coragem de encarar os fatos, de exercitar o contraditório, de refutar doutrinas e de formar opiniões próprias que possam até mesmo colidir com nossas crenças e até reformá-las.

Romper com a padronização e a simplificação redutora das narrativas disponíveis e autoimpostas é recuperar o direito de viver a vida real. É preciso ter coragem, independência e persistência. Não é fácil, mas vale a pena.

Melhor do que ser prisioneiro de uma realidade imaginada sob medida para dar sentido vazio à nossa vida, é encarar a verdade dos fatos, ser consciente da própria independência e correr os riscos decorrentes de ter opiniões realmente próprias.

Compartilhe essa notícia:

Recomendadas

MAIS +

Veja mais noticias

Brasileiro teme pela privacidade, mas entrega dados sensíveis à IA
Pesquisa mostra que 45 milhões de brasileiros já sofreram tentativas de golpe envolvendo seus dados; ao mesmo tempo, usuários compartilham emoções, informações de saúde e fotos com ferramentas de IA
Geração Z organiza as finanças, mas adia o planejamento para a aposentadoria
Jovens controlam melhor as finanças no presente, mas ainda enxergam o longo prazo como algo distante; para executivo da Bradesco Vida e Previdência, mercado precisa adaptar linguagem e produtos a essa nova relação com o dinheiro
O Strava virou ferramenta para escolher onde morar?
Mapas de calor criados a partir de corridas e pedaladas dão pistas sobre segurança, infraestrutura e qualidade de vida dos bairros pelo mundo
Como reduzir a queda de engajamento dos funcionários em tempos de festa
Grandes eventos e datas comemorativas desafiam a produtividade, mas também abrem espaço para empresas fortalecerem pertencimento, reconhecimento e engajamento das equipes

Webstories

SUMÁRIO – Edição 297

A evolução do consumidor traz uma série de desafios inéditos, inclusive para os modelos de gestão corporativa. A Consumidor Moderno tornou-se especialista em entender essas mutações e identificar tendências. Como um ecossistema de conteúdo multiplataforma, temos o inabalável compromisso de traduzir essa expertise para o mundo empresarial assimilar a importância da inserção do consumidor no centro de suas decisões e estratégias.

A busca incansável da excelência e a inovação como essência fomentam nosso espírito questionador, movido pela adrenalina de desafiar e superar limites – sempre com integridade.

Esses são os valores que nos impulsionam a explorar continuamente as melhores práticas para o desenho de uma experiência do cliente fluida e memorável, no Brasil e no mundo.

A IA chega para acelerar e exponencializar os negócios e seus processos. Mas o CX é para sempre, e fará a diferença nas relações com os clientes.

CAPA: Camila Nascimento
IMAGEM: IA Generativa | Runway


Publisher
Roberto Meir

Diretor-Executivo de Conhecimento
Jacques Meir
[email protected]

Diretora-Executiva
Lucimara Fiorin
[email protected]

COMERCIAL E PUBLICIDADE
Gerentes

Daniela Calvo
[email protected]

Elisabete Almeida
[email protected]

Érica Issa
[email protected]


Leandro Carvalho
[email protected]

Marcelo Malzoni
[email protected]

Rodrigo Santinelo
rodrigo.santinelo@gpadrao.com.br

NÚCLEO DE CONTEÚDO
Head de Conteúdo
Larissa Sant’Ana
[email protected]

Editora do Portal 
Júlia Fregonese
[email protected]

Produtores de Conteúdo
Bianca Alvarenga
Carolina Paes
Danielle Ruas 
Marcelo Brandão
Victoria Pirolla

Head de Arte
Camila Nascimento

Revisão
Elani Cardoso

COMUNICAÇÃO E MARKETING
Gerente
Leonam Dias

TECNOLOGIA
Gerente

Ricardo Domingues


CONSUMIDOR MODERNO
é uma publicação da Padrão Editorial Ltda.
www.gpadrao.com.br
Rua Ceará, 62 – Higienópolis
Brasil – São Paulo – SP – 01234-010
Telefone: +55 (11) 3125-2244
A editora não se responsabiliza pelos conceitos emitidos nos artigos ou nas matérias assinadas. A reprodução do conteúdo editorial desta revista só será permitida com autorização da Editora ou com citação da fonte.
Todos os direitos reservados e protegidos pelas leis do copyright,
sendo vedada a reprodução no todo ou em parte dos textos
publicados nesta revista, salvo expresso
consentimento dos seus editores.
Padrão Editorial Ltda.
Consumidor Moderno ISSN 1413-1226

NA INTERNET
Acesse diariamente o portal
www.consumidormoderno.com.br
e tenha acesso a um conteúdo multiformato
sempre original, instigante e provocador
sobre todos os assuntos relativos ao
comportamento do consumidor e à inteligência
relacional, incluindo tendências, experiência,
jornada do cliente, tecnologias, defesa do
consumidor, nova consciência, gestão e inovação.

PUBLICIDADE
Anuncie na Consumidor Moderno e tenha
o melhor retorno de leitores qualificados
e informados do Brasil.

PARA INFORMAÇÕES SOBRE ORÇAMENTOS:
[email protected]

Do clique ao dano: quem responde nas novas relações de consumo? Menos estímulos, mais experiência? Novas cobranças do WhatsApp Marco Legal da Cibersegurança: o que muda?