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Conheça a luta de Malala Yousafzai pelo direito à educação

Conheça a luta de Malala Yousafzai pelo direito à educação

A ativista é a pessoa mais jovem a receber o Prêmio Nobel da Paz, e luta para que mais de 120 milhões de meninas tenham acesso à educação.

Em seu aniversário de 2016, a ativista paquistanesa Malala Yousafzai recebeu da mãe um bilhete que a parabenizou pelo seu quarto ano de vida. Na verdade, ela fazia 19 anos. Porém, sua mãe considerava aquele dia o quarto ano de seu renascimento, depois que a filha sobreviveu a um atentado. Uma bala atingiu sua cabeça enquanto estava em um ônibus que levava meninas para casa após um dia de aula. Na época, com 15 anos, Malala defendia o direito à educação. O atentado do Talibã contra Malala foi noticiado em todo o mundo e não calou sua voz. Doze anos depois do episódio, Malala é um grande nome da luta pelo direito das mulheres à educação. Além disso, em 2014, tornou-se a pessoa mais jovem a receber um Prêmio Nobel da Paz, aos 17 anos.

“Eu me lembro do dia do ataque, porque foi no mesmo dia do exame na escola. No dia anterior, eu estava feliz e animada. Estava nervosa, mas tinha me preparado bem. Lembro de conversar com meus amigos depois dos testes sobre o quanto tínhamos nos saído bem e como poderíamos nos preparar para o próximo. A última memória que tenho é de me sentar no ônibus escolar com meus amigos, esperando que aquela viagem nos levasse para nossas casas. Aquele trajeto, para mim, se tornou muito longo, porque eu nunca cheguei lá”, relembra a ativista.

O ônibus no qual a ativista e os demais estudantes estavam foi parado por dois homens. Um deles levou o motorista para o final do veículo e, em seguida, o segundo homem entrou no coletivo escolar e perguntou: “quem é a Malala?”.

“As meninas estavam nervosas e ninguém tinha ideia do que iria acontecer. Alguém olhou para mim e, em segundos, aquela arma disparou. Eles atiraram em mim, atingiram o meu lado esquerdo da cabeça e outras pessoas foram baleadas nos braços. Eu queria perguntar para a minha amiga sobre aquele dia. Eu não me importo com o incidente, foi bom não lembrar exatamente dele”, relata Malala durante sua participação no VTEX DAY, em São Paulo.

Malala foi colocada em coma induzido e, quando acordou, estava em um hospital do Reino Unido, onde passou a viver com a família após o ataque. Ao acordar, comenta não lembrar de ter visto tudo aquilo que aconteceu.

“O que o Talibã tentou fazer foi nos parar, para que não falássemos novamente, para que não vivêssemos mais. Mas um milagre aconteceu e eu ainda estou viva. Hoje, estou em um momento em que sigo a minha paixão pela educação e, por causa disso, outras meninas podem ter acesso a esse direito. Eles cometeram um grande erro, porque queriam parar uma estudante e hoje eu vou lutar para que 120 milhões de meninas tenham acesso à educação”, comenta Malala, que em 2020 se formou em Filosofia, Política e Economia pela Universidade de Oxford, na Inglaterra.

“Essa é a minha resposta para a forma como vivo a minha vida”

O nome Malala foi inspirado em uma valente guerreira pachto que lutou na Segunda Guerra Anglo-Afegã, Malalai de Maiwand. A ativista comenta que, quando seu pai lhe deu o nome, não tinha ideia do futuro que a filha teria à frente. “Ele fez isso porque na nossa cultura há poucas mulheres conhecidas pelos seus nomes. Ela (Malalai) estava lutando naquele momento pela liberdade, mas era uma luta de espadas e armas. Hoje, a luta que temos é com livros e canetas. Essa é a luta que eu quero”, reforça.

As canetas possuem uma forte simbologia na trajetória de Malala. Em seu livro, “Eu sou Malala”, reflete sobre como as canetas são mais fortes que espadas, além de argumentar que uma criança, um professor, uma caneta e um livro podem mudar o mundo. Porém, diante da crise emergente na educação global, 120 milhões de meninas estão fora das escolas.

“Há diferentes razões, como a pobreza e a discriminação, falta de infraestrutura, professores, produtos sanitários, transportes e instalações. Se queremos resolver o problema das crianças fora da escola, temos que resolver esses desafios. O Fundo Malala, iniciado em 2013, começou com o apoio de 14 garotas. Hoje, estamos em 80 países, trabalhando com mais de 100 ativistas, apoiando diferentes grupos e organizações. No Brasil estamos apoiando 11 ativistas educacionais”, comenta.

Malala, que já havia visitado o Brasil em 2018, comenta que, por aqui, foram lançados programas com ativistas para tornar a educação mais acessível e ajudar meninas a se tornarem apoiadoras do futuro. Além disso, estão tentando tratar a discriminação de gênero no sistema educativo.

“Quero continuar apoiando, porque acredito que no Brasil e em todos os países do mundo nós podemos enfrentar esse desafio e fazer mudança através da implementação dessas políticas. A mudança real existe na ação coletiva. A minha história começou com uma mudança, mas ela nunca teria chegado tão longe sem ajuda e o apoio de outras pessoas ao meu redor. Quando falamos em ampliar a educação no Brasil, falamos em levar educação para todas as crianças do mundo”, acrescenta.

A ativista ressalta que, apesar do atentado, não teme por sua vida por ser uma figura pública que apoia uma causa que, às vezes, não agrada alguns grupos. Malala pontua querer ter certeza de que vive uma vida com significado.

“O que eu aprendi com o passado e em poucas décadas é que a vida é muito valiosa, e não sabemos quanto tempo nós temos. Então, com o tempo que tenho, quero causar esse impacto. Espero que todos nós compreendamos a oportunidade que temos na nossa casa, no nosso espaço de trabalho, na escola, onde podemos fazer a diferença e ajudar alguém. Acho que essas são as oportunidades. Nós podemos fazer a mudança acontecer”.

Malala Yousafzai e o Prêmio Nobel da Paz

Em 2014, Malala, então com 17 anos, se tornou a pessoa mais jovem a receber um Prêmio Nobel da Paz. Poucas horas antes de receber o reconhecimento, seguiu sua rotina normalmente e foi para escola. A ativista lembra que, naquele dia, o pai e a equipe a aconselharam para que faltasse à aula, e fosse feita uma comemoração e coletiva de imprensa caso o anúncio fosse realizado. Porém, ela se negou. Enquanto estava na aula de química, foi chamada pelo diretor.

“Normalmente, te chamam quando você aprontou alguma coisa. Eu fiquei nervosa, perguntando o que que eu fiz, e ele me disse que eu tinha ganhado o Prêmio Nobel da Paz. Ainda bem que não foi algo ruim. Quando eu ouvi, fiz uma pequena palestra na minha escola. Agradeci a todos, aos professores, e desejo que todos tenham acesso à educação como eu tenho. Eu ainda tinha o restante do dia de aula e as pessoas diziam que eu deveria fazer uma coletiva de imprensa. Eu dizia que não, porque tinha que terminar meu dia na escola. Estava recebendo o Prêmio Nobel da Paz pela educação, não poderia faltar na escola nesse dia. Então, terminei o dia e depois fiz as entrevistas”, relembra.

Hoje, aos 26 anos, Malala reforça que trabalhar com o ativismo de outras garotas dá esperança. No Fundo Malala, outras meninas, que assim como a ativista, recebem voz para lutar pela mudança de realidade dos locais onde cresceram.

“O ativismo é parte do seu coração, e isso se torna parte de você, afetando a vida diária. Nossa organização está pensando no futuro das meninas, e no porquê elas estão perdendo a oportunidade da educação. Isso me lembra do momento em que eu tinha 11 anos e a educação das meninas foi proibida, foi tirada de nós. Eu gritava porque queria que o mundo falasse por nós. Hoje, me vejo numa posição em que posso fazer a minha parte, pequenininha, para educação das meninas. Essa é a luz guia para mim”, finaliza.

Foto: TMP – An Instant of Time/Shutterstock.com.

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