Mais do que uma trajetória empresarial, a história da Lupo é marcada por coragem, ousadia e pela capacidade de transformar desafios em legado. Há mais de um século, a família Lupo deixou a pequena vila de Strigno, no norte da Itália, para recomeçar no Brasil, em um cenário de incertezas, mas também de esperança. A Itália, naquele momento, vivia uma situação difícil e vida precária, sem esperança de futuro. E foi em Araraquara, interior de São Paulo, que os Lupo iniciaram uma jornada que atravessaria gerações.
Foi na década de 1920 que Henrique Lupo deu início a uma modesta fábrica de meias dentro de casa, com poucas máquinas, trabalho intenso e o apoio da família. Com o envolvimento de funcionários, filhos e, depois, netos, a operação cresceu, transformando-se em uma marca que carrega, até hoje, o valor do trabalho coletivo e da persistência.
Mais do que produtos, a Lupo construiu um patrimônio simbólico, sustentado por memória, afeto e dedicação – legado que continua sendo tecido a cada nova geração e a cada nova estratégia de negócios.
Em 2025, o Grupo registrou receita líquida de R$ 1,6 bilhão, alta de 2,8% sobre o ano anterior, e lucro líquido ajustado de R$ 158,7 milhões. Os resultados reforçam a capacidade da companhia seguir com sucesso e relevância mesmo após mais de um século de atuação.
Nova fase
Para a Lupo, superar os 100 anos de história mostra que tradição e evolução podem caminhar juntas. Rogério Guimarães, diretor de Lupo Sport e Franquias do Grupo Lupo, diz que a longevidade da empresa está diretamente ligada à consistência de seus princípios. “A nossa fórmula está em fazer sempre o melhor em tudo o que fazemos, sustentados por três pilares inegociáveis: qualidade, inovação e respeito ao consumidor e ao varejo. Mesmo diante de pressões por atalhos, nunca abrimos mão desses princípios”, afirma.
Segundo o executivo, essa lógica orienta também uma nova fase da Lupo, com expansão para novas categorias e formatos. “Sempre que avaliamos uma nova categoria, uma nova tecnologia ou um novo formato de loja, fazemos a mesma pergunta: isso fortalece ou enfraquece esse propósito? Essa é a nossa bússola.”
Lupo Sport como aposta de crescimento
O exemplo mais recente dessa proposta é a linha esportiva da marca. A Lupo Sport nasceu de forma muito orgânica, segundo Rogério. “Surgiu inicialmente como uma linha de produtos dentro da própria Lupo, mas cresceu com tanta força e relevância que, em determinado momento, ficou claro que não se tratava apenas de mais uma categoria de produtos, e sim de uma marca com identidade, propósito e público próprios”, conta.
Rogério explica que a leitura autêntica do comportamento do brasileiro guiou essa construção. “O esporte e o bem-estar passaram a fazer parte da rotina de forma muito mais ampla e democrática do que no passado. Com sua tradição, capacidade industrial e autoridade em conforto e qualidade, tinha todas as credenciais para ocupar esse espaço de maneira legítima.”
A Lupo Sport cresceu 34,7% em receita líquida frente a 2024, alcançando R$ 371,5 milhões e consolidando o segmento de performance e bem-estar como uma das principais apostas estratégicas da marca.
A expansão também se materializa em novas frentes. Em 2025, a Lupo deu um passo relevante ao entrar no mercado de calçados com o lançamento do tênis Origem, posicionado entre conforto, bem-estar e lifestyle. A iniciativa amplia o portfólio para além das tradicionais meias e underwear, reposicionando a marca dentro de um território mais amplo de consumo.






Eficiência industrial e reorganização produtiva
O desempenho da companhia também está ligado a sua estratégia no campo industrial. A empresa inaugurou sua primeira fábrica fora do Brasil, no Paraguai, voltada à produção de meias básicas. A decisão está alinhada à busca por eficiência de custos em um ambiente cada vez mais competitivo.
Paralelamente, a companhia avançou na reorganização produtiva, transferindo o setor de colantes para Itabuna (BA) e ampliando a produção de itens sem costura em São Paulo, além de concentrar a malharia atualmente localizada em Maracanaú (CE).
A agenda de eficiência também inclui iniciativas ambientais, como a adoção de fios pré-pigmentados, que reduzem significativamente o consumo de água, energia e insumos químicos – ponto cada vez mais relevante na relação entre marcas e consumidores.
Omnicanalidade reforça a experiência
A estratégia de marca e industrial da Lupo também se conecta diretamente à transformação do consumidor e, consequentemente, do CX. “O consumidor enxerga marcas e experiências, não canais. É por isso que o nosso papel é estar onde ele está, da forma como ele deseja ser atendido, seja no ambiente físico ou no digital. Esse é o princípio que orienta a nossa estratégia”, explica Rogério.
Na prática, isso se traduz em uma operação cada vez mais integrada. As lojas deixaram de ser apenas pontos de venda e passaram a atuar como hubs logísticos: hoje, 60% das entregas realizadas em São Paulo saem das próprias unidades físicas, garantindo mais agilidade e proximidade. O uso de PDV móvel eliminou filas e trouxe fluidez ao atendimento, mantendo o vendedor ao lado do cliente durante toda a jornada.
Personalização no digital
No digital, a personalização ganha protagonismo. A marca utiliza estratégias robustas em CRM para construir relações mais próximas e relevantes, permitindo que cada vendedor opere como um “mini e-commerce” via WhatsApp e redes sociais. A lógica é simples: cada vendedor da rede tem acesso a um aplicativo de Vendas Digitais, por meio do qual pode montar uma vitrine personalizada, de acordo com seu estilo de atendimento e com o perfil dos seus clientes.
“Um cliente pode receber uma mensagem via WhatsApp com uma sugestão assertiva enviada pelo mesmo vendedor que o atendeu. Esse vendedor compartilha o link do seu mini e-commerce personalizado, o cliente escolhe os produtos, realiza o pagamento e decide se prefere receber em casa ou retirar na loja. Ou seja, a venda não termina quando o cliente sai da loja física. Ela continua no digital, de forma natural e conveniente“, detalha Rogério.
O CRM é o que dá inteligência a toda essa operação. Com ele, o vendedor passa a conhecer melhor o comportamento do cliente, oportunidades de complementação e o momento mais adequado para um novo contato. “Assim, a venda deixa de ser apenas transacional e passa a construir uma relação mais próxima, contínua e relevante”, pontua Rogério.
Tomada de decisão com IA
Segundo Rogério, a tecnologia também avança dentro da companhia. “Estamos implantando o novo SAP, que já virá embarcado com IA, o que elevará a qualidade da nossa tomada de decisão orientada por dados.”
Na prática, essa evolução traz mudanças relevantes, segundo o executivo. “Gerir uma operação com cinco fábricas, uma malha logística complexa e presença em mais de 35 mil pontos de venda exige decisões cada vez mais rápidas, precisas e bem fundamentadas. Com a IA embarcada no ERP, passamos a atuar com mais capacidade preditiva e prescritiva, elevando a qualidade da tomada de decisão em toda a operação”, frisa.
Rogério também destaca que essa mudança auxilia na cadeia de suprimentos, com uma reposição mais inteligente, redução de rupturas e menor capital parado em estoque. “No financeiro, melhora a previsibilidade de fluxo de caixa e margens. No comercial, amplia a capacidade de recomendar mix ideal por loja, com base no comportamento real de venda e no potencial de cada ponto de venda”, detalha.
“A Inteligência Artificial não substitui a decisão humana, ela qualifica a decisão. Permite agir com mais velocidade e precisão. Em uma operação do nosso porte, isso faz muita diferença. Nosso foco é aplicar tecnologia com propósito, gerando valor real tanto para nossos revendedores quanto para o consumidor final”, destaca.
O futuro da Lupo e do varejo de moda
Olhando para o futuro, Rogério é direto ao apontar o que definirá os líderes do varejo de moda. “Quem conseguir combinar relevância de marca, consistência de experiência em todos os canais e agilidade para inovar terá vantagem competitiva. Quem não conseguir, perderá espaço, independentemente do tamanho ou da história que tenha construído.”
“Para os próximo anos, vamos continuar fortalecendo nosso modelo omnicanal, integrando físico e digital de forma cada vez mais fluida, e mantendo nosso compromisso com ESG”, define Rogério.
Com essa estratégia, a Lupo reforça não apenas sua longevidade, mas sua ambição iniciada há mais de 100 anos: trabalho consistente e uma marca relevante para o consumidor. “O consumidor está mais exigente, mais bem informado e menos tolerante à inconsistência. Isso favorece marcas que têm clareza de propósito, coerência na execução e autenticidade na relação com o mercado. É nesse espaço que a Lupo quer continuar crescendo.”





