Há pouco mais de um mês, a Kalshi anunciou ter levantado um novo aporte de US$ 1 bilhão. Com isso, a startup do mercado de previsões, fundada pela brasileira Luana Lopes Lara junto ao estadunidense Tarek Mansour, passou a ser avaliada em USS 22 bilhões (cerca de 114 bilhões de reais).
Quem vê esses números hoje não imagina que a Kalshi existiu por anos sem ter, de fato, um produto disponível para o público. O início, marcado por conversas com reguladores norte-americanos para viabilizar um mercado de previsões legalizado, foi de muitos “nãos”.
Luana conta que o período foi difícil. “Mas uma qualidade subestimada dos brasileiros, da cultura brasileira, é o otimismo. A gente acredita que, eventualmente, as coisas vão dar certo. Focamos no positivo e seguimos em frente. Acho que, sem isso, provavelmente a Kalshi não estaria aqui”, conta no Web Summit Rio 2026.
Nascida e criada no Rio de Janeiro, Luana combina essa perseverança com resiliência e confiança para projetar os próximos passos da Kalshi: consolidar a liderança nos Estados Unidos, avançar no mercado institucional, expandir internacionalmente, inclusive para o Brasil, e se tornar a maior bolsa de derivativos do mundo.
“Só vamos chegar lá se todos, do investidor de varejo ao Goldman Sachs, estiverem negociando na mesma piscina de liquidez. Estamos construindo essa estrutura e acreditamos que nossa posição atual no mercado nos dá o direito de vencer também nesse espaço”, diz.
O caminho para o protagonismo
Se a primeira fase da Kalshi foi dedicada a provar que o modelo de negócio poderia existir, a próxima é sobre escala.
Para isso, a empresa vem ampliando sua atuação no mercado americano com novos produtos e uma aposta crescente no público institucional. Recentemente, lançou contratos futuros perpétuos regulados nos Estados Unidos, um movimento que marca sua entrada em uma categoria tradicionalmente dominada por grandes bolsas.
Ao mesmo tempo, bancos e hedge funds começam a adotar a plataforma, algo que, segundo Luana, é essencial para os objetivos da staturp. A lógica é clara: sem instituições, a Kalshi cresce. Com elas, a Kalshi domina um mercado que, para a executiva, pode se tornar maior do que o de ações nas próximas décadas.
“Quando as pessoas estão em uma mesa de jantar, elas não vão falar sobre a ação de uma empresa de tecnologia que vai cair por conta de mais Data Centers. Vão falar sobre eleições, esportes. É muito mais intuitivo e humano pensar em mercados de previsão do que em qualquer outra classe de ativos”, afirma.

Crescer sem inflar a estrutura
Outro fator que chama a atenção no crescimento da Kalshi é a estrutura nos bastidores: a empresa acaba de chegar aos 170 funcionários e pretende manter uma equipe enxuta mesmo nos próximos anos.
Luana explica que parte dessa eficiência é fruto do uso da Inteligência Artificial. Cada engenheiro da empresa possui cerca de vinte agentes inteligentes em nuvem trabalhando sem interrupções. Em paralelo, a cultura da empresa privilegia velocidade e proximidade entre as equipes.
“Gostamos de ser muito horizontais. Cada pessoa na empresa tem, no máximo, uma pessoa entre ela e eu. E gosto da velocidade com que isso nos faz avançar”, diz Luana.
Não à toa, mesmo com o plano ousado de expansão, a projeção é chegar a 400 ou 500 colaboradores na equipe. “Mas talvez eu esteja subestimando bastante”, admite.
Brasil na mira
Voltar ao Rio de Janeiro tem sempre um significado especial para Luana. Mas o caminho para trazer a Kalshi para o País encontrou um obstáculo recente: uma decisão do Ministério da Fazenda proibiu os mercados de previsão por aqui.
A medida, para ela, não foi surpreendente. “O que está acontecendo no Brasil e em muitos outros países é um processo parecido com o que aconteceu nos Estados Unidos em 2018 e 2019, quando começamos a empresa. Foram anos educando os reguladores, o público, a mídia e a indústria.”
Essa estratégia de diálogo é o que guiará a expansão internacional. Os esforços serão voltados, principalmente, para explicar as diferenças entre mercados de previsão e plataformas de apostas.
“A Kalshi traz muita segurança para os consumidores, principalmente pela mecânica de funcionamento. Enquanto cassinos e casas de aposta ganham dinheiro quando o usuário perde, a nossa receita vem das taxas de transação. Nós queremos que os vencedores continuem conosco, trazendo informação para o mercado”, explica.
Assim, dar um passo atrás e educar diferentes países sobre o mercado de previsões é o novo grande desafio da Kalshi, que segue enfrentando resistências inclusive nos Estados Unidos.
“Sempre que você rompe com uma grande indústria, dificuldades são impostas porque é muito difícil competir. Mas, no fim, o consumidor compreende o que é melhor para ele, compartilha, adota e faz crescer. É apenas uma questão de tempo”, afirma.
“Mas é muito importante para nós atuar de forma legal e regulada. Foi assim que tivemos sucesso nos Estados Unidos e é assim que esperamos ter sucesso em outros países também”, acrescenta Luana.





