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Liderança na era da IA combina autonomia e fator humano

Liderança na era da IA combina autonomia e fator humano

No CONAREC 2026, líderes discutem como confiança, contexto, autonomia e capacidade de filtrar informações se tornam essenciais para decidir em ambientes cada vez mais rápidos e imprevisíveis
Foto: Bruno Mooca
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A IA ampliou o acesso à informação, mas não eliminou a incerteza das decisões. No CONAREC 2026, líderes da EssilorLuxottica Brasil, Águas do Rio e Veloe compartilham como decidir com velocidade em cenários cada vez mais complexos. Quando não é possível esperar por todos os dados, curadoria, autonomia, contexto e soft skills ganham importância. A IA funciona como apoio, enquanto a responsabilidade de interpretar, assumir riscos e arbitrar decisões continua humana.

Decidir rápido e acertar sempre ainda é um desafio em um ambiente no qual informações, projetos e transformações se acumulam de maneira cada vez mais veloz. Não é novidade que a Inteligência Artificial ampliou o acesso aos dados, mas, agora, o desafio da liderança se torna compreender o que realmente importa, interpretar pessoas e criar condições para que decisões sejam tomadas mesmo quando não há todas as respostas disponíveis.

Esse foi um dos principais pontos do debate “Liderar na complexidade: Decisões rápidas em cenários imprevisíveis”, realizado no CONAREC 2026. Mediado por José Papa, fundador da Highlander Ventures, o painel contou com a participação de Silvina Mirabella, general manager, da EssilorLuxottica Brasil; Anselmo Leal, diretor-presidente da Águas do Rio; e André Turquetto, CEO da Veloe.

“Temos que tomar decisões rápidas, que muitas vezes não são perfeitas.  Aliás, a perfeição vai um pouco contra a velocidade, porque você nem sempre tem todos os dados estruturados para tomar a decisão mais assertiva”, afirmou Silvina Mirabella.

Na prática, mesmo com um volume sem precedentes de informações disponíveis, continua impossível eliminar a incerteza, já que acumular dados não necessariamente torna uma decisão melhor. Para Papa, a própria IA tornou mais complexo o papel dos CEOs ao ampliar o acesso à informação e colocar sobre os líderes a necessidade de interpretar sentimentos, comportamentos, intuição e sistemas humanos individuais e coletivos.

“Todo dia eu tenho que tomar umas 10 decisões. Se eu acertar 6, está ótimo”, contou Papa, ao recordar o ensinamento recebido de um mentor.

Mais informação exige mais curadoria

Turquetto, da Veloe, destacou que aceitar a possibilidade do erro é o ponto de partida. “É tentar errar o menos possível, mas partindo do pressuposto que você vai errar.” O desafio, segundo ele, está menos na quantidade de informação e mais na capacidade de transformá-la em algo utilizável.

“Hoje a informação é vasta e é preciso saber filtrar esse dado; é aí que está o pulo do gato. Eu valorizo muito a capacidade de curadoria e foco.”

Na Veloe, uma das formas encontradas para alcança esse foco foi retirar celulares e computadores das reuniões, mantendo apenas um equipamento aberto. A intenção é concentrar a atenção na discussão e na formulação das decisões. Mas o modelo defendido pelo CEO também envolve a descentralização.

Turquetto comentou que seus executivos diretos mantêm um comitê sem sua presença e levam a ele principalmente questões que não conseguiram solucionar ou aquelas que envolvem estratégia e risco. “Você prepara as pessoas para que elas tomem decisão e para que elas te levem decisões que não são capazes de tomar.”

Silvina, da EssilorLuxottica Brasil, reforçou essa lógica ao defender a presença de “microempreendedores” em todas as posições da organização. “Quem vai decidir? São essas pessoas, que estão sentadas na cadeira.” Para ela, quem executa determinada atividade tende a conhecer mais profundamente aquela realidade do que alguém hierarquicamente superior chamado apenas para decidir.

Foto: Bruno Mooca

Confiança sem contexto não basta

Autonomia, porém, não significa simplesmente transferir decisões. Na visão de Anselmo Leal, da Águas do Rio, pessoas precisam compreender o contexto no qual estão agindo. À frente de uma operação de saneamento sujeita a vazamentos, falta de água, intervenções urbanas e ocorrências que exigem equipes disponíveis inclusive durante a madrugada, o executivo relaciona liderança à capacidade de compartilhar a causa por trás do trabalho.

“Se a gente não conseguir criar um ambiente no qual as pessoas tenham um contexto e propósito do trabalho, por mais que a gente crie um ambiente de confiança, por mais que ela esteja segura, ela não vai conseguir decidir direito”, disse.

Nesse cenário, a incerteza deixa de ser uma anomalia a ser eliminada e passa a fazer parte da gestão. “Lidar com a incerteza, lidar com o erro, o acolhimento no dia difícil, acho que esse é o nosso papel, de tirar essa pressão de quem tem que decidir, para que as melhores pessoas tomem as melhores decisões sempre”, acrescentou Leal.

É justamente nesse ambiente que confiança e vulnerabilidade ganham uma dimensão prática. Turquetto acredita que mostrar dúvidas e fragilidades não enfraquece a autoridade do líder. “Isso pode até produzir o efeito inverso ao aproximar as equipes e aumentar sua responsabilização. A não tomada de uma decisão já é uma decisão”, resumiu.

Soft skills ganham peso na era da IA

A mudança também alcança a forma de selecionar e desenvolver profissionais. Leal contou que a Águas do Rio passou a contratar em determinadas regiões considerando mais as soft skills e aquilo que mobiliza as pessoas do que um currículo excepcional. A formação técnica pode ser desenvolvida posteriormente, inclusive por meio de uma academia criada pela empresa.

“Talvez olhar, na hora de escolher o jovem, pelo soft skill, traga um ativo de longo prazo para a companhia, porque o maior ativo de uma empresa são as pessoas”, afirmou.

Turquetto vê uma relação direta entre essa transformação e a IA. Para ele, hard skills tendem a ser mais facilmente replicadas com o avanço da tecnologia, enquanto humanidades, repertório, leitura e capacidade de combinar diferentes perspectivas ganham importância. A diversidade de formação pode ampliar a qualidade da análise e da decisão.

IA é meio, não fim

A mesma tecnologia que aumenta a velocidade e a disponibilidade de informação também exige novos filtros. Silvina defendeu que a IA deve permanecer subordinada às necessidades humanas. “Bem-vindo à tecnologia, sempre, na medida que o humano esteja sempre no centro do negócio.”

Leal chamou atenção para a passagem de um mundo mais determinístico para outro baseado em probabilidades. Com os modelos de IA acelerando a formulação e o teste de hipóteses, cresce também a responsabilidade humana de arbitrar se aquilo que parece estatisticamente plausível faz sentido sob critérios éticos e sociais.

No mesmo sentido, Turquetto destacou os limites do uso da tecnologia. “A gente precisa confiar desconfiando. A Inteligência Artificial é um meio, ela não é o fim para nada. O risco está em transformar a facilidade oferecida pelas ferramentas em dependência e preguiça cognitiva”, finalizou.

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