De acordo com o dicionário Michaelis, inovação é produzir ou tornar algo novo; renovar, restaurar. Por exemplo: a pessoa inovou o velho casarão sem descaracterizar. Em outras palavras, a inovação transcende o simples ato de criar. Trata-se de um processo contínuo que busca melhorar, adaptar e agregar valor às existentes. É essencial em diversos campos, como tecnologia, design, educação, negócios e, claro, na saúde.
“Quando falamos de inovação e tendências, precisamos utilizar todo o conhecimento adquirido a partir das experiências vividas. A ideia é aproveitar o que temos para conduzir um futuro melhor”, afirma Fátima Pinho, líder na área de saúde da Deloitte Brasil. Na sua experiência, muitos executivos a procuram com o desejo de inovar, mas sem saber como implementar isso na prática. De fato, segundo ela, a situação é complexa, entretanto, não pode ser deixada de lado. “Em algum momento, precisaremos encarar essa realidade e ponderar se nossas ações estão, de fato, trilhando o caminho certo.”
E, como o mercado está mudando rapidamente, os empresários precisam se adaptar a essas mudanças. Em suas palavras, o que se destaca agora não é quem é o maior ou o menor, mas sim quem é mais ágil, quem consegue repensar seus caminhos e colocar isso em prática.
Inovar na saúde
No campo da odontologia, observa-se atualmente um crescimento notável de projetos que evidenciam como essa área pode enriquecer a saúde global do ser humano. Nesse contexto, Fátima Pinho acredita que o setor está se firmando como um agente catalisador para a mudança, superando as abordagens convencionais já estabelecidas.
Alguns executivos da medicina convencional levantam a questão: “Fátima, será que é inteligente investir em odontologia?”. Ela vê essa indagação como pertinente, pois se refere a um setor cuja sinistralidade é significativamente mais atrativa do que a da medicina convencional. No entanto, este é um momento em que o mercado começa a voltar sua atenção para a odontologia, reconhecendo não apenas quem pode disponibilizar um plano odontológico, mas também quem tem a capacidade de investir nesse ramo.
“No modelo tradicional, temos a clínica e a rede de atendimento, onde atuamos como operadora de planos odontológico. Contudo, há uma significativa oportunidade de colaboração, permitindo que possamos trabalhar com outras empresas que possuem experiências complementares para nos auxiliar em nosso avanço”, pontuou a especialista da Deloitte.
Ela também destaca que, ao observar o número de profissionais de odontologia disponíveis e a oferta alta em algumas regiões seja alta, a demanda consciente – aquela que busca o atendimento ativamente – é menor do que o esperado. “Muitas pessoas em casa deveriam estar buscando cuidados, mas não estão.”
Saúde suplementar odontológica
Os pesquisadores Gustavo G. Nascimento, Silas Alves-Costa e Mario Romandini publicaram um estudo que revela um panorama alarmante sobre a doença periodontal e o edentulismo (ausência de dentes) em todos os países do mundo. Eles utilizaram dados de 2021 do Global Burden of Disease (GBD), um estudo sobre a carga global de doenças, mas também realizaram projeções para 2050. O Brasil ocupa o terceiro lugar na proporção de indivíduos desdentados, e esse número tende a aumentar nas próximas décadas.

O levantamento “Burden of severe periodontitis and edentulism in 2021, with projections up to 2050” (“Carga de periodontite severa e edentulismo em 2021, com projeções até 2050”), publicado na revista científica Journal of Periodontal Research, deixa evidente a necessidade de políticas públicas para zelar pela saúde oral dos brasileiros.
Nesse ínterim, a saúde suplementar odontológica desempenha um papel crucial no acesso e na qualidade dos cuidados dentários que a população recebe. E a adesão a esses planos, muitas vezes motivada pela busca de serviços com melhor custo-benefício, permite que os consumidores tenham acesso a uma rede de profissionais capacitados e a uma variedade de procedimentos, que vão desde limpezas simples até tratamentos mais complexos, como ortodontia e cirurgias.
Além disso, a saúde suplementar odontológica contribui para a promoção da prevenção, uma vez que muitos planos oferecem serviços periódicos, como consultas e exames, sem custos adicionais. Essa abordagem não apenas reduz o risco de problemas dentários mais graves, mas também diminui a probabilidade de tratamentos extensivos e dispendiosos no futuro, o que por sua vez impacta no consumo de serviços de saúde odontológica.
14 milhões de indivíduos sem dentes
Analisando a sinistralidade (relação entre o custo por acionar o plano de saúde – sinistro – e o valor que a operadora do plano recebe da empresa que contratou o plano) do setor, segundo ela, houve redução entre 2023 e 2024. Ela então disse que o Brasil está passando por um momento de grande incerteza, e todos estão buscando se reposicionar para enfrentar os desafios. “É fundamental que não busquemos inovações mirabolantes sem garantir que nossa base esteja sólida.”
O que é essa base? Proporcionar um atendimento de qualidade, entender quem são os pacientes da saúde suplementar odontológica e quais são suas necessidades, além de ter dados qualificados para trabalhar. Por fim, a gestão de custos é essencial. Afinal, tomar decisões sem saber os custos envolvidos não é mais o caminho adequado. “Portanto, no setor odontológico, a informação de qualidade para a tomada de decisões é o novo petróleo”.
Essas e outras colocações de Fátima Pinho foram concedidas em uma palestra no 1º Congresso da Associação Brasileira de Planos Odontológicos (SINOG). O evento já é famoso no segmento odontológico, visto que, antes, durante 19 edições, o Simpósio de Planos Odontológicos (SIMPLO), já vinha se destacando em toda a América Latina pela sua importância, representatividade e tamanho.

IA em prol da saúde bucal
Outros insights do painel “Como conectar tendências futuras e integrá-las no Planejamento Estratégico“, foram:
- A tecnologia está transformando a odontologia, com a Inteligência Artificial permitindo diagnósticos mais precisos por imagem e assistentes virtuais melhorando o atendimento.
- A digitalização e impressão 3D aumentam a agilidade nos tratamentos, enquanto a odontologia hospitalar se expande. Há oportunidades no monitoramento domiciliar e na prevenção, especialmente em comunidades.
- A telemedicina cresce rapidamente, tanto em ambientes de saúde quanto em residências. É crucial que os investimentos em tecnologia incluam a segurança cibernética, especialmente considerando as constantes tentativas de ataques.
- Odontologia regenerativa: oferece perspectivas promissoras para o avanço das terapias avançadas.
- O Projeto de Lei nº 788/2024 permite que as farmácias ofereçam alguns serviços de atendimento, ainda que de menor complexidade.
“Já pensaram na possibilidade de haver cuidados de saúde locais nas farmácias? Alguém nessa área está tentando se antecipar e estabelecer parcerias com o varejo? Além disso, os planos de saúde, que até agora se concentravam exclusivamente em suas clínicas credenciadas, estão considerando a inclusão das farmácias nesse modelo? Estou apenas especulando, buscando uma perspectiva além do usual. Quando falamos de inovação, não devemos limitar nosso olhar apenas para a tecnologia, mas também explorar outras maneiras interessantes de nos posicionarmos”, provocou Fátima.
Pagamento baseado em valor
A Saúde Baseada em Valor (VBHC) é uma abordagem que visa centrar sua atenção no paciente, por meio da oferta de serviços de saúde que proporcionem valor e aprimorem os resultados clínicos. Nesse sentido, Fátima explicou que, no segmento odontológico, muitos recuam porque não conseguem implementar essa abordagem com informações precisas e custos adequados. “Muitos perderam consideráveis montantes ao tentarem fechar modalidades que não eram sustentáveis financeiramente. “É fundamental ter cautela nesse aspecto. Acredito sim em modelos de remuneração baseados em valor, mas isso deve ser adotado por aqueles que já possuem uma gestão madura em relação a informações e custos, conseguindo assim justificar a eficiência e a qualidade dos seus serviços.”
Na sequência, foi a vez de Mayumi Ito, coordenadora de inovação na Hapvida, tratar o assunto. Ela concorda com Fátima, que o setor odontológico está em um mercado complexo, com rigor regulatório elevado, margens pequenas e uma crescente necessidade de sustentabilidade dos negócios, além de alta competitividade na odontologia e um rápido avanço tecnológico em todo o mundo. Em suas palavras, todos esses fatores, juntos, “representam tanto uma oportunidade quanto um desafio para nos mantermos à frente”.
Em sua visão, as empresas precisam se destacar e, de fato, impactar positivamente a experiência do cliente, melhorando os desfechos para os pacientes e reduzindo custos desnecessários nas operações. “Na Hapvida, isso está intrinsecamente ligado ao nosso DNA. A inovação requer um forte apoio da autoliderança da empresa, necessitando de uma abordagem top-down, onde a liderança devem incentivar a inovação como um dos pilares fundamentais.”
Expansão da inovação
Atuando em todo o Brasil, com um imenso ecossistema de 16 milhões de pessoas no exterior e no interior da empresa, para conectar esses ecossistemas – e gerar mais valor – o segredo é um só: “vivemos analisando três dimensões: cultura, método e processo, e indicadores e resultados. Na prática, atuamos em duas frentes principais: uma focada na inovação corporativa e cultura de inovação, que analisa o ecossistema interno; e outra voltada para a inovação aberta, onde, por meio de parcerias, buscamos potencializar os resultados de inovação”.
Todas as ações da Hapvida estão fundamentadas em quatro pilares: disseminação de conteúdos e métodos; mapeamento de tendências e oportunidades de mercado; identificação de desafios e ideias dentro da empresa, e validação de problemas e soluções. “Quando abordamos o ecossistema interno e a inovação corporativa, temos como destaque o nosso programa chamado VIVE, Valorizando Ideias e Vencendo o Empreendedorismo, que visa promover a cultura de inovação dentro da empresa.”
O VIVE enfrenta o desafio de gerenciar um sistema com mais de 100 mil colaboradores, dividido em duas vertentes principais. A primeira foca na capacitação e promoção da cultura, através de iniciativas como trilhas de conhecimento e programas de embaixadores e mentores, preparando a equipe para mentorar projetos e conectar-se ao mercado. A segunda vertente visa gerar resultados por meio da gestão de ideias e programas de empreendedorismo, promovendo a criação de soluções. Essas frentes estão interconectadas em um ecossistema que favorece a inovação, estabelecendo parcerias com universidades e empresas para enfrentar desafios e monitorar tendências de mercado, visando transformar o negócio.
A mediação do painel ficou por conta de Jaqueline Sena, VP de Marketing e de Odontologia da Hapvida e VP da SINOG.





