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IA é a ferramenta, o CEO, a estratégia

IA é a ferramenta, o CEO, a estratégia

Executivos de saúde, serviços financeiros, varejo e tecnologia discutem como transformar a Inteligência Artificial em ferramenta de produtividade, sem perder de vista estratégia, cultura, dados e humanização
Foto: Bruno Mooca
Executivos de saúde, varejo e finanças debateram no CONAREC 2026 o papel estratégico da Inteligência Artificial. Eles reforçaram que a tecnologia deve ser usada como uma ferramenta subordinada a direcionamentos claros de liderança para simplificar processos complexos, elevar a produtividade e liberar profissionais para atividades que demandam julgamento humano, acolhimento e criatividade, em vez de focar apenas na substituição de postos de trabalho.

Adotar a Inteligência Artificial (IA) nas empresas não se resume à escolha de ferramentas ou à implementação de novos sistemas. Para executivos que debateram o tema no CONAREC 2026, o avanço da tecnologia exige clareza sobre objetivos, prioridades e sobre o papel que deve desempenhar na estratégia do negócio. A questão passa por entender onde a tecnologia pode gerar eficiência, melhorar experiências e liberar pessoas para atividades que dependem de julgamento, criatividade e relacionamento.

“A tecnologia é maravilhosa. Nós temos que ser muito gratos à vida porque a gente nasceu nesse tempo em que a tecnologia conversa com você”, comenta Pedro Chiamulera, founder da AIBrasil by CONFI.

Nesse cenário de mudanças tecnológicas, mudam também as responsabilidades das lideranças. Em vez de tratar a IA como uma estratégia isolada, os executivos defendem que ela precisa estar subordinada a uma direção clara.

Fernando Boscolo, CEO da Privalia, associa essa função da liderança à capacidade de transformar complexidade em decisões compreensíveis. A tecnologia pode acelerar processos, mas a direção precisa ter um caminho definido para que o ganho tecnológico esteja conectado ao negócio e à proposta de valor entregue ao consumidor.

“Mais importante do que saber o que fazer é dizer o que não fazer, porque é fundamental, com tantas opções. Se quisermos fazer tudo ao mesmo tempo, acabaremos não fazendo nada direito. Devemos ser seletivos, dizer exatamente quais são as ferramentas, quais são as direções e dar essa possibilidade para as pessoas poderem acelerar suas próprias vidas e carreira dentro da companhia usando IA”, defende.

IA na ponta do negócio

Para Marcos Loução, CEO do Porto Bank, a IA pode ir além do ganho de eficiência operacional e ajudar a levar para diferentes áreas do grupo uma experiência mais humanizada. A tecnologia precisa ser incorporada de forma alinhada ao que é importante para o cliente e também abrir espaço para que os próprios colaboradores participem da transformação.

“Cada um dos funcionários do Porto Bank pode ser um disruptor do Porto. 58% dos agentes criados no Porto Bank são criados pela ponta, pelos analistas que estão tocando os negócios”, afirma. 

A experiência da Privalia mostra outra frente de aplicação: a utilização da IA para lidar com a complexidade sem necessariamente transferir essa complexidade para o consumidor. Por exemplo: existem mais de 120 ofertas diferentes, mas a empresa consegue classificar quais são as 10 ofertas mais relevantes para um consumidor que acessou a plataforma.

“Isso é simplificação, é facilitar a vida das pessoas através de algo muito complexo. O segredo está em transformar a complexidade em simplicidade para o consumidor e também em como você explica a estratégia para o seu público, para os seus colaboradores na companhia. Aí está a eficiência de um bom CEO, que é transformar aquilo que é complexo em algo simples”, comenta Fernando Boscolo.

Ale Hadade, CEO da Birdie; Fernando Boscolo, CEO da Privalia; e Lídia Abdalla, presidente executiva do Grupo Sabin. Foto: Bruno Mooca

Saúde entre eficiência e humanização

Na saúde, a discussão sobre Inteligência Artificial ganha uma dimensão adicional porque envolve uma relação diretamente ligada ao cuidado. Lídia Abdalla, presidente executiva do Grupo Sabin, destaca que a tecnologia já produz impactos em áreas como diagnóstico por imagem, porque amplia precisão, rastreabilidade e produtividade. Exames que antes eram feitos em 30 minutos, tiveram o tempo reduzido para até 8 minutos.

Porém, o avanço não elimina a necessidade de contato humano. Para Lídia, a incorporação tecnológica precisa ser acompanhada pela preservação do acolhimento e da relação entre profissional e paciente. 

“A máquina é boa, a tecnologia é fantástica, mas eu quero sentir o acolhimento, ter cuidado e saber quem é o profissional que está junto comigo. Esse é o grande desafio das incorporações tecnológicas e, especificamente, na área de saúde: equilibrar tudo que trago de novas possibilidades e ganhos com a IA, com um atendimento e com um serviço humanizado”, explica a executiva.

Esse princípio aparece também em projetos voltados à jornada do cliente. O Grupo Sabin desenvolveu uma unidade digital com pré-cadastro, integração com o aplicativo, autorização de convênios e totens de autoatendimento. A proposta é reduzir etapas burocráticas e o tempo de permanência do paciente, mantendo profissionais disponíveis para acompanhar o processo. Assim, a média do tempo de atendimento na unidade caiu de 40 para nove minutos.

O fator humano continua decisivo

A discussão sobre o futuro do trabalho aparece justamente nesse ponto. Em vez de considerar a IA apenas como uma tecnologia capaz de substituir funções, os executivos destacam a possibilidade de redistribuir atividades dentro das organizações.

Fernando Boscolo relaciona essa mudança à necessidade de recuperar características humanas que foram reduzidas pela própria organização do trabalho. Para ele, a IA pode criar espaço para que profissionais deixem de gastar tempo com tarefas mecânicas e possam se concentrar em atividades que exigem discernimento e interação.

“A IA veio para hiper-humanizar as empresas e nós mesmos”, diz. “As pessoas querem ser humanas e querem colocar em prática todo o potencial humano que cada têm. Essa é a revolução que a IA é capaz de fazer. As companhias, ao entenderem isso, são capazes de escalar e dar mais velocidade do que elas podem fazer em termos de proposta de valor à sociedade”, acrescenta.

Dados, universidades e inovação brasileira

Outro aspecto abordado na discussão é a necessidade de fortalecer o ecossistema brasileiro de inovação. Ale Hadade, CEO da Birdie, trouxe a experiência de sua passagem pelo Vale do Silício e destacou a importância de aproximar universidades e empresas para transformar conhecimento acadêmico em tecnologia e negócios.

Ao citar o Centro de Excelência em Inteligência Artificial (CEIA), em Goiânia, o executivo defendeu a maior utilização da estrutura existente no País e uma aproximação mais efetiva entre empresas, universidades e empreendedorismo. 

“A minha provocação para vocês é: conheçam o CEIA, porque tem muita gente de conta, tem tecnologia de ponta. E uma provocação também para cobrarmos o governo para que ele apoie o ensino, as universidades federais e estaduais, para que tenhamos mais negócios entre as universidades, apoiando o empreendedorismo no Brasil”, comenta.

Responsabilidade no uso da IA

No setor financeiro, o debate ganha outra camada: a responsabilidade sobre as recomendações oferecidas aos clientes. Marcos Loução aponta que o uso da IA pode ampliar a capacidade de análise para compreender melhor o perfil e o momento de cada consumidor. Ao mesmo tempo, a tecnologia não deve ser utilizada como substituta automática do julgamento profissional.

Essa preocupação é especialmente relevante em decisões relacionadas a produtos financeiros, nas quais contexto, perfil e planejamento podem fazer diferença. Para Loução, a Inteligência Artificial pode ajudar a processar informações e acelerar o entendimento, mas sua utilização precisa estar associada a critérios claros.

“O que temos que tentar fazer é usar a IA no mercado financeiro com muita responsabilidade. Neste setor, existem motores de aceleração e automação há décadas, e tem muita gente somando essas automatizações de IA. IA não é isso, mas sim algo que consegue processar múltiplas informações, uma contextualização e indicar melhor aplicabilidade”, comenta.

Para fechar o debate, Pedro Chiamulera reforça que a discussão sobre IA também passa pelo medo e pela transformação da relação das pessoas com o trabalho. Para ele, a tecnologia pode ainda possibilitar ter mais tempo para ter mais tempo para estar consigo mesmo.

“A IA é uma ferramenta fantástica, que trará o potencial humano de dentro das pessoas. Não adianta dizer para não usar a IA, porque as pessoas vão usar. Não à toa que a IA tem feito uma revolução tecnológica e, acima de tudo, uma revolução humana: a descoberta de ser humano, não ser robô”, finaliza.

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