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CM Entrevista: “IA é simples de experimentar e difícil de escalar”, diz presidente da Accenture

CM Entrevista: “IA é simples de experimentar e difícil de escalar”, diz presidente da Accenture

Rodolfo Eschenbach explica por que transformar testes em resultados concretos ainda é o principal desafio das empresas brasileiras.
Rodolfo Eschenbach, presidente da Accenture para Brasil e América Latina.
Rodolfo Eschenbach, presidente da Accenture para Brasil e América Latina.
Foto: Divulgação.
Estudo da Accenture mostra que empresas brasileiras ampliam investimentos em IA, mas ainda enfrentam desafios para transformar a tecnologia em vantagem competitiva real. Apesar do otimismo e planos de crescimento, há desalinhamento entre líderes e funcionários, além de baixa maturidade na aplicação estratégica da IA. O próximo passo é escalar o uso com foco em dados, cultura, talentos e integração ao core do negócio para gerar valor efetivo.

O Brasil entra em 2026 com uma combinação de otimismo e cautela. De um lado, empresas projetam crescimento e ampliam investimentos em Inteligência Artificial. Do outro, ainda enfrentam desafios para transformar esse movimento em vantagem competitiva concreta. É o que revela o novo estudo Pulse of Change 2026, da Accenture, que traz um retrato do momento atual dos negócios, das carreiras e do uso de IA no País.

Segundo o levantamento, a maioria dos líderes (86%) espera um ano de mudanças mais intensas no ambiente de negócios. Ainda assim, 84% acreditam que suas empresas vão crescer no mercado doméstico, um índice relevante, embora mais tímido que o observado em regiões como América do Norte e Europa. Esse otimismo moderado também aparece nos planos de contratação, com 81% das empresas pretendendo ampliar suas equipes.

No centro de tudo está a Inteligência Artificial. Cerca de 88% das organizações planejam aumentar os investimentos na tecnologia em 2026, e um terço delas quer fazer isso de forma mais agressiva, acima da média global. Mesmo com as discussões sobre uma possível “bolha” da IA, a maioria dos líderes (74%) diz que não pretende pisar no freio.

Ainda assim, o País dá sinais de que essa jornada está em construção. Hoje, 57% dos executivos enxergam a IA mais como motor de crescimento de receita do que como ferramenta de eficiência, um patamar abaixo do visto em mercados mais maduros.

Outro tema que ganha espaço é a soberania digital. Para 93% dos líderes brasileiros, ter controle sobre dados, infraestrutura, nuvem e modelos de IA virou prioridade estratégica. 

Desalinhamento em IA

Mas, por trás desse avanço, existe um ponto de atenção importante: o desalinhamento dentro das próprias empresas. Enquanto 93% dos executivos acreditam no impacto positivo da IA, entre os funcionários esse número cai para 80%. A insegurança também aparece. Isso porque somente 44% se sentem confiantes em seus empregos, e apenas 16% dizem entender como a tecnologia deve afetar suas funções. A percepção sobre preparo segue a mesma linha: quase todos os líderes (95%) acreditam que há treinamento suficiente, mas, na ponta, apenas 60% dos colaboradores concordam.

Para entender como o Brasil pode avançar da experimentação para a geração de valor com IA, a Consumidor Moderno entrevistou Rodolfo Eschenbach, presidente da Accenture para Brasil e América Latina sobre tendências de negócios, carreiras e IA.

Confira os principais pontos.

A competitividade em IA

Consumidor Moderno: Como o Brasil pode transformar investimento em IA em vantagem competitiva real? Existe risco de ficarmos apenas como usuários de tecnologia desenvolvida fora do País?

Rodolfo Eschenbach: O aumento no interesse pela IA demonstra que as empresas brasileiras estão conscientes do potencial transformador da tecnologia. Os dados do Pulse of Change revelam que 88% das organizações no Brasil pretendem aumentar esses investimentos em 2026, e 33% planejam ampliar esses aportes de forma significativa, mais do que o observado na América do Norte e na Europa.

Para que isso se traduza em vantagem competitiva real, é preciso avançar em três frentes: desenvolvimento de talentos, fortalecimento do ecossistema de inovação e ampliação do uso da IA em aplicações estratégicas de negócio. Existe, sim, o risco de ficarmos apenas como usuários de tecnologias desenvolvidas em outros mercados, mas a própria pesquisa mostra que 93% dos líderes brasileiros já colocam soberania tecnológica, incluindo controle sobre dados, infraestrutura e modelos de IA, como prioridade estratégica. Isso indica uma consciência crescente de que competitividade em IA depende também de autonomia tecnológica e de capacidade local de inovação.

IA é simples de experimentar e difícil de escalar. Por isso a vantagem competitiva está em construir base (dados, cloud, segurança) e reinvenção de processos. Só assim a IA deixa de ser piloto e passa a ser motor de crescimento.

CM: Quais tipos de funções ou habilidades tendem a ganhar mais relevância dentro das empresas com o avanço da IA? Estamos falando mais de substituição de tarefas ou de criação de novos papéis profissionais?

O avanço da Inteligência Artificial tende a transformar profundamente o conteúdo do trabalho. Vemos uma reorganização de demandas e o surgimento de novos papéis. 80% dos funcionários brasileiros que já tiveram contato com IA acreditam que ela terá um impacto amplo nos negócios, o que indica que a tecnologia está começando a se integrar ao cotidiano das organizações. IA muda o trabalho, a força de trabalho e as ferramentas. Ou seja, o efeito mais amplo é redesenhar tarefas e criar novos papéis.

Ganham relevância habilidades ligadas à interpretação de dados, pensamento crítico, engenharia de prompts, governança de IA, segurança digital e integração entre tecnologia e estratégia de negócio. Ao mesmo tempo, profissionais que conseguem trabalhar em colaboração com sistemas inteligentes, combinando julgamento humano com análise automatizada, passam a ter um diferencial importante. A IA tende a automatizar tarefas repetitivas e liberar tempo para atividades de maior valor agregado, como inovação, relacionamento com clientes e tomada de decisão.

Rodolfo Eschenbach, presidente da Accenture para Brasil e América Latina.

IA é um desafio de liderança

CM: O estudo mostra que muitos funcionários ainda se sentem inseguros em relação ao impacto da IA no trabalho. Que tipo de liderança ou mudança cultural as empresas precisam promover para que essa transformação seja mais bem assimilada pelas equipes?

Um dos pontos que a pesquisa evidencia é que ainda existe desalinhamento entre a percepção dos executivos e a experiência dos funcionários em relação ao uso da IA. Portanto, a adoção de IA é, principalmente, um desafio de liderança e cultura organizacional. As empresas precisam comunicar com mais clareza como a IA impactará as funções, quais habilidades serão necessárias e quais oportunidades de desenvolvimento surgirão. Também é essencial ampliar os programas de capacitação contínua e criar ambientes em que as equipes possam experimentar a tecnologia com segurança.

Quando os colaboradores entendem o papel da IA como uma ferramenta de ampliação das suas capacidades, a transformação tende a ocorrer de forma muito mais positiva e sustentável. O futuro depende dos humanos que lideram, e escalar IA exige menos prova de conceito e mais mudança de mentalidade, gestão de mudança e reinvenção de processos, com Responsible AI e capacitação contínua.

CM: Com tantos investimentos previstos em IA, quais métricas ou indicadores as empresas estão usando para avaliar se esses projetos estão realmente gerando valor para o negócio?

As empresas estão começando a evoluir na forma como medem o impacto da Inteligência Artificial. Muitos projetos eram avaliados principalmente pela eficiência operacional ou pela redução de custos. Hoje, cada vez mais organizações avaliam também o impacto da IA na geração de receita, na melhoria da experiência do cliente e na velocidade de tomada de decisão.

57% dos líderes brasileiros já enxergam os investimentos em IA como mais relevantes para gerar receita do que para reduzir custos, embora esse percentual ainda seja menor do que em outras regiões do mundo, como América do Norte e Europa. Isso indica um estágio de maturidade em evolução. Na prática, as empresas estão começando a medir impacto em indicadores como aumento de produtividade das equipes, aceleração do desenvolvimento de novos produtos, melhoria da experiência do cliente, personalização de serviços e velocidade na tomada de decisões. A tendência é que a IA seja cada vez mais avaliada como um motor de crescimento e inovação, e não apenas como uma ferramenta de eficiência.

Isto é, estamos falando de resultados, não da tecnologia em si. Além de eficiência, as empresas têm olhado para métricas de crescimento, experiência do cliente e velocidade, e também para indicadores de prontidão (dados, digital core e segurança) que permitem escalar.

Os próximos passos da IA no Brasil

CM: Estamos no início, no meio ou já em uma fase mais madura da adoção de IA nas empresas brasileiras? O que deve marcar o próximo estágio dessa transformação?

Estamos num ponto de inflexão, no qual queremos capturar valor em escala. Isso exige base (dados/digital core) e mudança organizacional para integrar IA ao core do negócio. O Brasil está em um momento de transição importante. A pesquisa indica que as empresas já passaram da fase inicial de curiosidade e experimentação e estão avançando para uma etapa de expansão e integração da IA nos negócios. Mas ainda existe espaço significativo para amadurecimento. Embora os líderes brasileiros reconheçam o potencial da IA, a proporção dos que a veem principalmente como motor de crescimento ainda é menor do que em outras regiões.

O próximo estágio dessa transformação deve ser marcado pela escala, integrando a IA ao core das operações, fortalecendo a governança de dados, ampliando o treinamento da força de trabalho e desenvolvendo aplicações que impactem diretamente modelos de negócio. As empresas que conseguirem fazer essa transição mais rapidamente tendem a capturar ganhos competitivos relevantes nos próximos anos.

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