/
/
De 15 horas para 6 minutos: a virada do atendimento da TotalPass 

De 15 horas para 6 minutos: a virada do atendimento da TotalPass 

Marília Zanotti, Head de CX Latam da TotalPass, conta como transformou uma operação reativa numa máquina de resolução e por que o colaborador que treina às 5h da manhã é o seu maior ativo estratégico.
Marília Zanotti, Head de CX Latam da TotalPass, conta como transformou uma operação reativa numa máquina de resolução e por que o colaborador que treina às 5h da manhã é o seu maior ativo estratégico.
Foto: Shutterstock.
Marília Zanotti, Head de CX Latam da TotalPass, revela como a empresa transformou sua operação de atendimento ao equilibrar inteligência artificial e toque humano, elevando o CSAT de 40% para 85% no principal ponto de fricção dos usuários e aumentando a produtividade do time em 40% ao priorizar a experiência do colaborador.

Há uma imagem que Marília Zanotti usa para explicar o que significa, de verdade, falhar no atendimento: uma pessoa que acordou às cinco da manhã, chegou à academia às seis e não conseguiu entrar. “Por mais que você dê um cupom de desconto, por mais que faça a isenção, a frustração já aconteceu. Aquela pessoa é afetada no dia dela.”

É a partir de imagens concretas como essa, que não figuram em dashboard, que a Head de CX Latam da TotalPass pensa sua operação. Em seis anos na empresa, ela acompanhou um crescimento que dobrou os números ano a ano, chegando a mais de 20 mil organizações clientes em diversos países da América Latina, além do México.

Entre os aprendizados dessa trajetória, está a percepção de que escalar atendimento na velocidade do crescimento de uma empresa é um dos desafios mais complexos do CX moderno.

A conversa, realizada durante o Zendesk Relate 2026, em Denver, passou por IA, SLA, NPS, cultura brasileira e pelo paradoxo de uma empresa cujo produto é o bem-estar e que precisa garantir que a tecnologia não contradiga essa missão.

Do CSAT de 40% ao de 85%: a história de 6 minutos

Quando Zanotti assumiu a área de CX da TotalPass, o que encontrou foi uma operação centrada em volume, não em qualidade. “A gente tinha uma área muito mais de operação do que de experiência. O mindset do time precisava mudar antes de qualquer ferramenta.”

A virada veio em duas frentes simultâneas: melhorar a jornada dentro do app (para que os clientes não precisassem acionar o atendimento) e implementar uma IA que de fato motivasse retenção e não apenas a triagem. A migração para o chat com IA foi o ponto de inflexão: a operação que antes transbordava quase tudo para humanos passou a reter 70% dos contatos no bot. “Isso muda completamente o número de pessoas que você precisa contratar.”

Mas o caso mais emblemático foi o do check-in. Usuários na porta da academia sem conseguir entrar tinham um SLA de 10 a 15 horas. Ou seja, a frustração no momento da verdade mais flagrante para um cliente: a hora de entrar na academia. Depois da solução implementada, um atendimento online com liberação imediata, o SLA caiu de até 15 horas para no máximo 6 minutos. A satisfação nesse motivo de contato saltou de 40% para 85%. “Esse é o nosso maior case. E ele é 100% focado na experiência do usuário, não só no atendimento.”

A TotalPass opera em um modelo B2B2C que coloca Zanotti diante de um desafio incomum: ela tem, simultaneamente, três perfis de cliente com necessidades completamente distintas. As empresas contratantes, representadas pelo RH, as academias credenciadas e o usuário final, o colaborador que usa o benefício no dia a dia.

Logo, era necessário adotar uma abordagem que levasse em conta esses 3 públicos: canais separados para cada perfil, com estratégias de IA calibradas para cada realidade. “O chat do RH, o chat da academia e o chat do usuário final ficam cada um no seu lugar. A inteligência trabalha diferente em cada um deles.”

Para RHs e academias, o bot opera num N1, mas com transbordo mais rápido para executivos de relacionamento, porque os problemas tendem a ser mais complexos. Para o usuário final, a IA é treinada para reter com qualidade os casos que fazem sentido ser resolvidos de forma autônoma: dúvidas de plano, localização de academias, informações sobre dependentes, coleta antecipada de documentos para agilizar o SLA quando há transbordo.

“A gente mapeou muito bem o que o usuário quer resolver sozinho e o que ele não quer. Porque tem temas em que ele prefere um humano. Pagamento, por exemplo. Você consegue fazer estorno via bot? Sim. Mas o cliente quer ter certeza de que aquilo vai ser resolvido. E aí ele prefere falar com uma pessoa.”

Marília Zanotti, Head de CX Latam da TotalPass.

O promotor silencioso e o RH que precisa ser convencido

Um dos pontos mais estratégicos da conversa envolveu a visão sobre o colaborador promotor, aquele que treina toda semana, ama o benefício, mas raramente fala com o RH que decide pela renovação do contrato.

Zanotti não hesitou: o promotor silencioso já faz seu trabalho dentro da empresa. “As pessoas promotoras falam do benefício com frequência dentro da empresa. Quanto mais promotores a gente tem, mais nítido é pro RH o quanto aquele benefício é valioso.” A pesquisa de NPS, nesse contexto, é menos sobre número e mais sobre amplificação: identificar quem já defende a marca e criar condições para que essa voz circule.

O outro lado da equação, o não-usuário, também recebe atenção estruturada. Jornadas específicas para quem nunca usou, para quem usou e parou, para quem cancelou no primeiro mês. “São cenários diferentes, com abordagens diferentes. Mas a motivação é a mesma: a gente acredita no impacto que o nosso produto tem na vida das pessoas. A gente quer que elas sintam esse benefício.”

Nossa conversa também trouxe um dado da unidade de inteligência do Grupo Padrão (CX Brain): a população brasileira é a mais ansiosa do mundo, segundo a OMS. E isso tem consequência direta no CX: o consumidor brasileiro opera num estágio que os pesquisadores chamam de pós-consumo, com tolerância praticamente zero a falhas de agilidade. Para ele, demora é desrespeito.

Zanotti confirmou pela operação: “A satisfação do cliente está diretamente ligada ao SLA. Quanto mais rápido a gente responde, mais feliz esse usuário está”. E acrescentou uma camada cultural relevante: o acesso fácil e imediato a tudo no ambiente digital elevou o padrão de expectativa de forma geral. “As pessoas são mais impacientes também diante da tecnologia que já usam no dia a dia. O parâmetro subiu para todo mundo.”

A linha que a IA não pode cruzar

Em um produto cujo propósito é o cuidado, que compreende saúde física, mental e bem-estar, há uma contradição latente em automatizar demais o atendimento. Marília Zanotti tem clareza sobre onde está essa fronteira: “A gente faz os estudos e entende o que o usuário se sente confortável resolvendo com a IA e o que ele não se sente. O que ele não se sente, a gente deixa com humano. Pra que ele sinta que existe uma preocupação com ele como pessoa.”

Na prática, isso se traduz numa regra operacional simples e poderosa: após três tentativas sem resolução no bot, o cliente é automaticamente transferido para um humano. Sem exceções. “A gente não vai deixar ele brigando com o bot. Vou ter um transbordo maior, sim. Mas quero que meu cliente, se precisou entrar em contato, saia pensando: tive um problema com a TotalPass, mas eles resolveram. Rápido, com qualidade, sem looping.”

Quando a conversa chegou ao futuro da profissão de atendimento, Zanotti foi precisa. O perfil que ela busca hoje não é o de quem fecha tickets. É o de quem sente desconforto quando um problema fica em aberto.

“Eu quero a pessoa que olha pro caso e fala: esse cliente está sentindo uma dor. E que consegue trazer isso pra dentro da empresa, pro fórum de produto, pro fórum de tecnologia, pro fórum de academias. Que seja a voz do cliente onde os números não chegam.”

E acrescentou uma dimensão que poucos executivos de CX articulam com essa clareza: saber treinar IA é tão importante quanto saber atender. “Uma IA bem treinada transforma a operação. Uma IA mal treinada dá mais dor de cabeça do que se você não tivesse ela. Então o profissional que entende a IA pra fazer ela trabalhar pra ele é essencial.”

Quando o colaborador vai bem, o cliente vai bem

O encerramento da conversa trouxe o tema que talvez seja o mais disruptivo de toda a entrevista: a correlação entre a experiência do colaborador de atendimento e a experiência do cliente na ponta.

Zanotti apresentou um experimento interno que a TotalPass conduziu: o time de atendimento, que antes operava em escalas que incluíam sábados, domingos e feriados, passou a trabalhar de segunda a sexta, como todos os outros times da empresa. Os horários alternativos foram cobertos por uma empresa terceirizada. O resultado foi imediato: a produtividade do time interno subiu 40% e a satisfação do cliente aumentou 15 pontos percentuais no mesmo período.

“Quando o nosso time sente que é tão importante quanto qualquer outro time da empresa, isso reflete no que ele entrega pro cliente. Sem dúvida.”

E o mesmo vale para a adoção da IA internamente. Quando os analistas perceberam que a Inteligência Artificial estava trabalhando para eles, resumindo mensagens longas, sugerindo processos, agilizando consultas, a relação com a tecnologia mudou. “Quando eles veem a IA como aliada, entendem que a gente está investindo neles. E isso muda a perspectiva. E acaba refletindo no atendimento.”

Compartilhe essa notícia:

Recomendadas

MAIS +

Veja mais noticias

CM Innovation Summit chega à segunda edição e, dessa vez, o futuro não pode esperar 
De 10 a 13 de novembro, grandes executivos brasileiros se reúnem em Orlando para uma imersão que transforma urgência em estratégia.
Longe de substituir o Product Manager, a IA reposiciona o profissional: menos backlog, mais empatia com o consumidor e decisões de impacto.
Como a IA está recalibrando o papel do Product Manager
Longe de substituir o Product Manager, a IA reposiciona o profissional: menos backlog, mais empatia com o consumidor e decisões de impacto.
Parceria estratégica combina tecnologia com expertise operacional global para entregar experiências mais inteligentes e personalizadas.
NiCE e Konecta unem forças para impulsionar o CX com IA agêntica
Parceria estratégica combina tecnologia com expertise operacional global para entregar experiências mais inteligentes e personalizadas.
A collab entre Swatch e Audemars Piguet virou febre global, mas também abriu um debate sobre os limites do marketing baseado em hype.
Royal Pop: quando o hype vira caos nas portas das lojas
A collab entre Swatch e Audemars Piguet virou febre global, mas também abriu um debate sobre os limites do marketing baseado em hype.

Webstories

SUMÁRIO – Edição 296

A evolução do consumidor traz uma série de desafios inéditos, inclusive para os modelos de gestão corporativa. A Consumidor Moderno tornou-se especialista em entender essas mutações e identificar tendências. Como um ecossistema de conteúdo multiplataforma, temos o inabalável compromisso de traduzir essa expertise para o mundo empresarial assimilar a importância da inserção do consumidor no centro de suas decisões e estratégias.

A busca incansável da excelência e a inovação como essência fomentam nosso espírito questionador, movido pela adrenalina de desafiar e superar limites – sempre com integridade.

Esses são os valores que nos impulsionam a explorar continuamente as melhores práticas para o desenho de uma experiência do cliente fluida e memorável, no Brasil e no mundo.

A IA chega para acelerar e exponencializar os negócios e seus processos. Mas o CX é para sempre, e fará a diferença nas relações com os clientes.

CAPA: Rhauan Porfírio
IMAGEM: IA Generativa | ChatGPT


Publisher
Roberto Meir

Diretor-Executivo de Conhecimento
Jacques Meir
[email protected]

Diretora-Executiva
Lucimara Fiorin
[email protected]

COMERCIAL E PUBLICIDADE
Gerentes

Daniela Calvo
[email protected]

Elisabete Almeida
[email protected]

Érica Issa
[email protected]

Gustavo Bittencourt
[email protected]

Juliana Carvalho
[email protected]

Marcelo Malzoni
[email protected]

NÚCLEO DE CONTEÚDO
Head de Conteúdo
Larissa Sant’Ana
[email protected]

Editora do Portal 
Júlia Fregonese
[email protected]

Produtores de Conteúdo
Bianca Alvarenga
Danielle Ruas 
Jéssica Chalegra
Marcelo Brandão
Victoria Pirolla

Head de Arte
Camila Nascimento
[email protected]

Revisão
Elani Cardoso

COMUNICAÇÃO E MARKETING
Coordenadoras
Nayara Manfredi
Paula Coutinho

TECNOLOGIA
Gerente

Ricardo Domingues


CONSUMIDOR MODERNO
é uma publicação da Padrão Editorial Ltda.
www.gpadrao.com.br
Rua Ceará, 62 – Higienópolis
Brasil – São Paulo – SP – 01234-010
Telefone: +55 (11) 3125-2244
A editora não se responsabiliza pelos conceitos emitidos nos artigos ou nas matérias assinadas. A reprodução do conteúdo editorial desta revista só será permitida com autorização da Editora ou com citação da fonte.
Todos os direitos reservados e protegidos pelas leis do copyright,
sendo vedada a reprodução no todo ou em parte dos textos
publicados nesta revista, salvo expresso
consentimento dos seus editores.
Padrão Editorial Ltda.
Consumidor Moderno ISSN 1413-1226

NA INTERNET
Acesse diariamente o portal
www.consumidormoderno.com.br
e tenha acesso a um conteúdo multiformato
sempre original, instigante e provocador
sobre todos os assuntos relativos ao
comportamento do consumidor e à inteligência
relacional, incluindo tendências, experiência,
jornada do cliente, tecnologias, defesa do
consumidor, nova consciência, gestão e inovação.

PUBLICIDADE
Anuncie na Consumidor Moderno e tenha
o melhor retorno de leitores qualificados
e informados do Brasil.

PARA INFORMAÇÕES SOBRE ORÇAMENTOS:
[email protected]

Rebeca Andrade – Ensinamentos e Aprendizados O futuro do entretenimento no Brasil NBA é a melhor experiência esportiva do mundo Grupo Boticário, em parceria com a Mercur, distribui gratuitamente produtos inclusivos.