A forma de morar nas grandes cidades mudou, e junto com ela, a maneira como as pessoas consomem. Morar deixou de significar apenas ter um endereço. Hoje o que mais pesa na decisão do consumidor são questões como conveniência, flexibilidade, segurança e acesso a serviços.
É nesse cenário que ganha espaço o conceito de habitação: o Living as a Service (LaaS), modelo que trata a moradia como um serviço, com contratos digitais, menos burocracia e maior flexibilidade.
A partir dessa proposta, a Housi, plataforma de moradia inteligente, conecta edifícios, moradores, marcas e serviços por meio de tecnologia própria. A proposta é transformar a moradia em um verdadeiro ecossistema digital de conveniência.
Recentemente, a companhia elevou seu valuation para R$ 1,2 bilhão após adquirir participação societária na Smart Break, empresa de minimercados autônomos. A aquisição, amplia a estratégia da Housi de levar para dentro dos condomínios oferta de produtos e serviços que fazem parte do cotidiano dos moradores.
Para Alexandre Frankel, fundador e CEO da Housi, os edifícios podem se tornar uma das principais plataformas de distribuição de produtos e serviços da próxima década, seguindo uma lógica semelhante à observada com marketplaces, aplicativos de entrega, assinaturas e outros modelos de consumo sob demanda.
“O edifício deixa de ser apenas o lugar onde a pessoa dorme para se tornar um ambiente que concentra serviços, consumo e experiências alinhadas ao seu estilo de vida”, explica Frankel.
A tese é que a proximidade muda a dinâmica do consumo. Se a pessoa pode comprar um produto, acessar um serviço ou resolver uma necessidade sem precisar sair do prédio, parte das etapas tradicionais da jornada de compra deixa de existir.
“Quanto maior a oferta de conveniência dentro do empreendimento, maior é a frequência de uso dos serviços e a recorrência de consumo”, diz o executivo.
Um ganho para as marcas
A mudança também interessa às marcas. Empresas como Nestlé, Natura, Unilever e Cimed já fazem parte do ecossistema da Housi. Para Frankel, a presença delas dentro dos empreendimentos também significa aumentar a proximidade e melhorar o relacionamento com o consumidor.
A principal diferença em relação à presença dessas marcas no varejo tradicional está justamente na frequência de contato. Em vez de depender de uma visita eventual a uma loja ou de uma compra iniciada a partir de uma busca, a plataforma está inserida no cotidiano do consumidor.
Isso cria uma relação potencialmente mais recorrente. Ao mesmo tempo, reduz deslocamentos e fricções na jornada de compra, dois fatores que ganham relevância em uma rotina urbana cada vez mais acelerada.
Além de um ambiente de relacionamento e distribuição, os condomínios se tornam fontes de dados sobre comportamento, frequência de uso e preferências – o que ajuda na construção de novas ofertas.
“Por meio da Housi AppSpace, as marcas passam a integrar o cotidiano. Além de disponibilizar produtos e serviços, elas conseguem desenvolver experiências, ativações e benefícios personalizados para comunidades específicas, criando um relacionamento mais recorrente e relevante do que o proporcionado pelos canais tradicionais”, explica Frankel.
Apesar das vantagens, trata-se de um canal complementar da jornada de consumo. “Resolve um momento específico, no qual a necessidade surge enquanto a pessoa está em casa. O diferencial está na proximidade. Se um serviço ou produto pode estar a um elevador de distância, devolvemos tempo ao consumidor”, afirma.
Smart Break amplia o ecossistema
A participação na Smart Break é parte da estratégia de conveniência da Housi. Os minimercados autônomos funcionam como uma porta de entrada para um ecossistema mais amplo de serviços dentro dos edifícios.
“Nós investimos na Smart Break porque enxergamos uma infraestrutura pronta para acelerar um ecossistema muito maior, que conecta consumo, serviços, dados e relacionamento dentro dos edifícios”, afirma Frankel.
Além dos minimercados, a Housi oferece soluções como lavanderias, carregadores para veículos elétricos e serviços de profissionais homologados pela plataforma. Todas as frentes estão reunidas no ambiente digital Housi AppSpace.
A lógica é fazer parte da vida do consumidor facilitando tarefas do dia a dia e entregando valor perceptível. Uma estratégia que aproxima a lógica do condomínio daquela já observada em plataformas digitais: quanto mais necessidades são concentradas em um mesmo ambiente, maior tende a ser a frequência de uso.
A próxima camada da moradia
Mas existe um desafio nessa equação. Transformar conveniência em hábito exige mais do que disponibilizar serviços. É preciso garantir escala, adesão dos moradores, eficiência operacional e rentabilidade para que o modelo se sustente no longo prazo.
É justamente por isso que, na visão da Housi, o futuro dos edifícios inteligentes não será medido apenas pelo número de serviços disponíveis, mas pela capacidade de incorporá-los à rotina.
“Acredito que os prédios que não nascerem ou se tornarem inteligentes, estão condenados a se tornarem obsoletos, antiquados, pois não serão elegidos pelos investidores ou moradores que já enxergam as soluções digitais como essenciais no ecossistema predial”, afirma Frankel.
De endereço a plataforma
A transformação, portanto, vai além da tecnologia instalada no prédio. Ela envolve uma mudança na própria função do endereço. Quando um condomínio passa a concentrar serviços de alimentação, compras, mobilidade, bem-estar e conveniência, ele começa a disputar uma parte da jornada que antes acontecia exclusivamente fora de casa.
Para a Housi, os indicadores financeiros, como aumento da receita recorrente para condomínios, geração de valor para incorporadores e marcas, bem como maior engajamento dos moradores, serão consequência dessa mudança.
O principal sinal de que a transformação aconteceu, porém, seria mais simples: quando o consumidor deixar de enxergar o consumo dentro do próprio edifício como uma novidade.
“Assim como hoje ninguém questiona se faz sentido pedir comida por aplicativo, a conveniência integrada à moradia passará a ser simplesmente a forma natural de viver. Essa é a transformação estrutural que estamos construindo”, afirma Frankel.
Se essa visão se confirmar, o próximo grande ponto de venda pode estar mais perto do consumidor do que uma loja de rua ou um shopping. Pode estar, literalmente, a um elevador de distância.





