Quer entender o comportamento da Geração Z no TikTok? Comece um hobby analógico!
A GenZ é nativa digital e altamente conectada. Tudo à sua volta – desde as relações pessoais até a forma de aprender e descobrir novas informações – passa pelas telas, algoritmos e conexões instantâneas. Ainda assim, esse público tem impulsionado um movimento que pode parecer contraditório: o resgate das atividades offline.
Se até pouco tempo atrás bordado, crochê, fotografia em filme e cerâmica eram considerados artesanatos protagonizados pelos consumidores mais velhos, essa realidade já mudou. Agora, essas práticas estão ocupando o feed e a rotina dos jovens conectados.
A jornada de descoberta

Tudo começa com um vídeo no TikTok. Ou quem sabe, um amigo ou parente que apresentou a arte do crochê, da cerâmica, do bordado. Mais do que um espaço de descoberta, a rede social também se torna uma plataforma de aprendizado. Usuários, criadores de conteúdo, influenciadores e marcas demonstram na prática como aquele hobby funciona.
Segundo uma pesquisa do TikTok, realizada em maio de 2025, 50% dos usuários brasileiros começaram um novo hobby após vê-lo na rede social. Ainda, 25% estão interessados em usar o TikTok para iniciar um novo hobby, com 70% descobrindo múltiplas atividades por lá.
“Notamos que os usuários são inspirados a começar hobbies pelos conteúdos que consomem na plataforma”, resume Judith Gómez Machado, líder de Parcerias de Conteúdo do TikTok Latam.
A pesquisa também aponta que 23% dos respondentes começaram a fotografar após ver vídeos a respeito na plataforma. Já outros 20% se aventuraram na pintura, e outros 11% na costura ou bordado. “O TikTok torna esses hobbies acessíveis, desmitifica aprendizados e apresenta para novos públicos.”
Depois de aprender o básico, chega a hora do usuário começar a compartilhar suas próprias criações. Alguém posta um vídeo, outra pessoa comenta, pergunta-se como chegou naquele resultado, e outra publicação demonstra na prática como alcançar o resultado.
Cria-se assim um ciclo vicioso (e viciante) de publicações, compartilhamento e engajamento em torno de comunidades dedicadas.
O retorno do vintage
A tendência tem algo a ver com o retorno do vintage. Segundo um estudo do Archbridge Institute, de 2025, 68% dos adultos da Geração Z se sentem nostálgicos por épocas anteriores a eles. É o caso, por exemplo, dos anos 1990, quando vinis, CDs e jogos de tabuleiro dominavam a cena. 73% dos jovens adultos são interessados em mídias e estilos do passado.
Ainda segundo o estudo, essa nostalgia histórica ajuda os consumidores a lidarem com a ansiedade e incertezas. Isso porque o saudosismo promove um equilíbrio entre o digital e o analógico.
Ou seja, mais do que nostalgia, trata-se de uma resposta comportamental ao excesso digital. “A criação manual oferece uma causa e efeito de forma clara: você coloca tempo e esforço, e vê um resultado físico tangível”, destaca Judith. “Para as gerações que cresceram imersas no ambiente digital, essas atividades podem representar uma forma de se reconectar com o mundo físico.”
Do legado ao lifestyle

Se o analógico virou tendência, marcas tradicionalmente associadas a públicos mais maduros ou a décadas passadas voltam à tona e passam por um processo de rejuvenescimento. São elas que fornecem para a nova geração de consumidores materiais, ideias, inspirações e caminhos para praticar novas atividades.
É o caso da Círculo. Fundada em 1935, é uma das maiores indústrias têxteis do Brasil e a maior fabricante de fios para trabalhos manuais da América Latina. Atualmente, a empresa conta com diversos tipos de produtos têxteis, como fios para bordado, crochê, macramê, amigurumi, tricô, além de industriais, tecidos e acessórios. São cerca de 10 mil SKUs, presença internacional em 60 países e previsão de crescimento entre 7% e 10% para 2026.
Para o CEO da Círculo, Osni de Oliveira Junior, “o artesanato têxtil deixou de ser uma atividade restrita a gerações passadas para se tornar um pilar de expressão da Geração Z”. Ele aponta que esse público é jovem e hiperconectado, que busca no fazer manual não apenas um hobby, mas uma forma de empreendedorismo e autenticidade.
“Esse interesse é refletido no crescimento da nossa comunidade digital e na demanda por fios que permitem a criação de peças de moda autoral e acessórios personalizados”, pontua.



Nova geração na costura
Outra marca tradicional que vê movimento semelhante é a Singer. Conhecida pela qualidade das máquinas de costura, a empresa vê um novo momento de busca por atividades criativas – também pela possibilidade de desenvolvimento socioeconômico.
Segundo pesquisas internas da Singer, 76% da base de consumidores de máquinas de costura está hoje na faixa entre 18 e 39 anos. Ainda, 77% dos usuários utilizam a máquina para hobby ou uso doméstico, enquanto 76% fazem uso diário ou semanal.
“É um público que se aproxima da atividade não apenas pela personalização ou sustentabilidade, mas também pela oportunidade de aprender uma habilidade produtiva e transformar isso em fonte de renda”, destaca Concheta Feliciano, diretora de Marketing & E-Commerce para América Latina e Ásia-Pacífico da SVP Worldwide, proprietária das marcas Singer, Husqvarna Viking e Plaff.
Luxo emocional

Esses consumidores vão na contramão do movimento tecnológico recente. Enquanto a IA demanda e promete mais velocidade e produtividade, a nova tendência oferece uma ressignificação do valor do tempo. “Antes, a pressa era a regra; hoje, a dedicação a um projeto físico é vista como um luxo emocional”, afirma Osni de Oliveira Junior. “Produzir algo do zero gera uma conexão profunda com o objeto e com o próprio processo criativo.”
Mais do que isso, trata-se de uma desconexão intencional, que se relaciona a outras tendências, como o Slow Living – que valoriza rotinas mais simples, presença e consumo consciente – e Soft Life – que questiona a ideia de produtividade e abre espaço para atividades fora das telas.
“Nesse cenário, práticas como costura, crochê ou cerâmica ganham novo significado”, destaca Concheta Feliciano. “Elas exigem atenção, tempo e envolvimento manual, criando uma experiência mais sensorial e concreta. Ao mesmo tempo, permitem expressão pessoal e a sensação de realização ao produzir algo físico. Para muitos jovens, essas atividades funcionam como uma forma de desacelerar, se reconectar com processos criativos e criar algo próprio.”
Autenticidade no analógico
Para a executiva, o “feito à mão” também ganha um novo significa de autenticidade, identidade e exclusividade para as novas gerações. Isso pode ser visto na busca e criação de peças únicas, personalizadas, com personalidade e estilo próprio.
“Mais do que uma habilidade técnica, costurar passou a ser também uma forma de expressão individual e de construção de estilo”, afirma.

Foto: David Calvert / Shutterstock.com.

Foto: lev radin / Shutterstock.com.
Essa busca por autenticidade também é sentida pela Fujifilm. A empresa, tradicional japonesa especializada desde 1934 em equipamentos e filmes fotográficos, é uma das queridinhas entre os Millennials e a Geração Z. O principal produto visado por esse público é a Instax, máquina fotográfica instantânea, que imprime fotos em papel em poucos segundos. As imagens são um tanto foscas, com cores retrô e flash estourado – a perfeita combinação vintage que leva os consumidores de volta às décadas passadas.
“Os consumidores querem algo autêntico, original, e o filme analógico traz isso”, explica Emerson Stein, diretor Comercial e de Negócios da Fujifilm. “Quando você tira foto com o celular, pode capturar cinco vezes a mesma imagem. Mas a câmera analógica captura o momento único. É isso o que as pessoas estão buscando hoje.”
Que se expressa no digital
Ao mesmo tempo, a busca por autenticidade se conecta diretamente com o ambiente digital. Além da Instax e de outras câmeras fotográficas, como a Quick Snap, de uso único, a Fujifilm também oferece produtos que dialogam diretamente com o virtual. A impressora Link, por exemplo, permite imprimir qualquer foto do celular no mesmo papel fotográfico da Instax. Ainda, o app Instax Hub ajuda o usuário a tirar a foto do filme revelado para que possa ser compartilhado nas redes sociais.
“Antigamente, você tirava as suas fotos, imprimia e botava no álbum. Hoje, ela entrou como digital – são experiências, presentes, ideias compartilháveis.” Ou seja, se antes as referências em fotografia eram profissionais da área, hoje qualquer consumidor pode compartilhar suas criações e inspirações, fortalecendo uma comunidade apaixonada pelo analógico.
Entre a tradição e a inovação

Foto: Reprodução/LinkedIn.
Apesar de não compartilhar resultados no Brasil, Emerson Stein ressalta que o revival do analógico impulsionou a venda de filmes nos últimos cinco anos no País, que dobrou, superando até mesmo a média global da Fujifilm.
Para os próximos anos, o objetivo da empresa é trabalhar novos produtos e ideias que vão de encontro às tendências e demanda desse novo público consumidor. “Desafios sempre existem. O nosso é criar produtos e conteúdos novos para incentivar consumidores, que vão de encontro ao seu poder de compra e às suas necessidades”, afirma. “A Geração Z segue no nosso foco, é ela que traz ideias novas que são absorvidas por outras gerações.”
Da mesma forma, a Singer aposta nos jovens consumidores para que a marca continue relevante depois de quase dois séculos de história. Esse futuro passa pela combinação entre tradição e inovação. “A costura continua sendo uma prática ligada ao fazer manual, mas hoje também dialoga com tecnologia, design e novos comportamentos de consumo”, destaca Concheta Feliciano.
Um exemplo é a nova geração de máquinas conectadas, com Wi-Fi e interação digital, que permitem personalizar bordados e acessar bibliotecas de designs diretamente pela máquina. Novas cores, designs, funções e acessórios também dialogam com públicos e gerações distintas.
Já a Círculo investiu em um ecossistema digital completa, que inclui o aplicativo Love Círculo. Nele, usuários encontram conteúdos exclusivos sobre o universo handmade, como e-books, revistas, apostilas, receitas e conteúdos educativos. Ainda, conta com uma forte presença em redes sociais e um time de influenciadores artesãos que dialogam diretamente com esse público.
“Além disso, desenvolvemos produtos com cores e texturas que acompanham as tendências de moda mundiais, garantindo que o artesanal esteja sempre conectado ao que há de mais moderno”, aponta Osni de Oliveira Junior.
Do online para o offline
O resultado dessa simbiose entre o analógico e o digital é a expansão das atividades que, até pouco tempo atrás, eram passadas de geração em geração. “Hoje, esse conhecimento se expande globalmente através de tutoriais, redes sociais e aplicativos”, destaca Osni de Oliveira Junior. “A tecnologia não substitui o manual; ela o fortalece, facilitando o acesso a receitas, comunidades de apoio e permitindo que o artesão ganhe visibilidade e monetize seu talento em escala global.”
Uma das evidências desse impacto do digital no mundo físico está no #BookTok. A comunidade literária do TikTok, na qual usuários compartilham leituras, críticas e recomendações, ganhou força até chegar às gôndolas de livrarias e feiras de livros. Outro exemplo está nos livros de colorir – os famosos Bobbie Goods –, que se tornaram um fenômeno a partir de 2025.
“Ao compartilhar suas experiências, os usuários não apenas assistem aos vídeos, mas também se envolvem ativamente, aprendendo e praticando a atividade fora da plataforma”, pontua Judith Gómez Machado.

Foto: FotoAndalucia / Shutterstock.com.

Foto: Wirestock Creators / Shutterstock.com.
Inspiração para novos públicos
A pesquisa do TikTok ainda revela que 45% dos usuários gostam de mostrar os resultados de seus hobbies na plataforma, representando um ciclo de reforço positivo. Nele, o trabalho manual é valorizado e serve como um grande motivador. “Isso fortalece as comunidades e inspira ainda mais pessoas a começarem um novo hobby, uma vez que esse senso de comunidade e pertencimento amplifica o poder da ação”, acrescenta a executiva.
Para Concheta Feliciano, as influenciadoras e criadores de conteúdo de nicho têm um papel importante nesse processo. “São perfis que ensinam técnicas, mostram projetos de customização e compartilham o dia a dia de quem costura, tornando a prática mais acessível e inspiradora para novos públicos.”
Tanto que, segundo a executiva, a hashtag #costura já acumula mais de 5,4 bilhões de visualizações nas plataformas, o que evidencia o novo protagonismo digital da atividade. “O digital não substitui o analógico, mas ajuda a impulsioná-lo. As plataformas inspiram, ensinam e conectam comunidades.”





