O crochê que começa como passatempo vira coleção. A costura feita em casa se transforma em marca. A fotografia analógica ganha espaço não só como hobby, mas como produto.
O movimento de retomada das atividades manuais entre a Geração Z já não se limita ao lazer. Cada vez mais, ele se conecta à geração de renda, ao empreendedorismo criativo e a uma nova lógica de consumo. Nela, criar é tão importante quanto comprar.
Esse avanço não acontece por acaso. Segundo relatório do Etsy, plataforma global de produtos artesanais, mais de 70% dos vendedores começaram seus negócios a partir de hobbies, e uma parcela relevante deles pertence à Geração Z ou aos Millennials mais jovens.
Nesse cenário, surge um novo perfil de consumidor que também é produtor.
O consumidor que também vende

Se antes atividades como costura, bordado ou crochê eram associadas ao uso doméstico, hoje elas ocupam um espaço híbrido entre hobby e negócio.
“Cada vez mais pessoas enxergam a costura como uma ferramenta para gerar renda, iniciar pequenos negócios ou complementar a renda familiar”, afirma Concheta Feliciano, diretora de Marketing & E-commerce da SVP Worldwide. A empresa é dona da Singer, marca de máquina de costura queridinha tanto das gerações mais velhas quanto da GenZ.
Um dado ajuda a dimensionar esse movimento: 76% dos consumidores de máquinas de costura da Singer têm entre 18 e 39 anos, segundo levantamento da marca. É um público que se aproxima da prática não apenas pela criatividade, mas pelo potencial econômico.
Esse comportamento também aparece em estudos mais amplos. Segundo o relatório Deloitte Global Gen Z and Millennial Survey, mais da metade dos jovens dessas gerações afirma buscar formas alternativas de renda, enquanto uma parcela crescente demonstra interesse em atividades paralelas ligadas à criatividade e autonomia.
Mais do que aprender uma habilidade, esses consumidores estão construindo algo próprio e, muitas vezes, monetizável.
DIY como modelo de negócio
Esse novo comportamento está diretamente ligado à expansão da economia criativa e ao avanço do chamado “creator economy”. Dentro desse universo, a Geração Z é a que mais cresce. Para Osni de Oliveira Junior, CEO da Círculo, existem dois pilares principais que explicam essa tendência: a busca pelo bem-estar e o forte viés de empreendedorismo. “Para a Geração Z, o ‘feito à mão’ é um manifesto de autenticidade e um braço do movimento Slow Fashion. Eles valorizam a exclusividade e o propósito por trás de cada peça.”
Assim, a lógica do “faça você mesmo” evoluiu, deixando de ser apenas uma alternativa ao consumo e passando a ser uma forma de empreender. Pequenos criadores produzem peças autorais, vendem pelas redes sociais e constroem marcas próprias com base em identidade e comunidade.
Esse avanço não acontece por acaso. Segundo o relatório Creative Economy Outlook 2024, da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), a economia criativa movimenta cerca de US$ 2,3 trilhões por ano no mundo e já representa aproximadamente 3,1% do PIB global.
Na Círculo, esse movimento já é visível no dia a dia do negócio.
“Hoje vemos um público jovem que busca no fazer manual não apenas um hobby, mas uma forma de empreendedorismo e autenticidade”, afirma Osni de Oliveira Junior.
Segundo ele, cresce o número de consumidores que transformam o DIY em fonte de renda, criando produtos personalizados e explorando nichos como moda autoral e decoração.

O papel das redes na monetização

Se o digital foi o ponto de partida para o interesse nesses hobbies, ele também se tornou o principal canal de monetização. Tutoriais viram portfólio. Conteúdo vira vitrine. Comunidade vira mercado.
De acordo com dados do TikTok, 45% dos usuários gostam de compartilhar os resultados de seus hobbies, o que cria um ciclo de visibilidade e validação.
Esse comportamento se conecta a um fenômeno maior. Segundo estudo da GWI (GlobalWebIndex), a Geração Z é a mais propensa a transformar interesses pessoais em conteúdo, e conteúdo em oportunidade de renda, seja por vendas diretas, parcerias ou influência.
Na prática, isso reduz a distância entre aprender, produzir e vender.
“Esse senso de comunidade e pertencimento amplifica o poder da ação”, explica Judith Gómez Machado, líder de Parcerias de Conteúdo do TikTok Latam. “A plataforma amplifica a visibilidade dessas práticas, inspira a experimentação e conecta as pessoas em torno delas, mostrando que é possível encontrar equilíbrio e criatividade em meio à tecnologia.”
Ainda, para a executiva, a plataforma tem se consolidado como um lugar que vai além do compartilhamento de conteúdo. “TikTok tem se tornado um espaço de aprendizado mútuo, principalmente pela facilidade de criação e o potencial de viralização.”
De produto a plataforma
Diante desse cenário, o papel das marcas também muda. Não basta mais vender matéria-prima. É preciso oferecer suporte, conteúdo e ferramentas para que o consumidor consiga criar e, muitas vezes, empreender.
Na Círculo, isso se traduz em um ecossistema que vai além dos produtos. A empresa investe em seu aplicativo Love Círculo, conteúdos educativos e comunidades digitais para apoiar o consumidor em toda a jornada. “O artesão moderno busca soluções completas. Ele quer o fio de alta performance, mas também busca o conteúdo educativo, a receita exclusiva e a ferramenta que facilite o processo. Além disso, vemos o crescimento do artesanato como fonte principal de renda para muitos jovens que transformaram o DIY em marcas autorais de sucesso”, destaca Osni de Oliveira Junior.
A Singer segue caminho semelhante. A marca tem investido na digitalização da experiência, com ferramentas que orientam desde a escolha da máquina até o aprendizado da técnica. “A ideia é simplificar a jornada e tornar a informação mais acessível para quem está chegando agora nesse universo”, explica Concheta.
Esse movimento acompanha uma tendência maior. Segundo relatório da McKinsey sobre consumo da Geração Z, jovens valorizam marcas que oferecem mais do que produtos, incluindo educação, comunidade e participação ativa.
Ou seja, o produto passa a ser apenas o ponto de entrada.
Personalização como valor
Outro fator que impulsiona esse movimento é a busca por autenticidade. Em um cenário de produção em massa e fast-fashion, o feito à mão ganha valor simbólico e também econômico. “O ‘feito à mão’ passou a representar autenticidade, identidade e exclusividade”, afirma Concheta Feliciano.
O crescimento da economia do DIY aponta para uma mudança mais profunda: a transição de um modelo de consumo passivo para um modelo participativo. O consumidor não quer apenas comprar, quer criar, personalizar, vender e compartilhar.
Nesse contexto, marcas deixam de ser fornecedoras e passam a atuar como facilitadoras. Ou seja, mais do que vender produtos, precisam habilitar experiências, aprendizado e oportunidades. Surge uma oportunidade valiosa de não apenas mediar o consumo, mas construir em colaboração com esses consumidores.





