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Na contramão: geração conectada anseia por momentos offline

Na contramão: geração conectada anseia por momentos offline

Pandemia acentuou valorização de experiências do mundo físico e micro momentos de paz nunca importaram tanto
Legenda da foto

Eles estudam pelo computador, conversam com os amigos – que muitas vezes nunca encontraram presencialmente – por meio de chats, fazem compras pela internet, pedem comida por aplicativo, se exercitam por meio de aulas gravadas e disponíveis em sites ou apps e até mesmo fazem terapia online. Desde que nasceu, a geração conectada, também conhecida como geração Z, está habituada ao uso da tecnologia para a realização de boa parte de suas atividades.

Apesar de parecerem obcecados com a tecnologia, pesquisas indicam que são as experiências offline que fazem o coração daqueles que estão na casa dos vinte anos bater mais forte. Eles querem se desconectar da obrigatoriedade da presença online e valorizam atividades tradicionais: querem se casar, ter filhos, encontrar um trabalho do qual gostem e sintam-se realizados e, é claro, priorizar a saúde mental.

Geração conectada: quem são, onde vivem, do que se alimentam?

Geração conectada, DigiZens, geração verde, iGen, geração Z, geração Ctrl Z. A variedade de nomes utilizados para se referir aos nascidos entre 1995 e 2010 – segundo a classificação norte-americana, também adotada pelo pesquisador social australiano Mark McCrindle, autor de The ABC of XYZ: Understanding the Global Generations – deixa transparecer uma característica muito importante deste grupo de pessoas: eles não são mesmo fáceis de rotular nem de definir.

Apesar de terem nascido em uma época de plena expansão tecnológica, com celulares, gadgets, computadores e smartwatches, de terem tido sua primeira foto – ainda na maternidade – instantaneamente ‘revelada’ por uma câmera digital, a geração conectada dá grande valor a questões tradicionais e anseia por experiências offline.

A pesquisa Me, My Life, My Wallet (Eu, Minha Vida e Minha Carteira) da KPMG, revelou que embora possa parecer que esta geração está obcecada com o digital, e é verdade que eles buscam o que há de mais moderno neste universo, em um mundo com a Covid-19, são os aspectos mais tradicionais da vida que importam: 92% estão aflitos com a economia, 79% querem ter uma casa e 66% se preocupam com o futuro e sucesso de seus filhos – que ainda nem existem, vale destacar.

Para este grupo, aliás, os relacionamentos e contatos são muito importantes. Uma pesquisa do grupo Consumoteca, intitulada Geração Ctrl Z, reforça essa constatação. De acordo com o estudo, 80% dos nativos digitais desejam ter filhos e 43% consideram casar ou ter um relacionamento estável como um indicativo de sucesso.

Outra característica desta geração é a conectividade entre vida on-line e offline. De acordo com a pesquisa do Consumoteca, 65% dos entrevistados afirmam que não existe diferença entre a rotina real e o que postam em suas redes sociais: suas atividades são registradas o tempo todo, sendo que não existe uma separação clara e bem definida entre público e privado, online e offline.

E mais: para a geração conectada, opinar sobre um assunto em alta é uma forma de ganhar visibilidade em um cenário de constante disputa por atenção, por isso, não raramente se veem obrigados a se posicionar diante das mais variadas questões.

“A geração nativa digital se insere na vida pública via plataformas digitais. Por ali se posicionam politicamente, afetivamente, profissionalmente e ainda se divertem. Por isso, criam uma relação de segurança, em que se sentem mais seguros para expressar suas opiniões quando o posicionamento é mediado por telas. Prova disso, é que detestam falar no telefone em conversas discadas”, explica Marina Roale, head de pesquisa do Grupo Consumoteca.

Porém, o medo de falhar e de omitir opiniões ‘erradas’ somado ao sentimento de cobrança e pressão por presença e posicionamentos online levam ao contínuo estado de perturbação, que desencadeia em ansiedade.

“Por outro lado, também criam uma relação de dependência sensível com o mundo digital, pois sentem pressão social para estar ali, se posicionar e estar sempre gerando e consumindo conteúdo para que exerçam sua identidade”, pontua Marina Roale.

A necessidade de se desconectar para preservar a saúde mental

A pandemia acentuou o uso de tecnologia para todas as gerações. Se os baby boomers – nascidos entre 1946 e 1964 – tiveram de se adaptar ao uso da internet para fazer compras e resolver burocracias, os nativos digitais passaram a permanecer ainda mais tempo conectados, com aulas online e tendo o meio como única forma de interação com os colegas.

E é justamente essa intensificação do uso tecnológico que tem feito as gerações conectadas buscarem por mais experiências offline, priorizando a saúde mental e o relacionamento humano não mediado.

“Tudo em excesso cansa, né? À medida que a tela deixa de ser só o lugar de expor opiniões, fotos e se divertir, mas também invade estudo e trabalho, entramos numa certa saturação com telas e excessos de estímulos audiovisuais”, reflete a head de pesquisa do grupo Consumoteca.

A explicação, segundo Marina Roale, tem a ver com a natureza biológica do ser humano. “Não importa o quanto a tecnologia evolua, ainda somos humanos e vivenciamos este mundo a partir de cinco sentidos. No mundo digital, ficamos suscetíveis a dois deles: audição e visão. Mas isso não basta para nos sentirmos vivos. O toque, o olfato, o paladar e o combo de experiências com o mundo físico também são necessidades humanas”, analisa a head de pesquisa, que cita o número de pessoas adotando pets e plantas como uma prova dessa necessidade de estímulos.

Com o isolamento social trazido pela pandemia, essa necessidade se tornou ainda mais latente. “O que a pandemia fez foi potencializar essa saturação de telas e vida audiovisual – que apesar de possibilitar conexões incríveis da mente, também cansa o corpo.  Vale reforçar que mesmo a geração nativa digital, que nasce em um mundo conectado e dominado por essas ferramentas, sempre valorizou as experiências do mundo físico”, reforça.

Marina Roale destaca ainda que a valorização do offline atinge hoje todas as gerações por questões circunstanciais da pandemia, sobretudo os que respeitam os protocolos de segurança. “A vida conectada tem sido a alternativa viável, mas cansativa. Porém, cada geração vem vivenciando essa saturação de uma maneira. Enquanto os baby boomers resgatam receitas de família na cozinha, a geração Z cai dentro dos rituais do skincare”, compara.

Poder se desconectar é luxo – e também oportunidade para as marcas

Afirmar que não estar conectado é um luxo pode soar um pouco contraditório, afinal, 46 milhões de brasileiros não têm acesso à internet, segundo pesquisa TIC Domicílios, realizada pelo Centro Regional de Estudos para Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic) em 2019. Porém, para quem é obrigado a estar online cem por cento de tempo, desconectar-se pode, sim, ser um privilégio.

“À medida que estar online se torna algo mandatório – para se trabalhar, pagar contas e se comunicar – a possibilidade de desconexão enquanto escolha se torna, sim, uma espécie de privilégio. Na realidade, o que surge como luxo são rituais de desconexão, não uma vida sem wi-fi”, pondera Marina Roale.

Os rituais de desconexão, aliás, são uma excelente oportunidade para marcas que querem conquistar a preferência e se tornarem as queridinhas da geração desconectada.

“É importante pensar que seus consumidores andam desejando em rituais de descompressão e poder ser uma marca parceira desse momento. Fica aí um desafio interessante: no meio desse excesso de estímulos e notificações push, como você ajuda a proporcionar momentos de menos ansiedade? Agora que perdemos nossos grandes rituais como casamentos, formaturas e aniversários, micro momentos de paz nunca importaram tanto”, finaliza a head de pesquisa da Consumoteca.


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