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A folia estatística

A folia estatística

Qual a relação entre o Carnaval e a análise estatística brasileira? Confira em artigo exclusivo do diretor-executivo de Conhecimento do Grupo Padrão

Não sou nem de longe apreciador do Carnaval. Vejo essa época de folia com desinteresse e calculada distância, para dizer o mínimo. Mas sempre me chama a atenção um detalhe em meio aos blocos, desfiles, bagunças e sambas: as apurações das avaliações das escolas em São Paulo e Rio de Janeiro. Especificamente, me refiro às diferenças entre uma campeã e uma vice-campeã dos desfiles nas duas cidades: coisa de 0,1 para cá, 0,1 para lá, e temos então a escola que verá seu, por assim dizer, esforço, reconhecido. Ou então, um ano de trabalho perdido com um rebaixamento decidido na casa decimal. A diferença entre uma escola campeã e a quinta colocada pode nem passar de 1 ponto entre 300 possíveis.

À parte, o fato de ser completamente neófito na avaliação de escolas de samba – vejo apenas uma repetição sem fim de enredos que giram em torno de 100 palavras, alegorias suntuosas, mas cafonas, e um mar de pessoas andando para frente em roupas coloridas, sem dançar coisa alguma, salvo alguns dotados de maior talento acrobático – espanta-me ver como é possível decidir a sorte dessas agremiações – que trabalham intensamente, com dedicação e amor incondicionais – decidida por décimos, por jurados que demonstram cuidado imenso para conferir nota 9,9 para uma alegoria de uma escola e 10,0 para a alegoria de outra. Como é possível, subjetivamente, dizer que há diferença de 0,1 entre uma escola e outra? Seriam as escolas tão qualificadas e notáveis que a diferença entre elas, após seus desfiles, é milimétrica?

Vou mais longe: o Brasil é notadamente um país avesso às estatísticas. Já tivemos presidente que dizia que inflação na meta era aquela que ficava 0,01% do limite superior de 6,5% (ou 2% acima dos 4,5% indicados como centro da meta) estipulado pelo Banco Central. E que ainda dizia que após definir uma meta, dobraria a dita cuja…  Essa aversão às estatísticas está no dia a dia das empresas, na projeção de indicadores, na dificuldade em analisar dados, pesquisas e gráficos, para compreender o que os números mostram e escondem. Quantos empreendedores não quebram a cara justamente por desprezarem as estatísticas que mostram o quanto seus negócios carecem de viabilidade? E justamente no Carnaval, a exaltação da folia, da alegria e da brincadeira, vemos jurados empenhados em atribuir diferenças de 0,1 nas fantasias, na coreografia de mestres-salas e porta-bandeiras ou na evolução de escolas de samba.

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Não consigo acreditar que haja diferenças tão precisas entre as protagonistas dos desfiles. Não vejo como a matemática pura possa estabelecer diferenças e parâmetros claros para visões subjetivas. Na busca pela redução dos eventuais danos representados pela subjetividade, a apuração prevê 4 jurados para cada quesito, eliminando a nota mais baixa. Ainda assim, é curioso verificar que os jurados votam quase sempre em ordem unida, jamais considerando uma nota 9,5 ou 8,9 ou 7,7 para qualquer quesito. Se eles indicam apenas notas 10,0; 9,9 ou vá lá, 9,8 em casos extremos, por que então não dar apenas notas de 1 a 3? Se não existe variação brutal entre as escolas e os critérios de avaliação, por que considerar notas de 0,0 a 10,0, com variação decimal?

Dizer que a escola “X” ganhou o Carnaval por “0,1” é reportar como estatisticamente válido que um conjunto imenso de variáveis, submetidas à impressão sensorial e subjetiva de um corpo de jurados, apresentou igualdade técnica em praticamente todo o desfile, com um desvio decimal em favor de um em relação a outro.

Imaginem esse cuidado estatístico em outros aspectos da nossa vida cotidiana: vamos inferir precisão digital para avaliações subjetivas. Vejam: avaliar o desfile de Carnaval não é como corrigir provas de matemática ou português. Não existe uma receita infalível para fazer uma escola vencedora. Ao contrário, as avaliações dos jurados são suscetíveis a vieses comezinhos. O fato da Beija-Flor de Nilópolis vencer 9 edições do Carnaval do RJ nos últimos 15 anos, deve-se, em larga medida, ao fato da agremiação se apresentar sempre às segundas-feiras, e sempre como uma das últimas a entrar na avenida.

O viés da ancoragem condiciona o jurado ser mais condescendente com esta escola do que com as outras. Este ano mesmo, ela encerrou o desfile. Então temos uma escola que quase sempre é campeã encerrando o desfile e despertando nos jurados um viés no qual suas notas são sempre mais altas. Algo como: “na dúvida, vote na Beija-Flor”. A memória recente condiciona o voto e claramente polui a apuração.

E assim, caminhamos na avenida curtindo essa folia estatística, onde um evento como o Carnaval se perde nas casas decimais e o país que trabalha no restante do ano, escolhe onde montar lojas contando consumidores nas esquinas e lançando produtos e serviços com base na intuição. Em ambos os casos, somente desprezamos a experiência do consumidor e do cidadão.

Esse paradoxo tem tanta chance de dar certo quanto somar 2+2 e obter um resultado igual a 5…

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