A Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) divulgou, em 28 de outubro, os resultados da edição 2026 da Pesquisa Global de Passageiros (GPS, na sigla em inglês). O levantamento expõe um viajante muito mais atualizado que as instituições. Ele adota a tecnologia sem grande resistência, mas segue travado por processos do setor que pouco mudaram. Três tendências nos ajudam a entender o cenário:
- A biometria se torna comum e cresce o interesse por passaportes digitais: os passageiros aderem à identificação biométrica para escapar das checagens repetidas de documentos e mostram forte interesse em usar passaportes digitais no check-in e para receber serviços mais personalizados já na reserva.
- A inteligência artificial muda a forma de planejar viagens: da busca por voos à comparação de tarifas, passando pela escolha do próximo destino, a IA já faz parte do roteiro de planejamento.
- Requisitos de entrada são uma barreira crescente: mais passageiros relatam que exigências de imigração os fizeram desistir de visitar determinado destino.
“Os passageiros estão adotando a tecnologia para facilitar suas viagens. A IA está se tornando uma ferramenta indispensável no planejamento de viagens, enquanto a biometria e a identidade digital proporcionam uma experiência aeroportuária mais ágil e fluida. No entanto, muitos viajantes continuam enfrentando obstáculos devido a processos migratórios e de vistos complexos. Os governos podem contribuir simplificando as exigências de entrada, eliminando checagens duplicadas e acelerando a emissão e aceitação de credenciais digitais de viagem seguras”, afirma Nick Careen, vice-presidente sênior de Operações, Segurança e Proteção da IATA.
Biometria ganha espaço
Quase seis em cada dez passageiros usaram biometria ao menos uma vez nos últimos 12 meses, e a satisfação com a tecnologia chegou ao patamar mais alto já registrado pela pesquisa.
- 58% dos passageiros passaram por algum processo biométrico durante a jornada no aeroporto nos últimos 12 meses, ante 50% em 2025. Em relação a 2022, o salto é de 24 pontos percentuais.
- Entre quem usou, 87% se dizem satisfeitos com a experiência, contra 86% em 2025.
- 78% dos viajantes topam compartilhar seus dados biométricos se isso dispensar a apresentação do passaporte ou do cartão de embarque nos pontos de controle.
- Desse grupo, 75% preferem um único cadastro prévio para serem reconhecidos automaticamente ao longo de toda a passagem pelo aeroporto.
O passaporte digital também desperta apetite:
- 84% têm interesse em usar o passaporte digital no check-in online, no lugar do documento físico.
- 82% aceitariam compartilhar o passaporte digital com a companhia aérea durante a reserva, após o pagamento, se isso viabilizar serviços mais personalizados, como orientações sobre vistos.
- 82% querem usar o smartphone, reunindo carteira digital, passaporte digital e cartões de fidelidade, para reservar, pagar e cumprir os procedimentos aeroportuários no embarque e no desembarque.
A adesão, porém, depende de confiança. As principais preocupações dos passageiros com a biometria são o vazamento de dados (59%), o compartilhamento de informações com outras organizações (49%) e a falta de clareza sobre o tratamento dos dados pessoais (41%).
“Cada vez mais passageiros usam a biometria em suas viagens. Eles gostaram da experiência e querem expandi-la. Essa é uma excelente notícia, pois os benefícios são substanciais: jornadas mais fluidas para os passageiros e processos mais eficientes e seguros para governos e companhias aéreas. Para tornar a biometria o padrão nas viagens internacionais, os governos precisam definir um arcabouço comum para a emissão e aceitação de passaportes digitais seguros, as chamadas Credenciais Digitais de Viagem”, diz Careen.
Inteligência Artificial redesenha o planejamento de viagens
Quase metade dos viajantes (49%) já recorreu à IA para planejar uma viagem. Os usos se distribuem assim:
- 21% usaram IA para buscar voos para um destino específico, o uso mais comum.
- 19% recorreram à ferramenta para encontrar os voos mais baratos.
- 17% buscaram na IA inspiração sobre para onde ir.
“As pessoas estão usando IA para planejar suas viagens. É fundamental que as companhias aéreas não apenas garantam que suas ofertas apareçam nessas plataformas de IA, mas também desenvolvam integrações práticas para converter uma conversa com a IA em uma reserva real”, afirma Careen.
O movimento não se restringe às aéreas. Em entrevista à Consumidor Moderno, Leandro Paez, diretor executivo e sócio do BCG, explicou como a IA está mudando a forma de descobrir, escolher e reservar hotéis.
Barreiras para viajar aumentam e regras de imigração afastam passageiros
Se a tecnologia encurta o caminho dentro do aeroporto, a fronteira o alonga. As exigências de imigração fizeram 43% dos passageiros desistirem de visitar algum destino, contra 33% em 2025, segundo o levantamento.
- Entre os que foram desestimulados por conflitos geopolíticos, 72% apontam a segurança como principal motivo, e 13% citam a incerteza sobre a possibilidade real de concluir a viagem.
- Entre os desencorajados pelas exigências de imigração, 53% consideram o processo excessivamente complexo. Privacidade (17%) e custo (17%) aparecem bem atrás.
O passageiro quer resolver o visto mais cedo, de forma digital e longe do balcão:
- 86% estão dispostos a compartilhar informações migratórias digitalmente antes do embarque para agilizar os processos (ante 83% em 2025).
- 45% preferem concluir os trâmites de imigração antes de chegar ao aeroporto (ante 41% em 2025).
- 60% preferem solicitar o visto online, contra 25% que optam pelo atendimento presencial em consulados ou embaixadas.
“Os passageiros querem solicitar vistos online e concluir os trâmites de imigração antes de chegar ao aeroporto. O e-Visa (visto eletrônico) atende a essa demanda, mas as companhias aéreas só conseguem verificá-lo com eficiência se os governos adotarem padrões unificados. Mais de 100 países já emitem e-Visas, porém há pouca padronização na forma como são checados. As ferramentas para corrigir isso já existem, e os governos deveriam adotá-las”, conclui Careen.
Panorama regional
África: os viajantes africanos estão entre os mais satisfeitos, mas também são os que mais desistem de destinos por causa das exigências de imigração. A complexidade, seguida pelo custo, é a principal queixa entre os afetados. A adoção da biometria está entre as mais baixas do mundo, enquanto o interesse por soluções digitais de viagem está entre os mais fortes.
Ásia-Pacífico: a região tem o maior nível de satisfação geral e é a segunda mais disposta a usar biometria, embora a preocupação com vazamento de dados siga elevada. As exigências de imigração também afastam viajantes, sobretudo pela complexidade do processo.
Europa: os europeus registram a menor satisfação geral e formam a região mais cautelosa diante das tecnologias digitais de viagem. O uso de IA e de biometria fica abaixo da média global, e há menos disposição do que em outras regiões para usar biometria e passaporte digital na reserva e no check-in online.
América do Norte: os norte-americanos lideram o uso de biometria, mas também concentram a maior preocupação com vazamento de dados. Os receios sobre compartilhamento com terceiros e sobre a falta de clareza no tratamento das informações estão acima da média global. São, ainda, os menos propensos a desistir de um destino por exigências migratórias.
América Latina e Caribe: a região ocupa o segundo lugar em satisfação global e teve o maior avanço no índice de satisfação geral em relação a 2025. Está entre as mais favoráveis a concluir os trâmites migratórios antes de chegar ao aeroporto e mostra forte disposição para compartilhar dados de imigração digitalmente com antecedência. O uso de biometria fica abaixo da média global, e a preocupação com o compartilhamento e o tratamento de dados pessoais é a mais alta entre todas as regiões.
Oriente Médio: os viajantes da região são os que mais usam IA para planejar viagens e os que demonstram maior interesse em passaportes digitais e identificação biométrica. A satisfação entre os usuários de biometria também é a mais alta do mundo. Entre os que desistiram de viajar por exigências migratórias, o custo é mais citado do que em outras regiões, embora a complexidade siga como principal queixa.
O que esperar de 2027?
A pesquisa deixa claro que a IA já entrou na rotina de quem viaja. Quando quase metade dos passageiros já planeja com um assistente de IA, a disputa das companhias aéreas deixa de ser apenas pelo clique no próprio site e passa a ser pela recomendação feita pela IA conversacional. Para 2027, a tendência é que as aéreas invistam mais na integração e, claro, em segurança com IA, e com dados de tarifa, disponibilidade e documentação legíveis para esses assistentes.
O limite desse avanço está na confiança. No Brasil, a Portaria GM/MPor nº 48, assinada em 17 de agosto de 2026, aponta o caminho e instituiu a política nacional de biometria. A próxima etapa ocorrerá no Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas, com apoio da Anac. Se a implantação vier acompanhada de transparência sobre o tratamento dos dados, 2027 pode ser o ano em que o embarque no Brasil dará um novo passa na experiência do passageiro com aéreas. E que seja para melhor.





