Em um cenário de aceleração digital e transformações constantes no mundo do trabalho, a educação corporativa se tornou prioridade para grande parte das empresas – mas ainda esbarra em desafios práticos.
Segundo estudos da McKinsey, apenas 25% dos líderes afirmam que programas de treinamento impactam diretamente o desempenho dos negócios. Já um levantamento da Gartner aponta que 70% dos colaboradores se sentem despreparados para lidar com mudanças estratégicas, mesmo após passarem por capacitações internas.
Para Sara Hughes, cofundadora da Scaffold Education, o problema está menos na falta de conteúdo e mais na ausência de contexto.
Especialista em design de aprendizagem e engajamento, ela defende que o futuro da educação passa por trilhas personalizadas, liderança ativa e o uso estratégico da tecnologia – sempre com foco na experiência humana.
Nesta entrevista, a executiva fala sobre inclusão digital, o real papel da IA no setor, o impacto das trilhas customizadas e ainda mostra o que as empresas ainda precisam aprender para ensinar melhor.
Para além dos cursos e treinamentos
Consumidor Moderno: Sara! A queixa de gestores pela falta de resultados em treinamentos é recorrente em todos os segmentos. Mas o que falta para que a educação corporativa seja, de fato, efetiva?
Sara Hughes: Tenho acompanhado muito os debates relacionados ao futuro do trabalho que, acredito, não será determinado apenas por avanços tecnológicos, mas pela forma como equilibramos tecnologia e humanidade.
Na educação corporativa, a essência do sucesso está em uma série de fatores que envolvem participação da liderança, que precisa entender que é necessário preparar as pessoas para as mudanças que estão ocorrendo na sociedade – cultura organizacional, mapeamento de competências e engajamento individual. Os líderes do futuro precisarão ser pensadores multidisciplinares, comunicadores eficazes e gestores da complexidade emocional tanto quanto da inovação.
Com a tecnologia permitindo acesso à informação, o que vai diferenciar o líder é a gestão de pessoas. A transformação está acontecendo agora, e cabe a nós garantir que esse futuro seja mais humano, colaborativo e significativo.
A saga do engajamento na educação
CM: Em um cenário de sobrecarga de informações, como oferecer conteúdo que realmente engaje o colaborador – e não vire só mais uma tarefa a cumprir?
O conteúdo precisa ser relevante e contextualizado, respondendo claramente ao “porquê” e “o que isso tem a ver comigo” para cada pessoa, pois é isso que os adultos buscam.
Esses conteúdos devem evitar mensagens longas e eruditas. Ao contrário, prefira exemplos práticos, linguagem simples, humor e situações que façam o colaborador refletir e se enxergar na mensagem.
É fundamental mostrar o valor da informação para a segurança e o bem-estar individual, além de conectar a mensagem aos valores, missão e cultura da empresa, cultivando o senso de pertencimento. Assim, a pessoa percebe que faz parte de algo maior e se sente motivada a participar genuinamente, não apenas para cumprir tarefas.
Microlearning funciona para tudo? Nem sempre
CM: O conceito de microlearning ganhou força com a digitalização do trabalho. Mas ele funciona para todo tipo de aprendizado?
Sara Hughes: O microlearning não surgiu exatamente com a digitalização do trabalho, mas a internet e o acesso a dispositivos móveis ampliaram muito seu alcance – sua principal vantagem está no acesso rápido e geográfico facilitado, permitindo que as pessoas aprendam no seu próprio ritmo e local.
No entanto, nem todo tipo de aprendizado se adapta bem a esse formato, especialmente aqueles que dependem de interação presencial ou atividades mais complexas. Portanto, o microlearning é eficaz para conteúdos objetivos e de rápida absorção.
Projetos descomplicados
CM: Design Instrucional virou buzzword. O que você considera essencial em um bom projeto de aprendizagem?
Um bom projeto começa com um objetivo claro, por exemplo, definindo o que o colaborador precisa ser capaz de fazer – como identificar clientes potenciais, entender o ticket médio ou agregar vendas.
É essencial criar um planejamento cuidadoso, que integre diagnóstico realista, contexto empresarial e formatos eficazes para transformar o aprendizado em resultados concretos. Mas, para isso, é necessário identificar as dificuldades reais, ouvindo quem vive o problema, não apenas gestores.
O design deve conectar o aprendizado à missão e aos valores da empresa, garantindo que o conteúdo seja relevante e alinhado às necessidades organizacionais. Além disso, o formato da aprendizagem (vídeos, encenações, microlearnings) deve facilitar a aplicação prática, engajando o colaborador e refletindo as tendências do mercado e do comportamento do consumidor.
Trilha personalizada
CM: Muito se fala sobre trilhas personalizadas, mas o que isso realmente significa na prática?
O segredo está na personalização do conteúdo. É fundamental entender o que cada pessoa já sabe, o que deseja aprender e quais são seus objetivos profissionais, pois raramente o ponto de partida é igual para todos.
Diagnósticos personalizados, que avaliem o conhecimento e necessidades específicas, permitem oferecer trilhas de aprendizado focadas no que realmente importa para o colaborador, evitando conteúdos genéricos e repetitivos. Nesse cenário, a Inteligência Artificial pode ser uma aliada poderosa, desde que usada com base em escopo, contexto e os objetivos bem definidos que falamos mais acima.
Medir para melhorar
CM: Dados têm sido usados para medir desempenho em quase tudo. Mas quando falamos de aprendizagem, o que deve ser realmente mensurado?
Gestores devem avaliar se o colaborador consegue aplicar o que aprendeu em situações reais, ou seja, se ele atinge os objetivos definidos no plano de aprendizagem.
Por isso é fundamental que o conteúdo seja contextualizado, mostrando o “porquê” daquilo ser importante para o indivíduo e para a empresa, vinculando o aprendizado à missão, valores e necessidades reais do negócio.
Educação digital inclusiva
CM: Ao mesmo tempo em que a tecnologia viabiliza o acesso, ela também pode acentuar desigualdades. Como evitar que a educação digital seja excludente?
É essencial que as empresas preparem seus funcionários para as mudanças que estão ocorrendo, oferecendo acesso a equipamentos, internet e cursos para letramento digital.
A aprendizagem deve considerar as dificuldades reais dos colaboradores, com exemplos práticos e formatos acessíveis. Além disso, é importante garantir suporte e reflexão para que o aprendizado seja significativo e aplicável no dia a dia. Assim, a educação digital se torna inclusiva, relevante e motivadora para todos os perfis.
IA no aprendizado: riscos e possibilidades
CM: A Inteligência Artificial está cada vez mais presente em plataformas de aprendizagem. Na sua visão, quais os riscos e as possibilidades do uso de IA no processo educativo – especialmente no contexto corporativo?
A presença da IA em plataformas de aprendizagem corporativa traz inúmeras possibilidades como, a personalização do ensino e automação de processos, mas desde que as soluções sejam contextualizadas para a realidade da empresa.
O principal risco está na segurança e privacidade: dados estratégicos não devem ser expostos a IAs públicas. Para maximizar seus benefícios, é fundamental planejar a gestão do conhecimento de forma acessível e visual, fortalecendo a cultura organizacional por meio da educação dos colaboradores.
O papel das edtechs além das empresas
CM: A Scaffold tem abordado temas como IA e inovação em cursos abertos. Qual deve ser o papel das edtechs na formação contínua da sociedade – para além do mundo corporativo?
Democratizar o acesso é essencial para um mundo com mais equidade, e as edtechs permitem a inclusão de forma geral. Além do ambiente corporativo, nós ampliamos as oportunidades de aprendizado e desenvolvimento pessoal.
Ao oferecer cursos gratuitos e acessíveis, conseguimos promover inclusão digital, preparar as pessoas para o mercado e fortalecer a sociedade como um todo.
O futuro que queremos (e o que ainda preocupa)
CM: Pensando no futuro da aprendizagem, o que você gostaria de ver acontecendo nos próximos cinco anos – e o que ainda te preocupa?
Até 2050, gostaria de ver a educação corporativa cada vez mais personalizada, dinâmica e inclusiva, com tecnologias que potencializem o aprendizado crítico e a troca de ideias.
Minha maior preocupação está em não perder a dimensão humana do processo. A tecnologia precisa caminhar junto com o desenvolvimento de pessoas: inovação real só acontece com gente no centro.
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