Poucos temas têm ocupado tanto espaço nas conversas dos brasileiros quanto a inflação. O aumento do custo de vida mudou hábitos, levou famílias a reorganizar prioridades e tornou o consumo mais racional. Em praticamente todos os setores, o consumidor passou a comparar preços com mais atenção, pesquisar alternativas e refletir antes de tomar decisões.
Em meio a esse cenário de mais cautela financeira, um comportamento continua chamando a atenção: as pessoas seguem destinando parte de sua renda para viver experiências. À primeira vista, isso pode parecer contraditório. Afinal, por que alguém escolheria gastar com um jantar, uma viagem, um espetáculo ou uma celebração quando o orçamento exige mais disciplina?
A resposta está menos na lógica econômica e mais na forma como o consumidor passou a atribuir valor às suas escolhas. Nos últimos anos, acompanhamos uma transformação importante no comportamento de consumo. Se antes o sucesso de uma compra era medido pela quantidade de bens acumulados, hoje ele está cada vez mais relacionado às histórias e vivências que aquela compra proporciona.

Pesquisas conduzidas pela Mastercard mostram que a maioria dos brasileiros prefere investir em experiências a adquirir bens materiais. Esse movimento não representa um impulso de consumo, mas uma mudança de mentalidade. As pessoas passaram a selecionar com mais cuidado aquilo que realmente faz sentido em suas vidas. Em outras palavras, o consumidor está escolhendo melhor.
Essa mudança ajuda a explicar por que restaurantes, hotéis, eventos culturais, viagens e outras atividades ligadas à experiência continuam demonstrando capacidade de atrair consumidores mesmo diante de um ambiente econômico desafiador. As pessoas estão colecionando momentos, comemorando, reencontrando amigos, celebrando uma pausa na rotina, construindo memórias que permanecerão muito depois de o consumo terminar.
A verdade é que existe uma diferença importante entre custo e valor percebido. O custo é aquilo que aparece na conta. Já o valor é aquilo que permanece na lembrança. Quando uma experiência é verdadeiramente marcante, ela deixa de ser analisada apenas sob a ótica do preço e passa a ser percebida como um investimento em qualidade de vida, relacionamento e bem-estar. É justamente por isso que tantas empresas passaram a rever suas estratégias.
Durante muito tempo, acreditou-se que competir significava oferecer preços menores ou ampliar portfólio. Hoje, essas variáveis continuam relevantes, mas perderam protagonismo. Em mercados cada vez mais competitivos e tecnologicamente nivelados, as experiências passaram a representar uma vantagem competitiva muito mais difícil de copiar. Afinal, produtos podem ser semelhantes e tecnologias podem ser adquiridas, mas a maneira como uma marca faz alguém se sentir continua sendo um diferencial exclusivamente humano.
No setor de alimentação, essa transformação é particularmente evidente. Um restaurante já não é escolhido apenas pelo cardápio. Agora, leva-se em conta o ambiente, o atendimento, o conforto, a hospitalidade, a trilha sonora, a iluminação, o tempo dedicado à mesa e a sensação que será levada ao final daquela refeição. O prato continua sendo protagonista, mas já não atua sozinho e toda a experiência passou a compor aquilo que chamamos de valor percebido.
Esse conceito também explica por que operações capazes de oferecer experiências consistentes costumam desenvolver clientes mais fiéis, gerar recomendações espontâneas e construir reputações mais sólidas. As pessoas lembram durante anos de um jantar especial, de uma celebração em família ou de uma noite que marcou suas vidas.
A verdade é que em tempos de inflação, os consumidores não deixam de consumir experiências. Eles apenas se tornam muito mais criteriosos na escolha daquelas que realmente merecem seu investimento.
Isso significa que cada visita, cada atendimento, cada detalhe e cada interação passam a carregar um peso ainda maior. É preciso entregar significado! As marcas que conseguem ocupar esse lugar dificilmente serão lembradas apenas pelo preço.
*Glaucia Fernandes é diretora executiva do L’Entrecôte de Paris, rede de restaurantes fine dining que faz parte do Grupo SMZTO





