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Crédito: Trampolim para a inclusão ou armadilha para o endividamento?

Crédito: Trampolim para a inclusão ou armadilha para o endividamento?

Com quase metade da população adulta negativada, País vive dilema entre expansão do crédito, consumo elevado e necessidade de educação financeira.
Crédito vira extensão da renda e desafia inclusão financeira
Crédito vira extensão da renda e desafia inclusão financeira

Hoje, quase metade da população adulta brasileira está inadimplente. Segundo dados da Serasa Experian, mais de 77,1 milhões de consumidores estão negativados. O número equivale a cerca de 47% dos adultos no País. Isso torna o cenário desafiador, numa combinação que inclui o aumento do consumo, o crédito como extensão da renda, e a busca por soluções digitais para maior inclusão e justiça no sistema financeiro.

“Com base nos indicadores econômicos, é possível afirmar que o consumo se apresenta como um pilar importante para o crescimento da atividade econômica. Somado a isso, a dinâmica do mercado de trabalho está aquecida, com taxas mínimas históricas de desemprego, no patamar de 6%”, explica Giresse Contini, diretor de Serviços de Crédito da Serasa Experian.

O consumo elevado, o mercado de trabalho aquecido e crédito abundante contribuem para a expansão das operações de crédito, que cresceram 11,5% no ano passado, segundo o Banco Central. No entanto, esse crescimento também trouxe efeitos colaterais. “Agora, com o aperto monetário e a taxa de juros em um patamar de 15%, é possível começar a observar os consumidores enfrentando mais restrições financeiras”, completa.

Perfil da inadimplência e o cartão de crédito

“Analisando as três últimas edições do Mapa da Inadimplência da Serasa dos meses de maio, podemos perceber que os números, em relação à idade, possuem uma pequena diferença percentual no decorrer dos anos, mostrando que não há uma disparidade significativa no perfil dos inadimplentes, quando consideramos sexo e idade”, aponta Thiago Ramos, especialista da Serasa em educação financeira. “Ao olharmos esses dois fatores, podemos considerar que o perfil social mais vulnerável, no decorrer dos anos são pessoas do sexo feminino entre 41 e 60 anos.”

Quanto à origem das dívidas, bancos e cartões de crédito lideram com folga, apesar de uma leve queda: em maio de 2025, representavam 27,8% das dívidas, ante 31,9% em 2023. Os outros principais motivos de endividamento são: financeiras (19,3%); serviço (11,9%); e varejo (9,4%). Já as chamadas utilities, como contas básicas como água e luz, seguem como segunda principal causa, com 20,3% das pendências.

Thiago destaca ainda o avanço das instituições financeiras que não são bancos tradicionais. São empresas que, apesar de não poderem oferecer crédito ou outros produtos similares, cresceram na representatividade das dívidas nos últimos anos.

Crédito como extensão da renda

O crédito, no Brasil é, muitas vezes, usado como uma forma de complementar a renda. Muitos brasileiros, segundo Thiago, ainda hoje utilizam o crédito como uma extensão ao salário. Além disso, de acordo com uma pesquisa da Serasa, 70% dos consumidores têm pelo menos dois cartões de crédito. Outros 39% usam três ou mais cartões ao mesmo tempo. As principais finalidades são itens básicos: roupas, eletrodomésticos e supermercado.

Além disso, a popularização de modalidades como o BNPL (Buy Now, Pay Later), aliada ao imediatismo das redes sociais, também contribui para o consumo impulsivo. Para a Serasa, é fundamental atuar com responsabilidade.

“Nosso foco está em promover o crédito saudável. Isso significa apoiar o ecossistema com dados de qualidade, inteligência analítica e soluções que ajudem empresas a avaliar com mais precisão a capacidade de pagamento do consumidor. Ajudar o consumidor a tomar decisões mais conscientes também é parte fundamental da nossa missão”, afirma Giresse.

Score de crédito e a digitalização do sistema

Para contribuir com a avaliação da análise de crédito, o Serasa Score passou por uma atualização em janeiro de 2025. Agora, a ferramenta permite atualizações em tempo real e maior precisão na leitura do comportamento financeiro. A nova versão do Score considera fatores como hábitos de pagamento (29%), relacionamento com o mercado (24%), dívidas (21%) e até informações cadastrais e contratos de crédito, com diferentes pesos. Isso melhora a análise, e a torna mais justa e inclusiva.

“Podemos perceber uma redução significativa do tempo necessário para regularizar o status financeiro dos consumidores, beneficiando o mercado como um todo, permitindo ainda mais acurácia, rapidez e eficiência ao entender os comportamentos e movimentações financeiras, auxiliando no processo de cobrança entre as empresas”, comenta Thiago.

Além disso, soluções digitais como o Serasa Pass prometem revolucionar a experiência do consumidor. Trata-se de uma carteira digital unificada que integra identificação e pagamentos em um único diretório, reduzindo fraudes e simplificando o processo de compra online.

“Reunindo a maior base de comportamento digital do consumidor do País com uma nova geração de autenticação digital, o Serasa Pass reduz de 3,5 minutos para apenas 30 segundos o tempo médio das operações em ambientes digitais – uma redução de 86% –, com a consolidação de múltiplos cadastros em uma única identidade digital”, acrescenta Giresse.

A Serasa também tem apostado em iniciativas de renegociação de dívidas e educação financeira para transformar o acesso ao crédito em uma ferramenta de mobilidade social, e não de aprisionamento. No último Feirão Limpa Nome, por exemplo, aproximadamente 10 milhões de dívidas foram renegociadas. “Porém, ações de educação financeira são essenciais para que possamos ver um resultado sustentável no número de inadimplentes brasileiros”, enfatiza Thiago.

Crédito mais humano e personalizado

O futuro da concessão de crédito passa também por uma visão mais empática e ajustada à realidade dos brasileiros. Para Giresse, personalizar de verdade significa entender o contexto de vida de cada indivíduo. “Por exemplo, em vez de direcionar um anúncio para ‘mulheres de 25 a 35 anos interessadas em moda’, uma empresa pode considerar localização, renda, fase de vida e comportamento recente para construir uma mensagem com mais propósito”, completa.

Essa abordagem também se reflete na ampliação de mecanismos como o Cadastro Positivo e o Open Finance, que ajudam a incluir consumidores com histórico informal de renda. Ferramentas como a repescagem de crédito negado também são exemplos de inovação voltada à inclusão.

Em um País onde o crédito pode representar tanto um trampolim para a realização de sonhos quanto uma armadilha, os esforços para torná-lo mais justo, educativo e acessível são urgentes. A missão é ajudar o consumidor a tomar decisões mais conscientes e garantir que o crédito atue como motor de inclusão e bem-estar, e não como um fardo. “Cabe a todos – empresas, instituições financeiras e sociedade – garantir que ele seja acessado com transparência, clareza e responsabilidade”, finaliza Giresse.

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