Em 2018, quando Daniel Vitiello e Brandon Warman lançaram o Cooklist, um aplicativo de receitas e listas de compras, a ideia de que um sistema de IA pudesse conversar naturalmente com um cliente e encher automaticamente um carrinho online parecia um sonho pouco viável. O mercado ainda não tinha as ferramentas e os consumidores não tinham a maturidade para isso. Mas os fundadores apostaram na direção certa e esperaram.
Essa paciência, combinada com uma visão de longo prazo sobre o papel da IA na jornada de compra, transformou a Cooklist em um dos casos mais reveladores sobre IA no varejo.
A integração que o varejo alimentar precisava
O aplicativo que antes apoiava na lista de compras em supermercados e indicava receitas com os ingredientes de forma mais manual, anunciou recentemente um assistente pessoal alimentar. Com isso, a Cooklist passou a oferecer sua infraestrutura como uma solução white-label e integrável ao e-commerce de supermercados.
Os primeiros clientes incluem Wegmans e Kroger, uma das maiores redes de supermercados dos Estados Unidos, além de bandeiras regionais. O modelo de negócio responde a uma tensão crescente no setor: de um lado, a pressão dos varejistas para oferecer experiências digitais mais inteligentes; de outro, a relutância em ceder o controle dos dados dos clientes para plataformas terceirizadas.
A proposta da Cooklist é justamente preservar essa soberania, na qual os dados dos consumidores permanecem com o varejista, que passa a dispor de informações valiosas para impulsionar a operação.
Agentes de IA e o novo papel do suporte
Uma característica importante para o varejo nessa jornada da Cooklist é que o agente de IA da ferramenta passa do puro atendimento e relacionamento para um instrumento estratégico e operacional.
O Cooklist utiliza as conversas dos consumidores com seus assistentes para gerar relatórios direcionados às equipes de produto dos varejistas. Agora, a mesma interface que ajuda um consumidor a montar um cardápio semanal pode responder dúvidas sobre disponibilidade de produtos, orientar o cliente pelos corredores de uma loja física ou resolver questões pós-venda.
Uma convergência entre experiência e operações que poucos varejistas conseguem articular atualmente.
A dimensão phygital também surpreende. Cerca de metade dos usuários que interagem com os assistentes baseados na tecnologia da Cooklist terminam a jornada indo a uma loja para concluir o pedido, segundo a startup.
Mercado promissor
Vale dizer que a Cooklist não está sozinha nessa corrida. Um levantamento da consultoria AstraWorks classificou a Amazon na liderança de maturidade em compras via IA agêntica. Instacart, DoorDash e Uber também já oferecem camadas de IA agêntica para redes de supermercado.
A Instacart, por exemplo, é vista como a principal porta de entrada de varejistas americanos para assistentes como o ChatGPT.
No Brasil, no varejo alimentar especificamente, alguns players disputam mercado com camadas crescentes de IA que reduzem a fricção entre a decisão de compra e a finalização do pedido. É um avanço. Mas há uma diferença estrutural importante em relação ao caso da Cooklist.
A Cooklist entra em uma etapa anterior com seu modelo white-label. Ao rodar dentro do próprio ambiente do varejista, e não como camada terceirizada, a solução propõe não só uma personalização para o consumidor, mas também um controle maior dos dados e dos desdobramentos da operação a partir dessas informações.
Com isso, em vez de trabalhar apenas para melhorar produtividade ou ajudar em processos do backoffice (como ocorre hoje no Brasil), a plataforma transforma inteligência conversacional em insight operacional. Essa é uma das fronteiras mais promissoras com agentes de IA no varejo alimentar.





