O consórcio nunca esteve tão em alta no Brasil. Com os juros elevados e crédito bancário mais caro, o modelo ganha cada vez mais espaço entre os brasileiros. O movimento levou o setor a fechar 2025 com um resultado inédito: foram 5,16 milhões de cotas comercializadas, o maior volume da história, segundo a Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (ABAC).
O crescimento, que superou em mais de duas vezes a expectativa do próprio setor, também mudou a rotina das administradoras. Quanto maior a carteira, mais complexo se torna acompanhar o comportamento dos consorciados e identificar sinais de que um cliente pode enfrentar dificuldades para manter os pagamentos.
Para Renan Torres, diretor de Operações e Tecnologia da Caixa Consórcio, um dos palestrantes confirmados do CCX – Credit and Collection Experience, o desafio não está apenas em administrar um número maior de clientes, mas em entender perfis cada vez mais diferentes.
“Esse crescimento amplia a inclusão e diversifica os perfis dentro da carteira, o que é positivo. Ao mesmo tempo, exige uma gestão mais sofisticada, porque passamos a lidar com clientes em diferentes momentos da vida financeira“, afirma.
Principalmente porque o risco também faz parte da operação dos consórcios. Embora não haja uma concessão tradicional de crédito, como ocorre em um financiamento bancário, as administradoras precisam acompanhar a saúde financeira dos participantes e gerenciar os riscos de inadimplência ao longo de toda a vigência do grupo.
Da expansão ao desafio da inadimplência
É justamente no momento da contemplação, quando o consorciado passa a utilizar a carta de crédito, que ocorre uma etapa importante dessa avaliação. A partir daí, o desafio das administradoras é acompanhar a capacidade de pagamento ao longo dos anos, identificando mudanças de comportamento que possam comprometer a saúde financeira do grupo.
“A gestão de risco no consórcio é muito mais contínua do que pontual. O acompanhamento acontece durante toda a jornada do cliente, com ações de monitoramento, prevenção e estratégias de relacionamento e suporte, sempre com foco na preservação do equilíbrio coletivo do grupo e na melhor experiência para o consorciado”, explica Torres.
O desafio ganha ainda mais importância em um cenário de maior pressão sobre o orçamento dos brasileiros. Dados recentes mostram que 80,4% das famílias estavam endividadas em março de 2026. Nesse contexto, o uso de tecnologia passou a ser um aliado para antecipar movimentos da carteira.
Assim como já acontece no mercado de crédito, a Inteligência Artificial começa a ganhar espaço também na gestão de consórcios. A tecnologia ajuda a identificar padrões de comportamento, segmentar clientes e apoiar decisões antes que a inadimplência aconteça.
“Temos avançado bastante na integração de dados e no uso de modelos analíticos mais robustos para apoiar decisões ao longo de toda a jornada do cliente, e não apenas no momento da contemplação”, diz. “O movimento é claro: a gestão de risco no consórcio está cada vez mais orientada por dados, tecnologia e conhecimento”, complementa.
Tecnologia e IA mudam a gestão de risco
Além do uso crescente de IA, o setor também caminha para uma abordagem mais personalizada, considerando o perfil e o momento de vida de cada consorciado. “Isso é especialmente relevante no consórcio, porque a gestão do risco acontece ao longo de muitos anos. Quanto melhor entendermos o cliente nessa jornada, mais eficiente será a gestão da carteira”, diz.
A expectativa é que essa combinação entre dados, tecnologia e relacionamento permita decisões mais assertivas e contribua para o crescimento sustentável do mercado.
Na visão do executivo, essa transformação deve acelerar nos próximos anos. A tendência é que as áreas de risco deixem de atuar apenas para corrigir problemas e passem a trabalhar de forma cada vez mais preditiva, ajudando as empresas a oferecer soluções mais adequadas ao perfil de cada cliente.
“O risco deixa de ser apenas uma área de controle e passa a ter um papel cada vez mais estratégico na construção de jornadas mais sustentáveis para o cliente e para o negócio”, conclui.





