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CM Responde: você sabia que pode pagar mais só por ser mulher?

CM Responde: você sabia que pode pagar mais só por ser mulher?

Você paga mais só por ser mulher? Pesquisa revela diferenças de preços em produtos semelhantes e reacende debate sobre a taxa rosa.
Você paga mais só por ser mulher? Pesquisa revela diferenças de preços em produtos semelhantes e reacende debate sobre a taxa rosa.
Legenda da foto
Shutterstock
Pesquisa do Procon-MG encontrou diferenças de preços de até 15% em produtos semelhantes destinados ao público feminino. Especialistas explicam quando a prática pode ser considerada abusiva e como consumidoras podem reagir.

Você entra em uma loja para comprar um aparelho de depilação e percebe que há produtos praticamente iguais: mesma função, tecnologia semelhante, até o fabricante é o mesmo. A diferença visível fica por conta da cor: um é azul e o outro, rosa. Mas se engana quem pensa que o preço é o mesmo. O rosa é mais caro.

A cena parece banal, mas ilustra um fenômeno que especialistas chamam de “taxa rosa” ou “pink tax”. Embora não se trate de um tributo oficial, produtos e serviços direcionados ao público feminino costumam ser vendidos por preços mais altos do que versões equivalentes voltadas ao público masculino.

O tema voltou ao centro do debate após o lançamento da campanha “Nem mais um centavo! Seu gênero não tem preço”, do Procon do Ministério Público de Minas Gerais (Procon MP-MG), que busca combater práticas de discriminação de gênero nas relações de consumo.

O que é a taxa rosa?

A chamada taxa rosa acontece quando produtos ou serviços semelhantes apresentam preços diferentes apenas por serem direcionados a públicos de gêneros distintos.

Levantamento realizado pelo portal Mercado Mineiro a pedido do Procon-MPMG encontrou exemplos concretos dessa diferença. Entre eles, uma bicicleta infantil com variação de 15,39%, um chinelo com diferença de 15% e um aparelho de barbear ou depilação com preço 7,94% mais alto, apesar de apresentarem características equivalentes.

Vale contextualizar o que é o Mercado Mineiro.

Criado em 2000 por Feliciano Abreu, especialista em finanças, o Mercado Mineiro foi pioneiro na comparação de preços de supermercados em Belo Horizonte e hoje opera como plataforma colaborativa de monitoramento de ofertas e preços em diversos segmentos.

Mulheres decidem, mas ainda pagam mais

O debate ganha relevância porque as mulheres ocupam posição central no consumo brasileiro.

Dados citados pelo Procon-MPMG mostram que, a cada 100 lares brasileiros, 52 são chefiados por mulheres. Já o Sebrae aponta que elas respondem por 85% das decisões de compra das famílias brasileiras.

É justamente essa contradição que chama atenção: quem mais decide o que comprar ainda enfrenta obstáculos específicos no mercado.

A taxa rosa como forma silenciosa de discriminação

Embora a chamada taxa rosa seja frequentemente associada a diferenças de preços entre produtos masculinos e femininos, o debate vai muito além da etiqueta. Para especialistas, trata-se de uma manifestação de desigualdade de gênero que também pode aparecer em contratos, publicidade, atendimento e estratégias de consumo.

É justamente essa visão mais ampla que orienta a campanha “Nem mais um centavo! Seu gênero não tem preço”, lançada pelo Procon-MPMG. A iniciativa surgiu após a pesquisa identificar diferenças de preços em produtos semelhantes comercializados na Região Metropolitana de Belo Horizonte, mas seu objetivo é discutir também outras formas de discriminação que impactam as consumidoras.

Segundo Luiz Roberto Franca Lima, coordenador do Procon-MPMG e promotor de Justiça, o problema exige um olhar que extrapola a análise econômica. “Não podemos aceitar que o gênero de uma pessoa se transforme em critério para encarecer produtos ou serviços. A chamada taxa rosa é uma forma silenciosa de discriminação que impacta diretamente a vida das consumidoras e aprofunda desigualdades já existentes”, afirma.

Para o coordenador, a defesa do consumidor também passa pela promoção da igualdade nas relações de mercado. Por isso, ele ressalta que produtos ou serviços equivalentes não devem apresentar preços distintos apenas porque foram direcionados a públicos de gêneros diferentes.

“Produtos ou serviços substancialmente equivalentes não podem ter preços distintos apenas por serem direcionados a públicos de gêneros diferentes, salvo quando houver justificativa técnica e econômica objetiva e comprovável.”

Luiz Roberto Franca Lima, coordenador do Procon-MPMG e promotor de Justiça.

Quando o consumo reproduz desigualdades

O projeto do Procon-MPMG nasceu a partir de uma reflexão sobre o aumento dos casos de violência contra a mulher e a forma como comportamentos discriminatórios podem ser espelhados em diferentes esferas da sociedade, inclusive nas relações de consumo.

De acordo com Regina Sturm, assessora jurídica do Procon-MPMG e coordenadora da iniciativa, a pesquisa realizada pelo órgão revelou que a desigualdade também pode se manifestar de forma aparentemente corriqueira, por meio de diferenças de preços ou abordagens comerciais direcionadas ao público feminino.

“O sinal de alerta para a atuação do Procon-MPMG foi o crescimento da violência contra a mulher. Como essa violência é sistêmica, nós paramos para pensar como ela se manifesta no mercado de consumo.”

A especialista explica que o projeto foi estruturado para analisar diversas práticas sob a ótica do Código de Defesa do Consumidor, incluindo situações que muitas vezes passam despercebidas pelas próprias consumidoras.

Além da chamada taxa rosa, o programa pretende discutir questões relacionadas à publicidade, contratos, padrões de beleza e estratégias de venda que possam contribuir para o endividamento ou para a perpetuação de estereótipos. “O mercado de consumo não vende apenas produtos e serviços. Ele também comunica valores, reforça padrões e influencia a forma como nós nos enxergamos e enxergamos o outro.”

O papel do consumidor no combate à discriminação

Para Luciana Atheniense, presidente da Comissão de Defesa do Consumidor da OAB-MG e presidente do Movimento das Donas de Casa, a conscientização da sociedade será fundamental para enfrentar o problema. “Essa discriminação é silenciosa e nós não podemos tolerar.”

Na avaliação da especialista, a mobilização deve envolver não apenas consumidoras, mas também consumidores, empresas e órgãos de fiscalização.

“Cabe a nós, mulheres, e aos homens que não concordam com esse tipo de preconceito nos mobilizarmos para combatê-lo.”

Da esquerda para a direita: Luciana Atheniense, presidente da Comissão de Defesa do Consumidor da OAB-MG; Regina Sturm, assessora jurídica do Procon-MPMG; e Claudia Jota, apresentadora do podcast Procon, Corre Aqui!. As especialistas participaram da atração para debater a taxa rosa e outras formas de discriminação de gênero que afetam as consumidoras.

O que muda com a campanha do Procon-MG

Além da conscientização, a campanha do Procon-MPMG busca ampliar o debate institucional sobre discriminação de gênero no mercado. Durante a apresentação do projeto na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, a deputada estadual Carol Caram afirmou que o tema deverá ser discutido em audiência pública e poderá inspirar iniciativas legislativas voltadas à proteção das consumidoras.

A proposta é reforçar a mensagem de que diferenças de preços, exigências indevidas, barreiras injustificadas ou tratamentos distintos baseados exclusivamente no gênero não devem ser encarados como práticas normais de mercado. Pelo contrário: podem representar violações aos direitos do consumidor e merecem atenção tanto das autoridades quanto da sociedade.

Educação financeira e conscientização são parte da solução

O debate também encontra respaldo em iniciativas de educação para o consumo. A Associação Cultura Cidade e Arte (ACCA), que atua em projetos ligados à igualdade de gênero e aos direitos humanos, classifica a taxa rosa como uma forma de violência econômica que reduz o poder de compra das mulheres e amplia desigualdades já existentes.

Nesse contexto, especialistas defendem que comparar preços, questionar diferenças injustificadas e buscar informação são atitudes capazes de pressionar o mercado por mais transparência e equidade.

Afinal, em um cenário em que as mulheres representam a maioria dos responsáveis pelas decisões de compra no país, a pergunta que impulsiona a campanha do Procon-MG permanece atual: se dois produtos cumprem a mesma função, por que um deles deveria custar mais apenas porque foi feito para elas?

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