Quem não se lembra das manchetes alertando para o poder de compra trilionário da classe média, até então ignorado pelas empresas? Na década de 2010, a classe C – que até então era pouco percebida ou ouvida pelas marcas – foi descoberta pelas organizações brasileiras como uma grande força de consumo. Para o fundador e presidente do Data Favela e do Instituto Locomotiva, ele foi o responsável por levar esse público para dentro das conversas.
Nos 30 anos da Consumidor Moderno, o comunicólogo e escritor Renato Meirelles foi homenageado por sua contribuição decisiva para colocar a classe C no centro das discussões sobre consumo no Brasil. Ele foi um dos primeiros a traduzir em dados, pesquisas e narrativas o potencial econômico da nova classe média brasileira – muitas vezes ignorada pelas empresas, apesar de sua relevância como força motriz do mercado.
A evolução da classe C
Durante o evento comemorativo, Renato emocionou a plateia ao relembrar sua trajetória e o papel de pessoas e instituições que impulsionaram sua carreira. Com seu discurso bem-humorado e afetuoso, agradeceu a Consumidor Moderno e a figuras-chave do varejo e da comunicação que estiveram ao seu lado na construção de um novo olhar sobre o consumidor popular.
“Não existiria a classe C se não fosse Gustavo Franco”, disse Renato, em referência ao economista e cofundador da Rio Bravo Investimentos, que faz parte da equipe idealizadora do Plano Real. “As pessoas tinham um freezer horizontal dentro de casa para estocar alimento, porque não existia nenhuma aplicação financeira que vendesse mais do que deixar a carne congelada”.

Ainda, destacou o sucesso de marcas como C&A e Assaí Atacadista – cujos CEOs, Paulo Correa e Belmiro Gomes, respectivamente, também foram homenageados pela Consumidor Moderno – entre a classe média brasileira. “Quem diria que, hoje, teríamos uma consumidora que chegou a declarar um telefone fixo no Imposto de Renda convivendo com uma nativa digital que não entende a expressão ‘caiu a ficha’?”
Em entrevista exclusiva, Renato falou sobre o legado da ascensão da classe C, os desafios que ainda precisam ser enfrentados para garantir inclusão e empoderamento desse público, e o que podemos esperar dos próximos anos nas relações entre marcas e consumidores.
O legado da classe C
Consumidor Moderno: Nos últimos anos, vimos a ascensão da classe C como consumidora de fato. Mas o que ainda falta para esse público ser plenamente contemplado?
Renato Meirelles: A gente ainda está num processo de retomada da economia. Temos uma classe média bastante endividada, com parte do dinheiro indo para apostas como o “jogo do Tigrinho”. É urgente repensar os mecanismos de educação financeira voltados para a classe C. Além disso, existe o desafio do crédito – que precisa ser mais responsável, o que é complicado com a taxa de juros que temos hoje.
Mas, mesmo com essas dificuldades, estamos em um momento melhor do que durante a pandemia. Há um caminho grande pela frente para que a classe C se consolide como o maior mercado consumidor do Brasil.
CM: E quais foram as principais transformações no mercado provocadas por esse público?
A classe C colocou o consumidor no centro das estratégias das empresas. Antes, não havia ninguém da classe C nas diretorias de marketing. Para atender esse novo público, as empresas precisaram inovar – desde produtos e serviços até os modelos de distribuição. Essa camada da sociedade é hoje responsável por boa parte dos lucros das companhias. Ela também obrigou o mercado a repensar o atendimento ao cliente, com uma linguagem mais acessível e didática. Se hoje falamos de um consumidor moderno, é porque a classe C entrou no radar das marcas.
O futuro das relações de consumo
CM: O que podemos esperar nos próximos anos em relação à forma como as marcas vão se conectar com o consumidor?
A tecnologia vai ter um papel central no empoderamento do consumidor. Ela não só vai atender melhor, mas também vai dar mais poder a esse consumidor – especialmente no acesso à informação e no conhecimento sobre seus direitos. Isso vai mudar completamente a forma como as marcas lidam com o público.
CM: Por fim, o que significa para você receber essa homenagem nos 30 anos da Consumidor Moderno?
É uma delícia! Tenho muito carinho pela Consumidor Moderno, que me abriu portas desde o início da minha carreira. É um privilégio estar ao lado de tanta gente bacana, que também faz parte da minha trajetória. Se hoje eu entendo o consumidor, é graças aos homenageados desta noite.






