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Empreendedores pessoa física: o mercado que o Brasil ainda não aprendeu a ler

Empreendedores pessoa física: o mercado que o Brasil ainda não aprendeu a ler

Com renda anual de R$ 539 bilhões, esses empreendedores ganham protagonismo na economia brasileira e expõem uma oportunidade ainda pouco explorada pelo sistema financeiro
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Estudo do Mercado Pago revela que 19,8 milhões de empreendedores pessoa física já movimentam R$ 539 bilhões por ano e devem ocupar papel central na transformação do mercado de trabalho e dos serviços financeiros. Neste artigo, Daniel Davanço, diretor sênior de PMEs do Mercado Pago no Brasil, analisa esse cenário.

Todo debate sobre inclusão financeira começa, quase inevitavelmente, pelo mesmo lugar: o tamanho da bancarização, a penetração do crédito, o acesso ao Pix. São métricas reais e importantes. O problema é que elas descrevem o canal, não quem está do outro lado. E quem está do outro lado, no caso do Brasil, é um universo de 19,8 milhões de empreendedores pessoa física que movimenta R$ 539 bilhões por ano, o equivalente a cerca de 5% do PIB.

Esse número vem de uma análise conduzida pela equipe de economia do Mercado Pago, instituição financeira do Mercado Livre. Usando microdados da PNAD Contínua do IBGE, com cobertura de 41 trimestres, 27 estados e 221 categorias de atividade econômica, o estudo mapeou o empreendedor pessoa física brasileiro com uma precisão que o debate público ainda não tinha. O resultado é revelador: o empreendedor informal não é um fenômeno residual do mercado de trabalho. É sua principal forma de adaptação.

O estudo separa este universo em dois grupos endereçáveis, que juntos representam a maior parte dos indivíduos dentro dele.

O Core, com 8,8 milhões de trabalhadores e R$ 212 bilhões de massa de renda por ano, reúne os setores de pagamento presencial e ciclo curto: cabeleireiros, alimentação, comércio local, serviços de construção, entre outros.

O Potencial, com 4,3 milhões de pessoas e R$ 187 bilhões por ano, abriga motoristas de aplicativo, advogados, profissionais de TI, médicos e outros trabalhadores cuja renda individual média é 84% superior à do Core. São R$ 3.644 mensais contra R$ 1.984. Dois grupos, dois portfólios de produto, duas lógicas de relacionamento financeiro. Um terceiro grupo, chamado de “outros”, ficou de fora por seus setores serem pouco representativos dentro do universo de meios de pagamento.

O que chama atenção na trajetória dos últimos dez anos não é o crescimento total do universo, que saiu de 18,7 milhões para 19,8 milhões. É para onde esse crescimento foi. O grupo Potencial cresceu 56% em volume e 57% em massa de renda real no período. Um dos principais responsáveis foi a atividade de transporte de passageiros,  que hoje concentra 1,6 milhão de pessoas e R$ 62,7 bilhões de massa de renda por ano, e que engloba motoristas de aplicativo, grupo que praticamente não existia em 2015. O crescimento parece modesto, a composição, não.

Outro ponto analisado no estudo é a leitura padrão de que informalidade costuma ser sinônimo de precariedade. Como exemplo, o empreendedor pessoa física do setor alimentício ganha, em média, R$ 1.766 por mês, contra R$ 4.696 dos pares formalizados na mesma atividade, e é tentador atribuir essa diferença à própria modalidade de trabalho. Mas isso embute um pressuposto frágil: a alternativa formal de R$ 4.696 estava ao alcance dessa pessoa? Na maior parte dos casos, não estava.

Dada a geografia, a escolaridade e outras vulnerabilidades, a pergunta relevante não é por que o empreendedor PF ganha menos que o par formalizado; é o que ele ganharia caso não tivesse essa ocupação, e se relaciona com a dificuldade histórica que pessoas de grupos mais vulneráveis têm de acesso a boas vagas dentro do mercado de trabalho. Para quem encontra um mercado de trabalho formal estreito, tornar-se empreendedor PF amplia o leque de oportunidades, servindo como porta de entrada alternativa ao mercado e futura oportunidade de formalização.

Há ainda uma dimensão que o debate tende a ignorar: o que vem por aí. O Future of Jobs Report 2025 do Fórum Econômico Mundial projeta o deslocamento líquido de 78 milhões de empregos globais até 2030. Estimativas do LAMFO/UnB indicam que 54% dos postos de trabalho formais brasileiros estão em alto risco de automação, taxa quatro vezes superior à média da OCDE. As ocupações mais vulneráveis, assistentes administrativos, caixas, operadores de entrada de dados, são exatamente aquelas cujos trabalhadores historicamente migram para o trabalho por conta própria quando o emprego formal contrai. Os setores que formam o Core, serviços presenciais, beleza, alimentação, cuidados, são justamente os mais resistentes à substituição tecnológica.

O universo de 19,8 milhões de empreendedores pessoa física, com os R$ 539 bilhões de massa de renda por ano e a tendência que aponta para cima não estão à margem do mercado de trabalho brasileiro, mas sim se tornando seu núcleo de resistência ao próximo ciclo de automação. Apesar disso, esse público ainda fica no fim da fila do sistema financeiro tradicional. É precisamente essa lacuna que as fintechs estão passando a ocupar, com novas formas de avaliação de risco e produtos direcionados, que impulsionam o crédito em segmentos que antes não eram atendidos. Ignorar este perfil é desperdiçar uma enorme frente de expansão financeira que o Brasil tem à disposição.

*Daniel Davanço é diretor sênior de PMEs do Mercado Pago no Brasil

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