A Inteligência Artificial já não é mais uma promessa futura – ela começa a reconfigurar o mercado de trabalho de forma concreta, silenciosa e, sobretudo, mensurável.
Como mostrou reportagem recente da Consumidor Moderno, com base no estudo O impacto da IA nas ocupações do Brasil, da ESPM, profissões altamente qualificadas estão entre as mais expostas à transformação tecnológica. O movimento, portanto, rompe com padrões históricos e levanta novas dúvidas sobre emprego, renda e poder de compra no País.
Nesse cenário, a discussão vai além da tecnologia. Ela envolve desigualdade, regulação e, principalmente, os impactos diretos para o consumidor – que podem aparecer tanto nos preços quanto na qualidade dos serviços.
Para aprofundar esse debate, a reportagem conversou com Rafael Laitano Lionello, professor do curso de Administração da ESPM São Paulo, que analisou os principais achados da pesquisa e os desdobramentos dessa nova fase do trabalho.
Confira a entrevista na íntegra.
O topo da pirâmide profissional
Consumidor Moderno: O estudo indica que profissões de alta qualificação estão entre as mais expostas à Inteligência Artificial. Isso significa que a próxima grande transformação do trabalho pode começar pelo topo da pirâmide profissional?
Rafael Laitano Lionello: Sim, os dados apontam nessa direção. Ao contrário de ondas anteriores de automação, que afetavam principalmente funções operacionais e rotineiras, a IA atual incide com maior intensidade sobre ocupações cognitivas e de alta qualificação.
As 20 ocupações mais expostas incluem matemáticos, contadores, juízes, economistas, físicos e professores universitários – todas com AIOE acima de 113 pontos. Os grandes grupos mais expostos são trabalhadores de apoio administrativo, profissionais das ciências e intelectuais, e diretores e gerentes. Já ocupações manuais permanecem com os menores índices de exposição.
Ganhos de produtividade podem não chegar ao consumidor
CM: Se a IA aumentar a produtividade das empresas, os consumidores podem esperar serviços mais baratos ou existe o risco de concentração dos ganhos?
O relatório não responde diretamente a essa questão. No entanto, ele mostra que a IA concentra seu impacto nas classes de renda mais elevadas e nos trabalhadores com maior escolaridade. Se a tecnologia funcionar como complementar – ampliando a produtividade de quem já ocupa funções qualificadas –, há risco de aprofundar desigualdades, beneficiando sobretudo quem já tem maior renda e acesso a oportunidades digitais.

CM: Estamos diante de uma mudança estrutural no conceito de trabalho?
Sim, o relatório indica uma ruptura em relação a padrões históricos. Antes, as transformações atingiam principalmente trabalhadores de menor renda e funções operacionais. Agora, atividades de síntese, modelagem, tomada de decisão e produção de conhecimento estão entre as mais expostas. Ainda assim, o estudo ressalta que o impacto pode ocorrer tanto por substituição quanto por complementaridade.
Rupturas no conceito de trabalho
CM: O Brasil está preparado para regular o uso da IA em áreas como jurídico, finanças e análise de dados?
O estudo não aborda diretamente a regulação, mas os dados sugerem que talvez não estejamos preparados. Isso porque a IA atinge ocupações que historicamente nunca haviam sido impactadas. Questões como o limite do uso da tecnologia na interpretação de uma sentença ou no apoio a decisões profissionais ainda não têm respostas claras – e essa discussão tende a se tornar cada vez mais urgente.
CM: Quais efeitos o consumidor pode sentir primeiro na prática?
De acordo com os dados, as mudanças no emprego devem surgir primeiro. Ocupações em áreas como finanças, jurídico, consultoria e tecnologia da informação já passam por transformação. Ao mesmo tempo, novas funções começam a surgir, o que indica uma reconfiguração mais ampla do mercado de trabalho.
Oportunidade e desigualdade avançam juntas
CM: A Inteligência Artificial representa mais oportunidade ou risco de desigualdade no Brasil?
Os dados mostram que os dois cenários coexistem. A exposição à IA cresce continuamente, o que pode gerar ganhos de produtividade. No entanto, esse avanço está concentrado em trabalhadores com maior escolaridade e renda, que tendem a capturar mais benefícios e também têm mais recursos para se adaptar às mudanças.

CM: Qual foi o dado mais surpreendente da pesquisa?
A relação entre escolaridade e exposição chama atenção. Trabalhadores com ensino superior representam apenas 16% da população ocupada, mas correspondem a 58% do grupo mais exposto à IA. Além disso, áreas como pesquisa de mercado e publicidade aparecem entre as mais impactadas, o que indica que funções estratégicas também estão no centro dessa transformação.
Empresas precisarão acelerar a requalificação
CM: As empresas brasileiras estão preparadas para incorporar a IA de forma estratégica?
O estudo indica que será necessário investir em requalificação. Empresas com maior concentração de profissionais em áreas expostas precisarão redesenhar competências e estruturas. Sem esse movimento, pode surgir um descompasso entre adoção tecnológica e qualificação da força de trabalho.
Fato é que: em um cenário em que a transformação começa justamente pelas profissões mais qualificadas, a Inteligência Artificial deixa de ser apenas uma agenda tecnológica – e passa a ocupar o centro das discussões sobre trabalho, renda e consumo no Brasil.





