Apesar do recuo recente no preço do cacau no mercado internacional, o consumidor brasileiro ainda encontra ovos de Páscoa mais caros nas prateleiras. Nas últimas semanas, a commodity do produto, o cacau, chegou a cerca de US$ 3 mil por tonelada, bem abaixo dos picos históricos recentes. Mas esse alívio ainda não se traduz no bolso do consumidor.
Segundo Ahmed El Khatib, professor e coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), o movimento não é sazonal. Trata-se de um choque global que continua repercutindo em toda a cadeia produtiva do chocolate.
“Antes mesmo do efeito Páscoa, o chocolate já vinha encarecendo com força no Brasil. Isso revela que o problema é estrutural, envolvendo matéria-prima, energia, frete e embalagens”, explica o professor.
Os números confirmam essa tendência. Dados do IPCA mostram que chocolates em barra e bombons acumulam alta de 24,77% em 12 meses até janeiro de 2026, acima da inflação geral de 4,44%.
O efeito do choque do cacau
Ahmed El Khatib explica que o aumento do preço de ovos Páscoa é um reflexo de 2024, quando o cacau ultrapassou US$ 10 mil por tonelada, mais que o triplo da média histórica. A disparada foi causada por quebras sucessivas de safra na África Ocidental, especialmente na Costa do Marfim e em Gana, responsáveis por cerca de 60% da produção mundial.
“Doenças nas lavouras, eventos climáticos extremos associados ao El Niño e envelhecimento dos cacaueiros reduziram drasticamente a oferta global. Como o cacau representa entre 30% e 40% do custo industrial do chocolate, o repasse foi inevitável”, afirma Ahmed
Mesmo com a recente correção dos preços internacionais, o consumidor ainda não sente alívio. “A indústria trabalha com contratos futuros e estoques. Muitas empresas travaram preços quando o cacau estava muito caro. O reflexo na gôndola ocorre com defasagem”, explica.
Impacto para o consumidor
Na prática, o consumidor já percebe o impacto. Levantamento divulgado pela FECAP em grandes varejistas indica aumentos expressivos: um ovo de 277g que custava cerca de R$ 45 passou para R$ 56,99, alta superior a 26%. Outros produtos registraram reajustes entre 16% e 25%.
Segundo o professor, o consumidor pode perceber a alta de três formas:
- Aumento nominal do preço;
- Redução da gramatura com preço semelhante;
- Promoções mais seletivas.
“O varejo pode manter preços competitivos em alguns produtos-âncora e compensar elevando margens em versões premium ou licenciadas”, afirma.
Ele destaca ainda que o ovo de Páscoa concentra custos adicionais de embalagem especial, marketing e logística refrigerada. “O consumidor não paga apenas pelo chocolate, mas por toda a estrutura sazonal que envolve o produto.”

Consumo resiliente, mas mais estratégico
Mesmo diante de preços mais altos, a demanda segue forte. Estudo do Google mostra que 69% dos brasileiros pretendem comprar chocolates ou ovos de Páscoa em 2026, enquanto 85% planejam celebrar a data, principalmente em encontros familiares.
Por outro lado, 79% dos consumidores percebem que a data ficou mais cara nos últimos anos, o que tem levado a ajustes no comportamento de compra. “Mesmo com o consumidor cada vez mais estratégico, a decisão final ficará para a véspera, buscando promoções e benefícios financeiros”, afirma Antonella Weyler, líder de Insights para o Varejo do Google.
Para equilibrar o orçamento, os brasileiros estão diversificando escolhas. Embora os ovos industrializados ainda liderem (74%), cresce a procura por alternativas mais acessíveis: 57% pretendem comprar barras de chocolate e 47% caixas de bombons.
Tendências para a Páscoa
O mercado artesanal também ganha espaço. A intenção de compra de chocolates caseiros (49%) já praticamente empata com a dos ovos industrializados de supermercado (50%), refletindo a busca por melhor custo-benefício e produtos mais exclusivos.
“Para marcas e varejistas, o desafio é capturar essa demanda concentrada tanto no ambiente digital, onde as buscas explodem na semana da data, quanto no ponto de venda físico, garantindo que o produto certo esteja disponível no momento exato”, explica Antonella.
Outra mudança importante é o avanço de opções mais saudáveis. Produtos zero açúcar, zero lactose e veganos deixam de ser nicho e passam a fazer parte da decisão de compra.
Dados de comportamento de busca indicam aumento expressivo na procura por chocolates zero açúcar, além de ingredientes para produção caseira, como barras de 1kg, chocolate em gotas e formas para ovos. A tendência do “faça você mesmo” se fortalece, impulsionada tanto por economia quanto por personalização.
Estratégia digital e omnicanalidade
Apesar de mais planejado, o consumidor brasileiro ainda mantém o hábito de decidir próximo à data. Cerca de 77% pretendem pesquisar preços com pouca antecedência, enquanto 61% preferem comprar em lojas físicas, principalmente pela necessidade de pronta entrega.
Na semana anterior à Páscoa, a busca por ovos prontos cresce significativamente, impulsionada pela praticidade e pela expectativa de promoções.
Diante desse novo comportamento, empresas como a Mondelēz Brasil reforçam estratégias digitais e omnicanal. Dona da marca Lacta, a companhia tem investido na integração entre canais físicos e digitais para acompanhar um consumidor cada vez mais dinâmico.
Hoje, esse consumidor já transita por múltiplos pontos de contato e deve ampliar ainda mais esse comportamento nos próximos anos. O e-commerce, por exemplo, ganha relevância em datas sazonais, com expectativa de crescimento de 24% nas vendas digitais em 2026.
A empresa também aposta em parcerias com plataformas, ações de live commerce e uso de Inteligência Artificial para personalizar a experiência. Iniciativas que conectam ativações físicas a compras digitais e soluções de entrega rápida reforçam a busca por conveniência e conversão em tempo real.
Além disso, o uso de dados tem ampliado a personalização das campanhas, permitindo impactar o consumidor de forma mais assertiva ao longo da jornada de compra.
“Atualmente, esse consumidor já compra em, pelo menos, sete canais diferentes, e a expectativa é chegar a nove até 2030. Hoje, o e-commerce já representa uma parcela significativa do negócio e ainda mais protagonismo em momentos sazonais como a Páscoa, com expectativa de crescimento de 24% nas vendas digitais em 2026”, comenta Leonardo Pires, diretor de E-Commerce na Mondelēz Brasil.
O papel de cada canal
Além disso, a companhia vem fortalecendo seu ecossistema digital com foco em integração de canais, personalização e conveniência ao longo da jornada do consumidor. A estratégia inclui parcerias com plataformas como iFood, com uso de IA para experiências hiperpersonalizadas, além de ações que conectam ativações físicas ao digital e impulsionam resultados, como o crescimento de 627% em GMV após uma live commerce.
“Mais do que estar presente em diferentes canais, buscamos entender o papel de cada um na jornada do consumidor e como podemos nos conectar de forma mais relevante em cada etapa. Isso passa por dados, tecnologia e uma construção conjunta com o varejo para oferecer uma experiência cada vez mais fluida e integrada”, finaliza Leonardo.
A empresa também avança em quick commerce com o Amazon Now e amplia sua presença em marketplaces como Mercado Livre e TikTok Shop, combinando entretenimento e consumo.
Quando os preços podem cair
O professor Ahmed El Khatib pontua que há expectativa de um possível superávit global de cacau até o fim de 2026. Se isso se confirmar, parte do alívio pode chegar ao consumidor ao longo de 2027, mas sem retorno aos patamares anteriores ao choque.
Para ilustrar, o professor apresenta um exemplo didático: em um ovo de R$ 70, cerca de 30% do preço final estaria ligado diretamente ao cacau. “Se o preço internacional cair 30% e esse movimento for totalmente repassado, o impacto máximo seria algo próximo de R$ 6 de redução. Na prática, como o repasse costuma ser parcial, a queda poderia ser de cerca de R$ 3”, explica. Ou seja, o produto passaria de R$ 70 para aproximadamente R$ 67.
“Mesmo com superávit, dificilmente veremos uma volta aos preços antigos. Há rigidez para baixo no varejo e outros custos continuam elevados.”





