/
/
Do VUCA ao CAOS: a nova era da liderança em tempos extremos

Do VUCA ao CAOS: a nova era da liderança em tempos extremos

Em um mundo marcado por contradições, ansiedade coletiva, obsolescência acelerada e saturação, o modelo CAOS surge como um novo paradigma para líderes e organizações que buscam prosperar em meio à instabilidade.
Do VUCA ao CAOS a nova era da liderança em tempos extremos
Do VUCA ao CAOS a nova era da liderança em tempos extremos

Durante décadas, o mundo corporativo recorreu ao acrônimo VUCA (Volatilidade, Incerteza, Complexidade e Ambiguidade) para compreender os desafios da era pós-Guerra Fria. Nos últimos anos, com a intensificação de crises emocionais, climáticas e digitais, a sigla BANI  (Frágil, Ansioso, Não Linear e Incompreensível) se mostrou mais sensível à natureza humana desses tempos instáveis. Mas agora, o cenário se transformou de maneira ainda mais drástica. Em uma era de hiperconexão, com sobrecarga de dados, pressão por resultados, escassez de recursos e saturação de estímulos, um novo modelo surge para descrever e orientar a liderança contemporânea: o Mundo CAOS (Contradição, Ansiedade Coletiva, Obsolescência Acelerada e Saturação/Escassez).

Segundo Paulo Kendzerski, presidente do Instituto da Transformação Digital, o acrônimo CAOS nasceu da necessidade de nomear o colapso silencioso que muitos líderes estavam vivendo sem conseguir explicar.

“Ao observar o ambiente empresarial, onde atuo há mais de três décadas e atendo mais de 5 mil empresas de todos os portes e segmentos, percebi que não estávamos apenas vendo uma mudança”, comenta. “Estávamos diante de forças simultâneas, interligadas e desestabilizadoras, como a convivência de verdades opostas (contradição), a ansiedade sistêmica que atinge empresas inteiras, a perda acelerada de relevância e a escassez de tudo: atenção, tempo, talento, sentido. CAOS não é só confusão, é o novo estado permanente do mundo dos negócios e da sociedade”, completa.

O novo normal

Ele explica ainda que os modelos VUCA e BANI nos ajudaram a dar nome à instabilidade, mas ainda tratavam os sintomas com certa racionalidade. O problema é que hoje a instabilidade virou um ambiente natural. Assim, foi notada a necessidade de um modelo que explicasse não apenas a complexidade externa, mas também o colapso interno – emocional, cultural estratégico – que muitos líderes e organizações atravessavam.

Além disso, a transformação digital não foi, como em revoluções anteriores, impulsionada por uma busca interna das empresas por eficiência, mas sim por uma exigência externa, vinda dos consumidores. Isso inverteu a lógica tradicional: agora, a pressão por mudança é de fora para dentro. E para líderes ainda presos a paradigmas analógicos, adaptar-se tornou-se uma corrida contra o tempo.

Contradição

No ambiente empresarial, as decisões estratégicas se deparam com dilemas diários: automatizar ou humanizar? Escalar ou preservar a cultura? Inovar ou manter a operação rodando? A estabilidade deixou de ser referência. Modelos antigos de trabalho, liderança e ensino estão ruindo diante de novas lógicas. Mudanças tecnológicas que se multiplicam em ritmo exponencial: IA, IoT, blockchain. Paulo reforça que a Contradição aparece quando empresas dizem querer inovar, mas mantêm estruturas engessadas; valorizam pessoas, mas priorizam métricas desumanas. Isso gera paralisia estratégica e perda de credibilidade.

Ansiedade coletiva

Se antes a ansiedade era um sintoma individual, hoje ela é compartilhada. Ambientes de trabalho sobrecarregados emocionalmente se tornam centros de contágio emocional. “A ansiedade coletiva se manifesta quando o ambiente está sempre ‘no limite’, e o time vive em alerta constante. Isso corrói a confiança, mina a produtividade e afeta diretamente a capacidade de tomar decisões com clareza, explica Paulo.

Além disso, a ansiedade coletiva trava o discernimento. Quando todo o time está sob pressão contínua, com prazos apertados, excesso de reuniões, metas desconectadas da realidade, há um colapso da energia criativa. “As pessoas começam a tomar decisões para aliviar a tensão, não para gerar valor.
Isso resulta em soluções apressadas, retrabalho e ambientes tóxicos. É um ciclo que drena tempo, energia e confiança, e corrói a capacidade produtiva das equipes”, completa.

Obsolescência acelerada

Paulo Kendzerski, presidente do Instituto da Transformação Digital.

O que era considerado estratégico hoje pode se tornar obsoleto em poucos meses. Não apenas produtos e tecnologias envelhecem rapidamente, mas também habilidades, modelos de negócios, valores culturais e até crenças de liderança. A pandemia de 2020 foi um alerta: empresas com processos em transformação conseguiram acelerar sua adaptação. As demais, foram forçadas a iniciar do zero.

“Tecnologias, processos e até discursos tornam-se rapidamente irrelevantes. As organizações têm dificuldade em atualizar seus modelos mentais e operacionais na mesma velocidade em que o contexto muda, o que gera frustração e sensação de estar sempre atrasado”, pontua.

Nesse cenário, as prioridades do empresário se tornaram entender as mudanças do mundo, diagnosticar o estágio atual de maturidade empresarial/digital da empresa, qualificar equipes, identificar as novas oportunidades de conexão a ecossistemas além da inovação, avaliar os novos modelos de negócios, construir estratégias inovadoras e implementar um plano de ações efetivo.

O antídoto para a obsolescência não é mais só capacitação, mas sim curadoria de aprendizado, reflexão constante e espaços de reinvenção interna e conhecimento contínuo e evolutivo. Culturalmente, Paulo aconselha ser preciso incentivar ciclos mais curtos de aprendizagem, promover o desapego ao modo “sempre foi assim” e valorizar a adaptabilidade como competência central. “Empresas que evoluem são aquelas que colocam gente aprendendo e ensinando no centro da estratégia”, acrescenta.

Escassez e saturação

Vivemos a paradoxal escassez de atenção, tempo, propósito e talentos, em um mundo saturado de dados e estímulos. A “saturação invisível” impede decisões claras: quanto mais informação, menos clareza. De acordo com o último relatório da Reuters, 54% dos brasileiros evitam consumir notícias porque elas afetam negativamente seu estado emocional.

“Tudo falta e tudo sobra ao mesmo tempo: falta atenção, tempo, foco, confiança; e sobra dado, ruído, tarefa e pressão. A saturação informacional e emocional paralisa a capacidade criativa e a escassez de sentido esvazia o engajamento das pessoas”, destaca.

VUCA, BANI, CAOS e a evolução dos paradigmas

O VUCA surgiu em contextos militares e estratégicos, quando o desafio era navegar em cenários instáveis, mas ainda previsíveis. O BANI trouxe a perspectiva humana e emocional, reconhecendo a fragilidade e ansiedade do presente. Já o modelo CAOS propõe uma leitura mais abrangente e atual: não são apenas sintomas de instabilidade, mas causas profundas de um colapso sistêmico em curso. Nesse cenário, liderar exige muito mais que técnica: requer lucidez, empatia e coragem.

“O Canvas de Maturidade CAOS é uma ferramenta prática que ajuda líderes e times a avaliarem como estão respondendo às quatro forças do Mundo CAOS. Ele identifica se a resposta da organização está no modo reativo, tático, estratégico ou evolutivo. O objetivo não é julgar, mas trazer clareza para o momento atual e orientar o próximo passo.  É como segurar um espelho em meio à tempestade e conseguir ver com mais nitidez onde estão os ruídos, os bloqueios e as possibilidades reais de transformação”, reforça Paulo.

Liderar no CAOS

Liderar no mundo CAOS não é apenas tomar decisões estratégicas. É sustentar a saúde emocional da equipe, agir com presença consciente e integrar pessoas e tecnologias em um ecossistema cada vez mais descentralizado. As lideranças precisam:

  • Redesenhar processos e estruturas com agilidade;
  • Cultivar empatia e escuta ativa, em todos os níveis;
  • Tomar decisões orientadas por dados e contexto;
  • Atuar de forma colaborativa e adaptativa;
  • Estimular a aprendizagem contínua;
  • Exercitar curadoria frente ao excesso de informação.

Nesse cenário, o Mundo CAOS pode ser usado como ferramenta pedagógica ou de desenvolvimento de lideranças. O conceito é mais do que uma lente de diagnóstico, mas também um instrumento educativo poderoso. Pode ser utilizado em programas de formação de lideranças, MBAs, cursos de inovação, oficinas com times estratégicos e processos de mentoria.

“Ao trabalhar cada uma das forças (Contradição, Ansiedade, Obsolescência e Escassez) com dinâmicas participativas, as pessoas desenvolvem autopercepção, empatia, pensamento crítico e visão sistêmica”, frisa. “Além disso, o CAOS ajuda a desconstruir modelos ultrapassados de controle e previsibilidade, estimulando lideranças mais adaptativas, humanas e conectadas à realidade”, completa.

Convivência entre gerações desafia líderes

No Mundo CAOS, diferentes gerações enfrentam desafios distintos. Para os Millennials e a Geração Z, que cresceram em um ambiente fluido e hiperconectado, a instabilidade é quase natural. No entanto, esses grupos também lidam com níveis elevados de ansiedade, medo de irrelevância e exaustão digital. Já os Baby Boomers e a Geração X vivenciam a pressão da obsolescência acelerada e da contradição sistêmica, especialmente quando valores e práticas que funcionaram por décadas são colocados em xeque.

“Hoje, temos três ou até quatro gerações convivendo nas organizações. E se não houver um esforço consciente para criar pontes entre essas visões de mundo, estilos de liderança e formas de aprender e se relacionar com o trabalho, o Mundo CAOS tende a se intensificar ainda mais”, frisa.

Nesse contexto, a fragmentação geracional pode se tornar um obstáculo crítico à inovação, à confiança e à construção de um propósito compartilhado. Por isso, conectar gerações, com empatia, escuta ativa e projetos integradores, é uma estratégia vital para liderar com mais lucidez em meio ao caos.

Três ações imediatas para liderar no Mundo CAOS

Diante de um cenário marcado por incertezas, contradições e mudanças rápidas, Paulo sugere três ações urgentes para CEOs e líderes enfrentarem o chamado Mundo CAOS.

  • Criar espaços reais de escuta ativa e alinhamento emocional com os times, com apoio de mentoria especializada.
  • Mapear contradições internas entre discurso e prática, promovendo workshops com ferramentas como o Canvas de Maturidade CAOS.
  • Incorporar o Canvas CAOS nas reuniões de liderança para transformar instabilidade em diálogo estruturado e decisões com mais lucidez.

“Mas o que me interessa mais é observar quando o CAOS começa a reconfigurar o ambiente: quando líderes criam espaços de pausa, escuta ativa e realinhamento.
Quando as empresas começam a conversar sobre sentido e não só sobre escala. Esses são bons sinais”, finaliza.

CONAREC 2025

Como liderar em um cenário marcado pela incerteza, evolução exponencial e escassez? No CONAREC 2025, lideranças e CEOs dos mais diferentes segmentos estarão reunidos para compartilhar os principais desafios e aprendizados na era da IA. Faça parte do maior congresso de CX da América Latina e entenda como criar o futuro do CX Super-humano! Saiba mais detalhes clicando aqui.

Compartilhe essa notícia:

Recomendadas

MAIS +

Veja mais noticias

Movimentações de lideranças estratégicas refletem novos ciclos e foco em crescimento em empresas como Buser, Atacadão, Light e Época Cosméticos.
Época Cosméticos, Atacadão, Light e Mapfre movimentam lideranças
Movimentações refletem novos ciclos estratégicos e foco em crescimento.
A Copa do Mundo deixou de ser apenas futebol e passou a ser vista pela GenZ como fenômeno cultural, entretenimento e experiência digital.
Para 82% da GenZ, os memes são a principal conexão com a Copa do Mundo
A Copa do Mundo deixou de ser apenas futebol e passou a ser vista pela GenZ como fenômeno cultural, entretenimento e experiência digital.
Entenda como dopamina, algoritmos e estratégias do e-commerce criam um ambiente de consumo digital impulsivo.
No Radar da CM: O impacto psicológico do consumo digital
Entenda como dopamina, algoritmos e estratégias do e-commerce criam um ambiente pensado para estimular decisões rápidas, muitas vezes impulsivas.
O maior desafio do momento não está apenas em dominar a tecnologia, mas em mudar a forma de trabalhar. Veja as habilidades que você precisa desenvolver agora.
Quais são as habilidades essenciais na "década da desorientação"?
O maior desafio do momento não está apenas em dominar a tecnologia, mas em mudar a forma de trabalhar. Veja as habilidades que você precisa desenvolver agora.

Webstories

SUMÁRIO – Edição 296

A evolução do consumidor traz uma série de desafios inéditos, inclusive para os modelos de gestão corporativa. A Consumidor Moderno tornou-se especialista em entender essas mutações e identificar tendências. Como um ecossistema de conteúdo multiplataforma, temos o inabalável compromisso de traduzir essa expertise para o mundo empresarial assimilar a importância da inserção do consumidor no centro de suas decisões e estratégias.

A busca incansável da excelência e a inovação como essência fomentam nosso espírito questionador, movido pela adrenalina de desafiar e superar limites – sempre com integridade.

Esses são os valores que nos impulsionam a explorar continuamente as melhores práticas para o desenho de uma experiência do cliente fluida e memorável, no Brasil e no mundo.

A IA chega para acelerar e exponencializar os negócios e seus processos. Mas o CX é para sempre, e fará a diferença nas relações com os clientes.

CAPA: Rhauan Porfírio
IMAGEM: IA Generativa | ChatGPT


Publisher
Roberto Meir

Diretor-Executivo de Conhecimento
Jacques Meir
[email protected]

Diretora-Executiva
Lucimara Fiorin
[email protected]

COMERCIAL E PUBLICIDADE
Gerentes

Daniela Calvo
[email protected]

Elisabete Almeida
[email protected]

Érica Issa
[email protected]

Gustavo Bittencourt
[email protected]

Juliana Carvalho
[email protected]

Marcelo Malzoni
[email protected]

NÚCLEO DE CONTEÚDO
Head de Conteúdo
Larissa Sant’Ana
[email protected]

Editora do Portal 
Júlia Fregonese
[email protected]

Produtores de Conteúdo
Bianca Alvarenga
Danielle Ruas 
Jéssica Chalegra
Marcelo Brandão
Victoria Pirolla

Head de Arte
Camila Nascimento
[email protected]

Revisão
Elani Cardoso

COMUNICAÇÃO E MARKETING
Coordenadoras
Nayara Manfredi
Paula Coutinho

TECNOLOGIA
Gerente

Ricardo Domingues


CONSUMIDOR MODERNO
é uma publicação da Padrão Editorial Ltda.
www.gpadrao.com.br
Rua Ceará, 62 – Higienópolis
Brasil – São Paulo – SP – 01234-010
Telefone: +55 (11) 3125-2244
A editora não se responsabiliza pelos conceitos emitidos nos artigos ou nas matérias assinadas. A reprodução do conteúdo editorial desta revista só será permitida com autorização da Editora ou com citação da fonte.
Todos os direitos reservados e protegidos pelas leis do copyright,
sendo vedada a reprodução no todo ou em parte dos textos
publicados nesta revista, salvo expresso
consentimento dos seus editores.
Padrão Editorial Ltda.
Consumidor Moderno ISSN 1413-1226

NA INTERNET
Acesse diariamente o portal
www.consumidormoderno.com.br
e tenha acesso a um conteúdo multiformato
sempre original, instigante e provocador
sobre todos os assuntos relativos ao
comportamento do consumidor e à inteligência
relacional, incluindo tendências, experiência,
jornada do cliente, tecnologias, defesa do
consumidor, nova consciência, gestão e inovação.

PUBLICIDADE
Anuncie na Consumidor Moderno e tenha
o melhor retorno de leitores qualificados
e informados do Brasil.

PARA INFORMAÇÕES SOBRE ORÇAMENTOS:
[email protected]

Rebeca Andrade – Ensinamentos e Aprendizados O futuro do entretenimento no Brasil NBA é a melhor experiência esportiva do mundo Grupo Boticário, em parceria com a Mercur, distribui gratuitamente produtos inclusivos.