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Bets e população de baixa renda: a aposta pela sobrevivência

Bets e população de baixa renda: a aposta pela sobrevivência

Do uso do Bolsa Família como capital de risco emocional ao ciclo de dopamina, CX Brain sugere respostas que vão além da proibição.
Do uso do Bolsa Família como capital de risco emocional ao ciclo de dopamina, CX Brain sugere respostas que vão além da proibição.
Do uso do Bolsa Família como capital de risco emocional ao ciclo de dopamina, CX Brain sugere respostas que vão além da proibição.
Foto: Shutterstock.

No Brasil, o que era visto como diversão ocasional se tornou uma pressão econômica real. As apostas online consomem 20% do dinheiro que sobra das famílias de menor renda após pagar as despesas essenciais.

Essas populações desembolsam, em média, R$ 58 por mês por domicílio no playground virtual das bets, que já movimentam entre R$ 20 e 30 bilhões por mês no País. Esses números são do estudo Consumo, Sensibilidade e Estratégias de CX para Baixa e Média Renda, metanálise da CX Brain, Skill Tech do Grupo Padrão.

Para Jacques Meir, diretor-executivo de Conhecimento do Grupo Padrão e mentor da CX Brain, o que se vê ali não é entretenimento descompromissado, mas uma resposta emocional extrema a uma vida precária.

“Não é lazer: é um alívio imediato. As vitórias viram protagonismo, o tal ‘upgrade do mês’, e sustentam um ciclo que ignora que as chances estão contra o apostador – porque nos momentos em que ele ganha é como se a vida se virasse a favor dele.”

Ele segue: “O que mantém esse ciclo é a dopamina do alívio rápido. A pessoa perde, aposta de novo achando que vai recuperar, e quando ganha, sente que fez algo relevante – um ‘upgrade’ emocional, não uma solução estrutural”.

Bolsa Família x Bets

O problema se intensifica quando parte da renda pública que deveria cobrir necessidades básicas é redirecionada para o jogo.

O mesmo estudo mostra que cerca de 3,4 milhões de beneficiários do Bolsa Família (17% da base) aplicam, em média, R$ 100 por mês nas apostas – um uso claro da renda subsidiada como “capital de risco” emocional.

Jacques coloca o dilema com franqueza: “O uso do Bolsa Família como ‘capital de risco’ não é escolha de lazer, mas de quem sente que não tem outra saída. Privar essas pessoas de apostar seria paternalismo, mas deixar o benefício virar fichas em um jogo que explora sua vulnerabilidade também é grave. Precisamos de regulação inteligente, não de silenciamento”, afirma.

Na visão do executivo, o caminho não é tutelar de forma rígida, e sim criar “travas técnicas” – como um “score de jogador” alimentado por dados (por exemplo via Open Finance) que limite apostas sucessivas quando a renda já está comprometida – para “frear o consumo recorrente sem retirar a escolha”.

Dopamina x oxitocina: o paradoxo da escala

As bets prosperam justamente por oferecer picos rápidos de recompensa emocional (dopamina) em um ambiente de baixa fidelidade: consumidores de baixa renda giram entre aplicativos buscando “o melhor upgrade do mês”, com alta rotatividade e pouca lealdade, segundo o próprio estudo.

“Esse cassino das promoções monta arquiteturas de gratificação focadas em previsibilidade de pequenos retornos, não em vínculo duradouro”, explica Jacques.

Em um mercado de renda estruturalmente rígida como o brasileiro, esse crescimento pulverizado “rouba” fatias de gasto de outras frentes sem criar estabilidade – o chamado paradoxo da escala, em que mais estímulos não se traduzem em escala real de valor.

Nessa perspectiva, o mentor da CX Brain sugere uma resposta menos óbvia para quem compete por atenção e orçamento: “Todo cliente que se sente valorizado porque percebe que determinada marca está disposta a ouvi-lo, exerce preferência. É a única forma que você tem de combater, para além da dopamina: gerando um pouco de oxitocina, o hormônio do vínculo”.

Na prática

O estudo sugere caminhos concretos para responder à concorrência das bets com gratificação instantânea: em vez de tentar fidelizar com estímulos voláteis, marcas devem criar “microconquistas reais” – metas de economia palpáveis, recompensas progressivas e benefícios imediatos que devolvem o senso de controle e valor percebido sobre as mesmas.

“É aí que a oxitocina começa a contrabalançar a dopamina: dá base para uma inclusão que não ignora a escassez, mas oferece uma alternativa de pertencimento e confiança”, conclui o mentor.

Acesso o estudo completo e saiba mais sobre os comportamentos de consumo dos consumidores que vivem no limite.

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