/
/
Quando R$ 10 é o limite: O que o mercado ignora sobre o consumo de baixa renda

Quando R$ 10 é o limite: O que o mercado ignora sobre o consumo de baixa renda

Entre R$2 e R$6 está “tudo bem”; acima de R$10, a barreira. Estudo da CX Brain mostra as faces de um cliente ignorado pelas marcas nacionais.
baixa renda
baixa renda
baixa renda

Não cabem mais de R$ 10 no carrinho – e isso diz muito sobre um consumo de sobrevivência. Entre brasileiros de baixa renda, a faixa até R$ 10 concentra a maior penetração, e produtos entre R$ 2,01 e R$ 6,00 são os mais aderentes a essas populações.

Acima desse teto, cada real extra aumenta o risco de desistência, atraso ou troca por marcas desconhecidas. Os dados são do estudo Consumo, Sensibilidade e Estratégia de CX para Baixa e Média Renda, uma metanálise conduzida pela CX Brain, Skill Tech do Grupo Padrão, a partir de levantamentos recentes.

“Estamos falando de um consumidor extremamente sensível a preço, por isso, transferir o custo para ele pode inviabilizar a venda”, alerta Jacques Meir, diretor-executivo de Conhecimento do Grupo Padrão e mentor da CX Brain.

O pano de fundo do momento atual é igualmente dramático: mais de 76 milhões de inadimplentes, poupança que mal passa de 15% da renda nacional, orçamento familiar espremido e nenhuma margem para erro. “Não se escolhe luxo. Negocia-se sobrevivência, mediada por esperança e fé”, reforça Jacques.

O que os dados mostram (e o mercado costuma ignorar)

Produtos acima de R$ 10 enfrentam uma forte barreira de adesão entre a população de baixa renda e a equação entre esforço x recompensa guia o comportamento:

  • A classe C busca praticidade, reputação e equilíbrio entre preço e serviço;
  • As classes D/E priorizam clareza e gratificação instantânea, trocando de marca com alta frequência.
  • Respeito, simplicidade e vantagem clara são universais – o que muda é o nível de complexidade tolerado.

Esse quadro alimenta o “paradoxo da escala” descrito por Meir: “Ao contrário do chavão ‘cresceu, barateou’, no Brasil chegamos a um delta em que o custo de gerenciar a base e customizar ofertas corrói a rentabilidade”.

E como resultado: churn alto, atrasos, reputação negativa e CAC inflado. “Com mais de 212 milhões de habitantes, o Brasil tem condições de gerar negócios baseados em volume, mas é preciso que essa escala se reflita em produtos e serviços de baixo impacto para o cliente final. Sem isso, seguimos hipotecando o futuro por centavos a mais no preço final”, adverte.

Conectados pelo bolso: como a baixa renda navega e compra

Engajadas, móveis e criteriosas. Assim se comportam as classes C, D e E no digital:

  • 91% acessam a internet todos os dias, quase sempre pelo celular.
  • Ali resolvem tudo: 49% preferem comprar via smartphone, 77% entram no Instagram diariamente (vitrine, SAC e comparação de preço no mesmo feed).
  • 84% já pagam com Pix no e-commerce, atraídos por agilidade e zero tarifa.

O parcelamento continua regra (79% dos brasileiros ainda preferem dividir), agora também via “parcelado no Pix” e carteiras digitais, que organizam o caos financeiro cotidiano.

Mas, para Jacques, o mercado ainda não conseguiu adaptar jornadas mobile-first para esse público.

“Existe uma diferença entre ser digitalizado e ter maturidade digital. Boa parte dos brasileiros só se sente confortável usando o recurso de áudio no WhatsApp, por exemplo. Por isso, árvores de decisão textuais e longas tendem a fracassar – esse consumidor não tem paciência para isso, não vai entender, não terá capacidade cognitiva de mergulhar em fluxos complexos.”

A alternativa, diz ele, é desenhar canais verdadeiramente receptivos.

“Receptividade é impedir que o cliente se frustre ao tentar usar o canal sem sucesso. Mas isso exige conhecer, de fato, o consumidor brasileiro, e não apenas confirmar vieses corporativos”, reforça.

Velocidade x controle: flexibilidade com empatia

A hiperconexão pelo celular não torna o caminho até a compra simples ou linear. Quanto mais rápido o dedo desliza na tela, mais o bolso pede freio e segurança.

Nesse sentido, a jornada digital encontra a financeira: interfaces precisam ser leves e diretas como um áudio no WhatsApp, mas também capazes de traduzir risco, parcela e compromisso em linguagem que caiba no dia a dia – e no orçamento – de quem vive no “agora”.

“O brasileiro não se permite comprar à vista porque ele não tem o dinheiro, ele tem medo do futuro. Ele sabe que se começar a poupar agora, em algum ponto da jornada vai precisar do valor antes de adquirir o produto”, afirma.

Por isso, o especialista considera que o papel das marcas não é doutrinar, mas traduzir riscos em linguagem simples a fim de eliminar etapas que geram desconforto.

“Você está assumindo um financiamento: qual você acha que vai ser a sua probabilidade, honestamente, de furar uma parcela nos próximos 12 meses?”, provoca.

“Não é sobre inibir a compra, mas estimular a reflexão. Precisamos ajudar o cliente a decidir da melhor forma. Isso quer dizer ter empatia para compreender a situação dele e fazê-lo refletir sobre o risco que está tomando. Flexibilizar meios de pagamento e manter a jornada rápida é obrigação, mas ajudar o cliente a medir exposição e consequência é diferencial. Afinal, no Brasil, quem não deve, não tem”, conclui.

O estudo Consumo, Sensibilidade e Estratégia de CX para Baixa e Média Renda será lançado no dia 25/7. Fique de olho na News da CM para receber o estudo na íntegra.

Compartilhe essa notícia:

Recomendadas

MAIS +

Veja mais noticias

NR-1 entra em vigor: o que muda para empresas, trabalhadores e para o CX
A atualização da NR-1 amplia as obrigações das empresas em relação à saúde mental no trabalho e coloca o Brasil em linha com as melhores práticas internacionais de gestão de riscos ocupacionais – mas existem desafios
Ana Bógus, presidente da Beiersdorf Brasil.
Cuidado como diferencial: a liderança de Ana Bógus à frente da Beiersdorf Brasil
Primeira CEO mulher da Beiersdorf no Brasil, executiva aposta em uma liderança baseada em autonomia, cultura organizacional e desenvolvimento de pessoas para impulsionar resultados sustentáveis.
WGSN identifica um novo arquétipo de consumidor que rejeita o excesso, prioriza o bem-estar emocional e exige das marcas uma nova forma de criar valor.
"Restauradores", os consumidores que vão redefinir o mercado em 2028
WGSN identifica um novo arquétipo de consumidor que rejeita o excesso, prioriza o bem-estar emocional e exige das marcas uma nova forma de criar valor.
Com 46% dos torcedores desanimados com a Seleção e 99 milhões de brasileiros prontos para consumir, a Copa de 2026 expõe uma virada: o evento virou ritual social.
Copa do Mundo de 2026 revela um novo jeito do Brasil de se apaixonar
Com 46% dos torcedores desanimados com a Seleção e 99 milhões de brasileiros prontos para consumir, a Copa de 2026 expõe uma virada: o evento virou ritual social.

Webstories

SUMÁRIO – Edição 297

A evolução do consumidor traz uma série de desafios inéditos, inclusive para os modelos de gestão corporativa. A Consumidor Moderno tornou-se especialista em entender essas mutações e identificar tendências. Como um ecossistema de conteúdo multiplataforma, temos o inabalável compromisso de traduzir essa expertise para o mundo empresarial assimilar a importância da inserção do consumidor no centro de suas decisões e estratégias.

A busca incansável da excelência e a inovação como essência fomentam nosso espírito questionador, movido pela adrenalina de desafiar e superar limites – sempre com integridade.

Esses são os valores que nos impulsionam a explorar continuamente as melhores práticas para o desenho de uma experiência do cliente fluida e memorável, no Brasil e no mundo.

A IA chega para acelerar e exponencializar os negócios e seus processos. Mas o CX é para sempre, e fará a diferença nas relações com os clientes.

CAPA: Camila Nascimento
IMAGEM: IA Generativa | Runway


Publisher
Roberto Meir

Diretor-Executivo de Conhecimento
Jacques Meir
[email protected]

Diretora-Executiva
Lucimara Fiorin
[email protected]

COMERCIAL E PUBLICIDADE
Gerentes

Daniela Calvo
[email protected]

Elisabete Almeida
[email protected]

Érica Issa
[email protected]


Leandro Carvalho
[email protected]

Marcelo Malzoni
[email protected]

Rodrigo Santinelo
rodrigo.santinelo@gpadrao.com.br

NÚCLEO DE CONTEÚDO
Head de Conteúdo
Larissa Sant’Ana
[email protected]

Editora do Portal 
Júlia Fregonese
[email protected]

Produtores de Conteúdo
Bianca Alvarenga
Carolina Paes
Danielle Ruas 
Marcelo Brandão
Victoria Pirolla

Head de Arte
Camila Nascimento

Revisão
Elani Cardoso

COMUNICAÇÃO E MARKETING
Gerente
Leonam Dias

TECNOLOGIA
Gerente

Ricardo Domingues


CONSUMIDOR MODERNO
é uma publicação da Padrão Editorial Ltda.
www.gpadrao.com.br
Rua Ceará, 62 – Higienópolis
Brasil – São Paulo – SP – 01234-010
Telefone: +55 (11) 3125-2244
A editora não se responsabiliza pelos conceitos emitidos nos artigos ou nas matérias assinadas. A reprodução do conteúdo editorial desta revista só será permitida com autorização da Editora ou com citação da fonte.
Todos os direitos reservados e protegidos pelas leis do copyright,
sendo vedada a reprodução no todo ou em parte dos textos
publicados nesta revista, salvo expresso
consentimento dos seus editores.
Padrão Editorial Ltda.
Consumidor Moderno ISSN 1413-1226

NA INTERNET
Acesse diariamente o portal
www.consumidormoderno.com.br
e tenha acesso a um conteúdo multiformato
sempre original, instigante e provocador
sobre todos os assuntos relativos ao
comportamento do consumidor e à inteligência
relacional, incluindo tendências, experiência,
jornada do cliente, tecnologias, defesa do
consumidor, nova consciência, gestão e inovação.

PUBLICIDADE
Anuncie na Consumidor Moderno e tenha
o melhor retorno de leitores qualificados
e informados do Brasil.

PARA INFORMAÇÕES SOBRE ORÇAMENTOS:
[email protected]

Rebeca Andrade – Ensinamentos e Aprendizados O futuro do entretenimento no Brasil NBA é a melhor experiência esportiva do mundo Grupo Boticário, em parceria com a Mercur, distribui gratuitamente produtos inclusivos.