Em uma de suas cartas mais pessoais, Warren Buffett anunciou que deixará de escrever o tradicional relatório anual da Berkshire Hathaway e de discursar na conferência de acionistas. Aos 95 anos, o investidor mais influente do mundo prepara a sucessão definitiva da companhia, marcando o fim de uma era que moldou a história do capitalismo moderno.
“Como diriam os britânicos, vou ficar quieto”, escreveu Buffett em tom de despedida. A carta, divulgada nesta segunda-feira (10), mistura nostalgia, gratidão e uma reflexão profunda sobre o papel da sorte, da ética e da generosidade ao longo de sua vida e carreira.
A liderança de Greg Abel
O novo capítulo da Berkshire será conduzido por Greg Abel, atual Vice-Presidente de Operações não relacionadas a seguros, que assumirá o posto de CEO até o final do ano. Buffett o descreve como “um ótimo gestor, trabalhador incansável e comunicador honesto”.
Abel, canadense de 63 anos, tem sido preparado há anos para a transição. Segundo Buffett, ele conhece profundamente os negócios e funcionários da empresa.
“Ele entende muitos dos nossos negócios e funcionários muito melhor do que eu, e aprende muito rápido sobre assuntos que muitos CEOs nem sequer consideram. Não consigo imaginar um CEO, um consultor de gestão, um acadêmico, um membro do governo – enfim, qualquer pessoa – que eu escolheria em vez do Greg para administrar as suas economias e as minhas”, disse.
A generosidade de um legado
O anúncio foi acompanhado por um gesto simbólico: Buffett converteu 1.800 ações classe A da Berkshire em 2,7 milhões de ações classe B para doar a quatro fundações familiares. A Fundação Susan Thompson Buffett recebeu 1,5 milhão de ações, enquanto outras três (Sherwood, Howard G. Buffett e NoVo) receberam 400 mil cada.
Com a operação, o investidor mantém sua promessa de destinar quase toda a fortuna à filantropia, em especial às iniciativas lideradas por seus filhos. “Eles não precisam fazer milagres nem temer fracassos”, escreve. “Basta aprimorar o que é alcançado por meio da filantropia e das políticas públicas, reconhecendo as limitações de ambos.”
Uma vida em Omaha
A carta é também uma homenagem à cidade que moldou Buffett. Ele relembra episódios de infância em Omaha, como a apendicite que o levou a um hospital católico em 1938, e as brincadeiras com um kit de impressões digitais que ganhou da tia.
Buffett conta como, mesmo após passagens por Washington e Nova York, decidiu retornar definitivamente a Omaha em 1956, onde vive e trabalha até hoje. “O centro dos Estados Unidos era um ótimo lugar para nascer, criar uma família e construir um negócio. Por pura sorte, tirei um palito ridiculamente comprido na hora de nascer”, ironizou.
Homenagens e memórias
Buffett dedica longos trechos da carta a figuras que marcaram sua trajetória, em especial, seu parceiro de décadas, Charlie Munger, falecido em 2023. “Por mais de 60 anos, Charlie teve um enorme impacto em mim. Não poderia ter tido um professor melhor nem um ‘irmão mais velho’ mais protetor”, escreve.
Ele também relembra amizades com Don Keough, ex-presidente da Coca-Cola, e Walter Scott Jr., que trouxe a MidAmerican Energy à Berkshire. As histórias, recheadas de humor e ternura, formam uma crônica sobre a comunidade de Omaha e os laços que sustentaram sua filosofia empresarial.
Buffett fala sobre a aleatoriedade da vida. “Nasci em 1930, saudável, razoavelmente inteligente, branco, do sexo masculino e nos Estados Unidos. Uau! Obrigado”, comentou. Ele reconhece que a sorte, ou a “Senhora Sorte”, como chama, foi um fator determinante em seu sucesso, e critica a desigualdade de oportunidades.
“Muitos líderes e ricos receberam muito mais do que sua parte da sorte, o que frequentemente preferem não reconhecer”, disse. “Enquanto uns nasceram enfrentando um inferno na infância, outros alcançaram a independência financeira ao sair do útero.”
O tempo e o legado
Aos 95 anos, Buffett reflete com serenidade sobre o envelhecimento e o futuro da empresa. Ele reforça que o tempo é invicto; todos acabam em sua lista de conquistas. Apesar de se mover mais lentamente e ler com dificuldade, ele afirma continuar no escritório cinco dias por semana.
“Ocasionalmente, tenho uma ideia útil ou recebo uma proposta que talvez não tivéssemos recebido de outra forma. Devido ao tamanho da Berkshire e aos níveis de mercado, as ideias são poucas – mas não inexistentes”, comenta.
Críticas à cultura corporativa
Fiel ao estilo direto, Buffett não poupou críticas ao modelo atual de remuneração executiva. Ele observa que as tentativas de reformar os salários de CEOs acabaram estimulando “inveja e ganância”, com líderes exigindo ganhos cada vez maiores. “O efeito dominó ganhou vida própria”, afirma.
Para ele, a Berkshire se diferencia por manter uma gestão focada nos acionistas e na integridade. Além disso, comentou que os gestores devem enriquecer bastante, afinal, têm grandes responsabilidades, mas não têm o desejo de ostentar riqueza nem de iniciar dinastias.
Lições finais
Buffett encerra sua carta com um tom quase filosófico, deixando conselhos sobre humildade, ética e propósito. “Lembre-se de que a faxineira é tão humana quanto o presidente”, escreveu. “A grandeza não se conquista acumulando dinheiro, publicidade ou poder. Quando você ajuda alguém, de qualquer forma, você ajuda o mundo.”
Em uma frase que resume sua visão de vida e negócios, ele conclui: “A bondade não custa nada, mas também não tem preço. Seja religioso ou não, é difícil superar a Regra de Ouro como guia de conduta”.
Em seu tom final, Buffett mistura otimismo e despedida. Agradece à América por ter proporcionado tantas oportunidades e deixa um convite. “Viva a vida para merecê-la. Não se culpe pelos erros do passado. Aprenda pelo menos um pouco com eles e siga em frente. Encontre os heróis certos e copie-os.”





