A felicidade no trabalho é resultado de uma combinação de fatores que vão desde o significado do trabalho até o ambiente e a cultura organizacional. Tanto empresas quanto funcionários têm um papel importante nesse processo.
A Pluxee, parceira global em benefícios e engajamento de colaboradores, recentemente uniu-se à plataforma britânica The Happiness Index, que avalia a felicidade e o engajamento dos colaboradores em mais de 100 países buscando algumas respostas para identificarem o grupo de pessoas que se sente mais feliz hoje no trabalho.
Os dados revelaram um fato curioso: os brasileiros estão 9% mais insatisfeitos no trabalho em comparação com a média global. Sabe-se que felicidade e engajamento no ambiente profissional são temas essenciais, porém desafiadores de se alcançar. Esses fatores exigem um processo contínuo, com ações bem estruturadas, dedicação e, acima de tudo, muita escuta ativa.
O estudo, realizado com mais de 23 mil trabalhadores entre 19 de fevereiro e 4 de março de 2024, teve como objetivo ajudar as empresas a entenderem os níveis de satisfação e envolvimento dos colaboradores por meio da análise de 22 perguntas pré-definidas, todas baseadas em neurociência. Os resultados mostraram que a média nacional de felicidade no trabalho no Brasil é de 7,2, enquanto a média global é de 7,8.
Felicidade vs. Engajamento
Felicidade e engajamento no trabalho, apesar de relacionados, não são exatamente a mesma coisa. A felicidade é mais subjetiva e individual, e no trabalho está mais relacionada a um estado emocional positivo, satisfação e bem-estar geral do colaborador. O engajamento é mais observável e mensurável, um conceito mais amplo que envolve o nível de envolvimento, entusiasmo e dedicação do colaborador com a empresa e suas atividades.
Dessa forma, a pesquisa foi dividida entre essas duas vertentes. A primeira, felicidade, refere-se a ter boas condições de trabalho e oportunidades de crescimento, e nesse aspecto, o Brasil está 4% abaixo da média global. A segunda, engajamento, mede o quanto as pessoas estão genuinamente conectadas com suas funções e empresas, com uma discrepância ainda maior, 10% abaixo da média. A pesquisa também revela que os profissionais brasileiros não se sentem reconhecidos por suas contribuições, nem valorizados como indivíduos, destacando a falta de oportunidades de crescimento pessoal e a ausência de inspiração em suas organizações.
“É urgente que as empresas brasileiras abordem a questão do reconhecimento com a máxima seriedade e atenção, não apenas pela atração e retenção de talentos, mas também pela melhor performance e resultados que se obtém com uma equipe engajada”, afirma Fabiana Galetol, Diretora Executiva de Pessoas e de Responsabilidade Social Corporativa da Pluxee. “No Brasil, temos uma diferença considerável em relação à média global de engajamento: enquanto registramos a pontuação de 7.1 no quesito, a média global está em 7.9. É fato que a conexão que as pessoas terão com as empresas será completamente diferente uma vez que elas se sintam valorizadas e essenciais para a companhia alcançar o sucesso”.
Homens são mais felizes no trabalho?
A resposta é sim. Uma análise segmentada por gênero revelou que os colaboradores que se identificaram com o gênero masculino têm uma média de felicidade e engajamento maior do que as colaboradoras. As médias das mulheres são inferiores a todas as relatadas pelos homens. Dois pontos mais críticos foram crescimento pessoal e quantidade de desafios em suas funções. O tema “crescimento pessoal” registrou 6,6 pontos entre os homens e 6,1 entre as mulheres.
Fabiana Galetol acrescenta que a diferença de 7,5% entre homens e mulheres na avaliação do “crescimento pessoal” evidencia um menor número de oportunidades para as mulheres no mercado de trabalho brasileiro, bem como dificuldades encontradas pelas profissionais no dia a dia, que muitas vezes não são as mesmas enfrentadas por profissionais homens. “A realidade é triste, mas está presente no mercado de trabalho e sabemos que muitas vezes as mulheres precisam ‘se provar’ muito mais para garantir o reconhecimento. É urgente que as empresas implementem políticas de equidade de gênero, garantindo também que mais mulheres ocupem cargos de liderança”.
Felicidade e engajamento entre os mais velhos
O grupo composto por pessoas de 51 a 60 anos é, em média, 17% mais feliz do que o grupo de indivíduos de 19 a 30 anos. Os colaboradores mais jovens estão, em geral, menos satisfeitos e engajados. Fatores que contribuíram para a menor média de felicidade e engajamento entre os profissionais mais jovens incluem o equilíbrio entre vida pessoal e profissional (-21%), a falta de inspiração (-21%) e a sensação de que suas opiniões não são ouvidas (-19%).
Os fatores que mais impulsionaram a felicidade entre os trabalhadores de 51 a 60 anos incluem o equilíbrio entre vida pessoal e profissional (+27%), autoconfiança no trabalho (+13%), valorização (+24%) e o fato de terem suas opiniões ouvidas (+23%).
A executiva alerta para a necessidade das empresas em superarem a visão generalizada sobre diferentes gerações no ambiente de trabalho. Segundo ela, ao invés de ter um olhar único, é preciso entender as especificidades de cada faixa etária, ter clareza de que são públicos diferentes, com necessidades e expectativas distintas, mas que se complementam em conhecimento e experiência. “A diferença significativa entre a pontuação de felicidade dos jovens de 19 a 30 anos (6.7) e a dos profissionais acima de 60 (8.1) reforça isso. Pesquisas de clima e um diálogo constante são algumas das ferramentas que auxiliam tal compreensão sobre o público interno”, destaca Fabiana.
Felicidade e engajamento entre regiões
Apesar das pontuações serem semelhantes em todo o Brasil, há uma diferença de 11% entre a região com maior pontuação, o Norte, e a região com o menor score em engajamento e felicidade, o Sudeste. A região Norte lidera com uma pontuação de 7,9, seguida pelo Nordeste com 7,6. O Centro-Oeste ocupa o terceiro lugar com 7,5, enquanto a região Sul está em quarto com 7,2. O Sudeste fica em último lugar, com uma pontuação de 7,0.
Embora apresente mais oportunidades de trabalho, a região Sudeste também concentra maior nível de competitividade, segundo a pesquisa, já que muitos brasileiros buscam nas capitais, como São Paulo, a construção de suas carreiras uma vez que a região abriga empresas dos mais variados setores, tamanhos e, no geral, melhores salários. Adicionalmente, tais capitais tendem a ter uma rotina mais estressante por conta de trânsito e deslocamento, e os dias acabam sendo menos proveitosos para a maioria, justamente pelo tempo que se dedica no caminho de ir e vir do trabalho. Ao somar esses fatores com a pressão do mercado profissional, naturalmente a região acaba registrando menor índice de felicidade no trabalho.
Na visão da Pluxee, em geral, os profissionais do Sudeste tiveram notas baixas nos quesitos de inspiração, oportunidade de progresso, equilíbrio entre vida profissional e pessoal, e sentir que suas opiniões não são ouvidas. Em contrapartida, a região Norte registrou pontuações mais altas em oportunidades de aprendizado, desafios, inspiração e comprometimento com o sucesso da organização.
Um olhar para o futuro das organizações
Evidente que a questão da felicidade no trabalho tem ganhado cada vez mais relevância nas discussões sobre ambiente corporativo e produtividade. As organizações estão começando a reconhecer que a felicidade no trabalho não é apenas uma responsabilidade individual, mas também uma questão que deve ser abordada coletivamente. Algumas empresas têm até criado cargos específicos, como o de Chief Happiness Officer (CHO), para focar na promoção do bem-estar dos funcionários.
Segundo Denize Savi, especialista em Ciência da Felicidade e Chief Happiness Officer (CHO) da Chilli Beans, é imprescindível o olhar das lideranças para a felicidade de suas equipes, criando assim um ambiente com empatia, respeito, relações de qualidade e confiança. “Isso é possível transformando o clima organizacional, desenvolvendo um ambiente com segurança psicológica, abrindo espaço para que os colaboradores sejam eles mesmos, falando o que pensam sem preocupações, sem medo de serem ridicularizados, invalidados ou punidos. Onde eles possam compartilhar suas opiniões e ideias abertamente, mostrar todas as suas habilidades, assumir riscos, admitir falhas, aprender com as falhas, estimular a inovação e terem discussões honestas e abertas”, explica a especialista.
O individualismo como modal para análises dentro de uma jornada profissional, apesar de ser o ponto de partida, vem aos poucos se tornando menos imperativo na apresentação de resultados dentro das organizações. Felicidade no trabalho – mesmo com toda a sua subjetividade – já não é mais uma meta isolada quando olhamos para organizações maduras, sólidas e com um olhar para o futuro. A felicidade hoje está se tornando parte integrante da cultura organizacional de empresas que buscam ser ao mesmo tempo competitivas e produtoras de bons resultados. Sim, o lucro define as vencedoras a cada quarter, entretanto, trazer benefícios significativos no longo prazo envolve estados emocionais, e a felicidade também passa a ter peso nesse quadrante. Isso faz com que colaboradores e empresa como um todo se estabeleçam, de fato, no mercado.






