Após longos anos de uma progressiva e implacável degradação econômica, começamos a vislumbrar uma retomada. Nossa aposta é que ela será vigorosa. Nos últimos 30 anos, o Brasil que emergiu da redemocratização, fez poucas escolhas certas – estabilidade da moeda foi uma delas – e centenas de opções erradas, equivocadas e absurdas. Como um analfabeto funcional diante de operações matemáticas de alguma complexidade, optamos por oferecer respostas criativas, esquisitas e que renegaram a lógica mais simples.
Aprimoramos um dos sistemas tributários mais insanos do universo, agigantamos o Leviatã estatal em uma proporção que faria um líder comunista do velho politburo soviético esfregar as mãos de contentamento, interferimos na vida dos cidadãos a ponto de obrigarmos todo mundo a mudar tomadas, ver suas poupanças confiscadas e continuar a ouvir compulsoriamente uma excrescência abominável do Estado Novo chamada “A Voz do Brasil”, durante uma hora, todas as noites da semana útil.
Por que o Brasil parece estar trabalhando tão duro para dar errado? O país criou uma democracia fragmentada em seis dezenas de legendas partidárias, e viu governantes tecerem loas a ditadores e autocratas desprezíveis como Nicolas Maduro e Fidel Castro. O pior de todos os males, contudo, foi o de refutar, com maior ou menor veemência uma orientação econômica minimamente capitalista, tentando criar um “bicho diferente”, uma democracia liberal nos costumes e flagrantemente esquizofrênica na economia. Se tivéssemos que ilustrar como conduzimos nossa economia nesses 30 e poucos anos de democracia (que podem ser 45 anos, se incluirmos o período final dos governos militares), usaríamos a figura de um pato, que como sabemos, nada faz direito: não nada, não anda e não voa.
Nossa economia não ganhou ímpeto liberal, não ganhou tração modernizadora, não ganhou produtividade e não criou oportunidades. Ao mesmo tempo, autoridades e representantes da “intelectualidade” tupiniquim divulgaram uma ideia sonsa bem embalada, de que “gerávamos emprego e renda” para reduzir a chaga da desigualdade. Na verdade, estamos nos tornando rapidamente um país velho de renda medíocre. Ficamos deitados no tal berço esplêndido, que infelizmente quebrou e viu seu esplendor sumir.
É provável que o novo governo consiga nos levar a praticar um pouco de capitalismo liberal de fato. Paulo Guedes, o ministro da economia, não á dado a prosopopeias. Enxerga a economia e o mercado sem ilusões e sabe que a lógica do mercado passa pela redução do tamanho mastodôntico do estado e da liberação das energias produtivas para dinamizar o ambiente e criar oportunidades. O pau da barraca é a reforma da previdência, já entregue ao Congresso.
A premissa do projeto é consistente, racional, pragmática e respeitadora da matemática. A consultoria Eurasia estima em 70% a chance do projeto passar, porém desidratado. Eu estimo em 80% a chance do projeto ser aprovado em até seis meses, com a idade mínima e o tempo de contribuição e alterações tópicas, portanto acredito em uma reforma robusta. Isso porque , uma reforma débil jogaria os estados da federação ao cadafalso com as consequências sociais óbvias.
Em meio a esse contexto, às empresas sugere-se que estão em compasso de espera. Esta é a opinião dos “especialistas”. A realidade não confirma a inferência. Aliás, especialistas erraram exponencialmente suas análises nos últimos anos. E a realidade mostra, ao contrário das sugestões, que executivos e empreendedores estão se mexendo, tomando posições, fazendo apostas, modelando projetos e olhando para frente com expectativa e otimismo. a aprovação da reforma irá destravar de vez as energias e sinalizar para o mundo que o Brasil entrou no jogo (até então fizemos de conta).
Nesse meio tempo, as empresas sérias precisam estar preparadas para um mundo mais hostil, com menos globalização e mais lateralização, com consumidores e cidadãos mais preocupados com o que está por perto e refutando o que está longe. Mais emprego, mais oportunidades, menos discussões intermináveis sobre modernização de costumes. As agendas minoritárias são importantes? Evidente que sim, mas nenhuma delas terá chance de progresso enquanto tivermos 12 milhões de desempregados. A vida real é assim. E precisamos muito encarar a vida como ela é e não como gostaríamos que fosse. Transformação digital, inovação, indústria 4.0, pagamentos inteligentes, mobilidade, novos formatos de trabalho, novos modelos de negócio estão na agenda dos executivos. Em boa medida, diretores e gerentes estão sendo capacitados para enfrentar um ambiente mais competitivo, mais liberal, menos sujeito a interferências do governo (subsídios para uns e incentivos para outros), no qual a meritocracia e a competência têm maiores chances de prevalecer.
Chegou a hora de sair da fila dos pedidos e das romarias à Brasília. Sair da fila do conformismo e da lentidão na tomada de decisões. Sair da fila da hesitação e da procrastinação. Sair da fila do receio, do temor paralisante e da inação. Sair da fila da crença de que as coisas não vão mudar porque o “Brasil é diferente”. Já desperdiçamos o potencial de gerações inteiras no culto ao estado provedor e aos governos paternalistas. Esse tempo se perdeu. Convém aproveitarmos o tempo que o futuro ainda concede para fazermos mais com menos, melhor com o que temos e diferente com novas ideias.





