Um centro, dois reis, e o dilema existencial na mesa do board

Um centro, dois reis, e o dilema existencial na mesa do board

No PPT, o cliente reina absoluto. Na sala do C-Level, o trono tem um rei bem mais pragmático: o caixa

Dois corpos não ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo. A física nos ensinou. Mas as empresas parecem ignorar essa regra elementar. Ou fingem que não sabem. Afinal, quem está no centro do negócio? O cliente, como diz o discurso bonito?
Ou o caixa, como grita a prática nua e crua?

Eis aí o dilema existencial que causa desconforto na mesa do board: no centro do negócio, dois reis pleiteiam a supremacia: o cliente e o caixa. Qual deles tem os direitos mais legítimos? A resposta é fácil. Basta olhar para onde vão os orçamentos, as metas e os bônus. Fala-se em centralidade do cliente, mas o que se vê é a centralidade do caixa. O cliente está no centro do PowerPoint – mas é o caixa que ocupa a sala de reunião. E é ele quem determina prioridades, corta projetos e decide o que vive e o que morre.

O dilema escancara-se quando surge o conflito clássico: investir em experiências que tragam mais gratificação para o cliente ou garantir impacto no EBITDA do quarter? A decisão, na maioria dos casos, não exige mais do que um segundo. O presente vale mais que o vínculo. O número vale mais que a emoção. E o cliente?
Ele espera. Se tiver paciência.

Só que o cliente deixou de ser paciente. Ele está impaciente, imediatista, saturado. Na Era da Raiva, em que o pós-consumidor manifesta sua impaciência, intolerância e insatisfação de maneira constante, porque considera um desaforo ter baixo retorno e consideração pelo seu sacrifício, ele quer mais é exigir menos esforço e mais atenção. Só que atenção custa. Custa ouvir, custa entender, custa adaptar. Custa criar jornadas menos burocráticas, custosas, humanas. E essa conta, claro, pesa no centro que importa: o caixa.

O problema é que a maior parte das empresas ainda trata cliente como custo. Um cliente fiel é um cliente que demanda. Ele cobra, liga, reclama, opina. Ele quer mais. E querer mais significa pressão. Significa esforço. Significa CRM, CX, SAC, marketing, BI – e tudo isso é CAPEX. É OPEX. É complexidade.

Por isso, há algo inconscientemente confortável em perder clientes. O churn dói, mas é silencioso. Perder um cliente evita ter que ouvi-lo. Evita que ele atrapalhe o fluxo. E buscar um novo cliente sempre parece mais atraente – afinal, o novo não exige tanto. Ainda. Basta entregar um pouco acima da média para conquistar. Depois, se ele se tornar exigente, trocamos novamente.

É por isso que se terceiriza a relação. Que se esconde a Ouvidoria. Que se automatiza mal. Que se diz “omnichannel”, mas se leva 3 horas para responder a um WhatsApp e 72 horas para responder a um e-mail. Porque o cliente, quando fala, tem muitas vezes a capacidade de atrapalhar o que interessa de verdade: o número.

Mas até quando isso vai funcionar?

Até que ponto a liderança compreende a curva de geração de valor derivada da experiência do cliente adaptada ao negócio? Quantos CEOs sabem dizer, sem floreio, o custo real da insatisfação? Quantos diretores relacionam recorrência com vínculo emocional, e não apenas com desconto e cashback?

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Um desafio filosófico

Vamos aos fatos: uma empresa que investe em compreensão do cliente, que adapta a oferta com base em missões e motivações reais de consumo e que constrói experiências emocionalmente gratificantes e consistentes retarda o churn, aumenta a predisposição à recompra, eleva o valor do ticket e reduz o atrito operacional. Tudo isso tem impacto direto no caixa. Só que essa equação exige tempo – e visão. E visão, infelizmente, não cabe em um trimestre.

O curioso é que os exemplos existem. A Dengo Chocolates faz isso. A Smart Fit entendeu isso. O Nubank fez disso seu diferencial por anos e cresceu um banco de 100 anos em 10. A Zappos virou um ícone a partir disso. Mas a maioria das empresas ainda prefere não olhar. Porque olhar significa admitir que o cliente não está no centro. Nunca esteve. O centro continua sendo o número – e o cliente, um meio para alcançá-lo.

Talvez o desafio real da centralidade do cliente não seja metodológico. Seja filosófico. Ele exige abrir mão do controle absoluto, reconhecer que há valor no que não é previsível, aceitar que experiências subjetivas são, sim, mensuráveis – mas nem sempre no Excel.

Dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço, ainda mais no centro do espaço corporativo. Mas deveriam ao menos estar em órbita. O cliente e o caixa não são opostos. São parte de uma mesma dinâmica. Um fortalece o outro. Um sustenta o outro. A centralidade do cliente não é uma ameaça ao caixa – é, quando bem calibrada, a melhor forma de protegê-lo. Mas isso exige que alguém, em algum comitê, tenha coragem de fazer a pergunta que quase ninguém faz: Vale mesmo a pena continuar tratando o cliente como um custo evitável?

SUMÁRIO – Edição 297

A evolução do consumidor traz uma série de desafios inéditos, inclusive para os modelos de gestão corporativa. A Consumidor Moderno tornou-se especialista em entender essas mutações e identificar tendências. Como um ecossistema de conteúdo multiplataforma, temos o inabalável compromisso de traduzir essa expertise para o mundo empresarial assimilar a importância da inserção do consumidor no centro de suas decisões e estratégias.

A busca incansável da excelência e a inovação como essência fomentam nosso espírito questionador, movido pela adrenalina de desafiar e superar limites – sempre com integridade.

Esses são os valores que nos impulsionam a explorar continuamente as melhores práticas para o desenho de uma experiência do cliente fluida e memorável, no Brasil e no mundo.

A IA chega para acelerar e exponencializar os negócios e seus processos. Mas o CX é para sempre, e fará a diferença nas relações com os clientes.

CAPA: Camila Nascimento
IMAGEM: IA Generativa | Runway


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