Procuram-se promotores

Procuram-se promotores

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O brasileiro sempre teve uma estranha obsessão por encontrar culpados. Basta revisitar o imaginário coletivo para perceber que, em todo contexto adverso, existe a necessidade quase automática de eleger um responsável. Em ano de Copa do Mundo, como não lembrar do Maracanazo? A frustração nacional com uma falha do sistema defensivo recaiu sobre o goleiro Barbosa, que se tornou o símbolo da inesperada eliminação para o Uruguai.

Décadas depois, seguimos repetindo o ritual. Quando um time perde, a culpa é do técnico, do juiz, do craque, do VAR. Na política, decisões impopulares e precipitadas sempre acham alguém para fazer o mea culpa. Nas redes sociais, reputações são destruídas em questão de minutos por recortes e julgamentos apressados. Sempre existe alguém para carregar o peso do coletivo. E essa lógica vale para todas as relações cotidianas.

Criamos uma cultura em que o ataque permanente se tornou ativo social. Quanto maior a capacidade de cancelar, ridicularizar ou “pichar mais alto”, maior parece ser a recompensa em atenção e engajamento. Ganha visibilidade quem grita mais alto, não quem apresenta as melhores soluções. O debate público foi sequestrado pela superficialidade dos extremos.

O problema é que ambientes dominados pela lógica do conflito dificilmente constroem algo relevante. Talvez, este seja um dos maiores desafios estruturais do Brasil hoje.

Somos um País extraordinário em potencial, mas frequentemente travado por disputas de poder, vaidades e interesses particulares que se sobrepõem ao coletivo. Em vez de direcionarmos energia para inovação e construção, desperdiçamos tempo alimentando narrativas desgastantes.

E esse comportamento também já contaminou empresas e relações de consumo. Nos últimos anos, criou-se uma fixação corporativa em torno dos detratores. Naturalmente, críticas construtivas são fundamentais e representam oportunidades valiosas de evolução. Empresas inteligentes escutam seus clientes. Mas existe uma diferença brutal entre o consumidor que contribui para melhorar a experiência e aquele que apenas consome recursos e transforma qualquer interação em conflito permanente. Este é melhor deixar que mude para a concorrência.

Está na hora de invertermos a lógica. Que tal ampliar o foco sobre os clientes que promovem valor? Aqueles que acreditam na marca, compartilham experiências positivas, recomendam, defendem e ajudam empresas a evoluir?

As grandes marcas do futuro não serão construídas apenas pela capacidade de resolver problemas. Elas serão reconhecidas pela habilidade de criar comunidades aspiracionais, relações emocionais e experiências memoráveis. E isso exige uma mudança de mentalidade: sair da comoditização para a premiumização.

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Ainda é comum que empresas confundam escala com excelência. Em nome da eficiência operacional, tratada quase como dogma, acabam massificando experiências premium até transformá-las em algo pasteurizado, previsível e sem alma. Sem perceber, transformam consumidores em apenas mais um número dentro de métricas anestesiadas.

Esquecem que a verdadeira experiência nasce da percepção de relevância, da capacidade de fazer alguém se sentir único. Sobrecarregado por estímulos incessantes e milhares de comunicações genéricas, o consumidor moderno não busca apenas produtos ou serviços. Ele quer reconhecimento e percepção de valor.

Esse fenômeno fica ainda mais evidente em um país como o Brasil, onde o consumo assume um papel simbólico de pertencimento, com forte dimensão social e aspiracional. Por aqui, as pessoas desejam experiências, produtos e marcas que expressem identidade, conquista e diferenciação. Uma televisão de 85 polegadas na sala de uma casa da periferia de São Paulo traz status, assim como o
acesso ao atendimento personalizado de um concierge torna-se motivo de conversa para comunicar a posição alcançada. Vide as filas de espera nas principais salas VIP dos aeroportos – inclusive as que cobram a utilização.

As empresas que constroem narrativas aspiracionais se destacam. Exatamente por isso, a experiência do cliente jamais poderia ser tratada como commodity. E a IA tem papel decisivo nesse cenário: a mesma tecnologia que automatiza jornadas rasas, quando mal aplicada, também permite personalizar, antecipar desejos, compreender comportamentos e criar conexões com o consumidor.

Estamos diante da maior revolução da experiência do cliente. Mas, resumir a IA em aplicações que nivelam a régua por baixo e tornam tudo mais do mesmo é desperdiçar o maior potencial transformador da nossa era. O futuro pertence às empresas que entenderem que CX não é mais suporte ao negócio. É o próprio negócio.

Isso exige coragem para abandonar a necessidade de encantar a todos e reconhecer que experiências verdadeiramente premium dependem de critério, consistência e exclusividade. Quando uma empresa entende que nem toda crítica deve ditar sua estratégia, sobra recurso para investir no que realmente importa: confiança, relevância e evolução contínua.

O Brasil precisa urgentemente subir a régua de suas relações. Chega de transformar tudo em disputa, ataque ou cancelamento. O futuro será liderado por quem conseguir inspirar pessoas a construir algo maior, porque, no fim, são os promotores que fazem e sempre farão a diferença.

SUMÁRIO – Edição 297

A evolução do consumidor traz uma série de desafios inéditos, inclusive para os modelos de gestão corporativa. A Consumidor Moderno tornou-se especialista em entender essas mutações e identificar tendências. Como um ecossistema de conteúdo multiplataforma, temos o inabalável compromisso de traduzir essa expertise para o mundo empresarial assimilar a importância da inserção do consumidor no centro de suas decisões e estratégias.

A busca incansável da excelência e a inovação como essência fomentam nosso espírito questionador, movido pela adrenalina de desafiar e superar limites – sempre com integridade.

Esses são os valores que nos impulsionam a explorar continuamente as melhores práticas para o desenho de uma experiência do cliente fluida e memorável, no Brasil e no mundo.

A IA chega para acelerar e exponencializar os negócios e seus processos. Mas o CX é para sempre, e fará a diferença nas relações com os clientes.

CAPA: Camila Nascimento
IMAGEM: IA Generativa | Runway


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