PCD é a Progenitora!

PCD é a Progenitora!

CEO da ICOM

Já começo pedindo desculpas pelo tom agressivo do título, principalmente tratando-se de um artigo que pretende defender que o letramento correto e respeitoso é a chave para a inclusão social de grupos minorizados, entre eles as pessoas com deficiência.

Sabemos da força que têm as palavras e usá-las de forma positiva faz parte do processo de reprogramação mental, de remoldar percepções, para vencermos preconceitos estruturais e valorizarmos a diversidade humana como motor de inovação e, no fim das contas, da busca por um mundo melhor.

Na verdade, com o título chamativo, quis conquistar sua atenção para manifestar meu mais profundo desconforto com a utilização de “PCD” para se referir a pessoas com deficiência. Hoje, a sigla é muito utilizada no mundo corporativo, no RH das empresas, no contexto da Lei de Cotas e dos novos e necessários comitês de diversidade, equidade e inclusão.

Ainda que de uso relativamente restrito, acho muito deselegante nominarmos, nos referirmos a alguém e, no caso, a todo um segmento da sociedade usando uma sigla, “PCD”, categorizando e desumanizando pessoas em função da deficiência. Vai totalmente de encontro à semântica atualmente preconizada de que antes e mais importante que a deficiência vem a pessoa, por isso a adoção do termo pessoa com deficiência, que deveria ser usado na íntegra, podendo ser acrescido de especificação se visual, auditiva, física, intelectual ou múltipla.

Que eu me lembre, apenas no setor de Turismo, na aviação, as pessoas são listadas como PAX, CHD, INF e outras siglas, para padronizar internacionalmente a terminologia, racionalizar a troca de dados e informações, bem como encurtar os textos e economizar espaço nas transmissões das antigas, feitas por telegrama e telex. O que não é o nosso caso!

Para mim, “PCD” soa muito inadequado! Primeiramente, vale repetir que a linguagem tem o poder de reforçar ou dissolver preconceitos. Termos e siglas não são neutros. Conhecemos as expressões pejorativas com as quais, hoje, pessoas com deficiência foram chamadas ao longo da história. Para pegar leve, “inválido”, “aleijado”, “alejão”, “deficiente”, “mongoloide”, “retardado”, “débil mental”, “especial”, “excepcional”, “portador de deficiência” e, finalmente, “pessoa com deficiência”, que foram moldando a forma como a deficiência era compreendida, cada termo trazendo consigo uma visão semântica e conceitual, cultural e social, política e atitudinal, que foi sendo superada ou ressignificada ao longo da história.

Depois de tantos esforços, de tantas discussões e de tanta luta, cristalizadas na Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, vamos deixar que, por uma mera comodidade administrativa, por uma preguiça funcional, nos reduzam a uma simples sigla, “PCD”? Eu voto contra!

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Pergunte aos militantes, aos ativistas da causa, o que pensam sobre a sigla. Você não vai ouvir uma pessoa com deficiência chamar outra pessoa com deficiência de “PCD”. Só se for como xingamento.

Francamente, pior ainda é ser chamado de PNE – Pessoa com Necessidades Especiais! Sigla e expressão vazias de significado, na tentativa de encontrar uma maneira de fazer referência a pessoas com características e necessidades distintas e específicas – não especiais! –, talvez sem ter que usar a desconfortante palavra deficiência, mesmo tratando-se, em grande medida, de pessoas com deficiência demandando acessibilidade!

Ironizando um pouco, uma ideia seria estabelecer um novo padrão e uma sigla própria para cada segmento minorizado, a exemplo do mencionado acima, do trade do turismo. Poderíamos, talvez, adotar PAD – Pessoa Afrodescendente, POB – Pessoa Obesa, PCN – Pessoa com Nanismo, HTR e MTR – Homem e Mulher Trans e assim por diante até, no limite, PAN – Pessoa Aparentemente Normal, ou ainda ou, ainda, PAT   Pessoa Aparentemente “Típica”,  assim todo mundo ganharia uma sigla para chamar de sua. O que você acha?

Na prática, o uso da sigla “PCD” pode até ser funcional, mas, como já demonstrado, carece totalmente da devida profundidade e empatia necessárias nos dias de hoje. Mascara a complexidade da questão e dilui a individualidade das pessoas, criando um rótulo desumanizante, que, uma vez mais, reduz o indivíduo com deficiência a uma categoria.

Falada, a sigla soa ainda mais desrespeitosa e deselegante que em texto, que escrita! Parece condenar, de forma ainda mais veemente, o ser humano com deficiência a uma condição secundária, outra, que não a das pessoas “normais”, sem deficiências e sem siglas.

Estou exagerando? Estou criando caso onde não tem? Será que a esmagadora maioria das pessoas com deficiência, nossas queridas e nossos queridos “PCDs”, não estão nem aí se a sigla é usada ou não? O buraco é mais embaixo? Os problemas são outros e complexos para perdemos tempo com preciosismos semânticos e letramentos teóricos? Esta discussão é útil e tem algum impacto na dignidade, no respeito, na autonomia, no protagonismo da pessoa com deficiência?

Pode ser. E pode não ser. Tudo é relativo. Mas, uma coisa é certa: você nunca vai me ver pronunciar ou escrever esse infeliz acrônimo, essa nefasta abreviação. E, saiba que, toda vez que eu me deparar com o inominável, indignado e silencioso, vou praguejar: PCD é a mãe!

SUMÁRIO – Edição 297

A evolução do consumidor traz uma série de desafios inéditos, inclusive para os modelos de gestão corporativa. A Consumidor Moderno tornou-se especialista em entender essas mutações e identificar tendências. Como um ecossistema de conteúdo multiplataforma, temos o inabalável compromisso de traduzir essa expertise para o mundo empresarial assimilar a importância da inserção do consumidor no centro de suas decisões e estratégias.

A busca incansável da excelência e a inovação como essência fomentam nosso espírito questionador, movido pela adrenalina de desafiar e superar limites – sempre com integridade.

Esses são os valores que nos impulsionam a explorar continuamente as melhores práticas para o desenho de uma experiência do cliente fluida e memorável, no Brasil e no mundo.

A IA chega para acelerar e exponencializar os negócios e seus processos. Mas o CX é para sempre, e fará a diferença nas relações com os clientes.

CAPA: Camila Nascimento
IMAGEM: IA Generativa | Runway


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