Paradoxos parassociais

Paradoxos parassociais

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A escolha de “parassocial” como palavra do ano pelo Cambridge Dictionary revela uma dinâmica tão silenciosa quanto perigosa, que já molda comportamentos. De forma sucinta, relações parassociais são vínculos unilaterais: uma pessoa se sente próxima da outra, mesmo que esta não saiba da sua existência. Uma tendência que se intensificou com as redes sociais, os influenciadores, as marcas hiperpersonificadas e as IAs que conversam, respondem e até acolhem no ritmo da nossa ansiedade.

Analisada a partir de uma lente mais prática e próxima da realidade, a palavra ganha um significado ainda mais complexo: representa a busca por conexões sem compromisso. As pessoas desejam afeto, mas recusam as exigências emocionais de uma relação real; querem ser vistas e prosperar profissionalmente, mas não aceitam cobrança.

No ambiente digital, com algoritmos programados, timelines projetadas e interações sob demanda, essa dinâmica pode funcionar muito bem. Na vida real, porém, a realidade é outra: vínculo exige troca, reciprocidade. E isso anda em falta.

A Geração Z talvez seja o exemplo mais evidente dessa lacuna. É a que mais discute temas como bem-estar, propósito, burnout e limites – todos válidos e necessários. Mas, ao mesmo tempo, lidera as taxas de desemprego do País (14,9%, ou seja, mais do que o dobro da média nacional).

Por um lado, isso se explica pela automação, com a IA assumindo tarefas mais simples e impondo aos jovens a necessidade de habilidades mais complexas logo no início da carreira. Por outro, executivos já afirmaram não contratar jovens da Geração Z – muito pelo fator comportamental e pela falta do entendimento de que a relação com o trabalho não opera da mesma forma leve e sem atrito como nas relações parassociais. É preciso troca, presença e responsabilidade reais.

Na relação entre empresas e consumidores a lacuna também se faz presente. Muitas marcas ainda adotam uma postura parassocial: postam nas redes sociais, o cliente se identifica; dizem que se importam, o cliente acredita; respondem de forma instantânea no chat, o cliente acha que recebeu atenção. Mas isso já deixou de ser suficiente há muito tempo.

O consumidor mais informado e exigente é também mais carente e esperançoso. Ele quer ser tratado com respeito, e respeito não é uma sensação – é uma prática. Requer processos bem-feitos, jornadas fluidas, atendimento resolutivo, coerência entre discurso e entrega.

É tudo aquilo que não cabe em uma relação unilateral. Interações digitais que simulam proximidade não sustentam confiança.

Fato é que relações só funcionam quando a entrega acompanha a promessa. Por isso, mais do que nunca, as marcas (e as pessoas) precisam se esforçar, ter compromisso e, principalmente, se provar para além das narrativas.

A palavra do ano explica muito sobre o que buscamos, mas revela ainda mais sobre aquilo que estamos evitando. E, na era da IA, quem evitar as características humanas que não cabem dentro de “parassocial” irá perder – e muito.

SUMÁRIO – Edição 297

A evolução do consumidor traz uma série de desafios inéditos, inclusive para os modelos de gestão corporativa. A Consumidor Moderno tornou-se especialista em entender essas mutações e identificar tendências. Como um ecossistema de conteúdo multiplataforma, temos o inabalável compromisso de traduzir essa expertise para o mundo empresarial assimilar a importância da inserção do consumidor no centro de suas decisões e estratégias.

A busca incansável da excelência e a inovação como essência fomentam nosso espírito questionador, movido pela adrenalina de desafiar e superar limites – sempre com integridade.

Esses são os valores que nos impulsionam a explorar continuamente as melhores práticas para o desenho de uma experiência do cliente fluida e memorável, no Brasil e no mundo.

A IA chega para acelerar e exponencializar os negócios e seus processos. Mas o CX é para sempre, e fará a diferença nas relações com os clientes.

CAPA: Camila Nascimento
IMAGEM: IA Generativa | Runway


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