O consumidor tornou-se objeto de modelagem algorítmica

O consumidor tornou-se objeto de modelagem algorítmica

Para Ricardo Morishita Wada, secretário Nacional da Senacon, a tecnologia está transformando as estruturas das relações de consumo

Baixar um aplicativo deixou de ser uma escolha. Em muitos casos, tornou-se a única porta de entrada para acessar serviços, resolver problemas ou simplesmente ser atendido. A digitalização das relações de consumo, acelerada nos últimos anos, trouxe conveniência, mas também redesenhou silenciosamente a dinâmica de poder entre empresas e consumidores.

Se antes o atendimento era um canal, hoje ele é uma jornada. E, nessa jornada, nem sempre o consumidor consegue exercer seus direitos com clareza, autonomia ou efetividade.

Esse deslocamento para ambientes digitais não elimina – e nem poderia eliminar – as garantias previstas no Código de Defesa do Consumidor. Ao contrário: elas se tornam ainda mais exigidas.

O artigo 4º do CDC estabelece o reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor como princípio estruturante das relações de consumo. Já o artigo 6º assegura direitos básicos, como informação adequada e clara, proteção contra práticas abusivas e efetiva reparação de danos. O desafio, nesse novo cenário, é garantir que esses direitos permaneçam exercíveis, mesmo quando mediados por interfaces, fluxos e decisões automatizadas.

Para o secretário Nacional do Consumidor, Ricardo Morishita Wada, o ponto central não é apenas tecnológico, mas estrutural. É preciso compreender como o ambiente digital reorganiza – e, em alguns casos, aprofunda – essa vulnerabilidade, muitas vezes de forma invisível.

Em entrevista exclusiva à Consumidor Moderno, ele analisa esse novo cenário em que aplicativos, algoritmos e jornadas digitais passam a mediar não apenas o consumo, mas o próprio acesso a direitos.

Afinal, se o acesso passa pelos aplicativos, a questão deixa de ser apenas conveniência e passa a ser controle.

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Consumidor Moderno: Na sua visão, o consumidor ganhou acesso, mas perdeu autonomia?

Ricardo Morishita: O digital trouxe benefícios importantes, mas também transformou a vulnerabilidade do consumidor em algo estrutural e, muitas vezes, invisível. Hoje, ele passa a ser objeto de modelagem algorítmica, o que altera a dinâmica da relação de consumo. Nem sempre percebemos, mas essa vulnerabilidade está presente na forma como interagimos, decidimos e consumimos. Se a experiência é mediada por tecnologia, o desenho dessas plataformas deixa de ser neutro.

CM: Quando a jornada digital organiza o consumo, até que ponto o design dessas plataformas deixa de ser apenas funcional e passa a interferir, de fato, no exercício de direitos?

RM: O design precisa dialogar com a vulnerabilidade do consumidor e com os princípios da boa-fé. Quando isso não acontece, ele pode encontrar dificuldades concretas para exercer seus direitos. Interfaces, fluxos e jornadas digitais influenciam diretamente o comportamento, e isso exige atenção. Quando o acesso depende dessas jornadas, o atendimento deixa de ser ponto de contato e se transforma em percurso. Mas nem sempre esse percurso leva à solução.

CM: Quando o caminho existe, mas não resolve, estamos diante de uma falha de experiência ou de uma violação da própria relação de consumo?

RM: O atendimento faz parte dos direitos básicos do consumidor. Ele tem base legal no Código de Defesa do Consumidor e não pode ser tratado apenas como estratégia de experiência. Quando não é efetivo, não resolve ou não oferece informação adequada, há risco de violação de direitos. No ambiente digital, a transparência também assume novas camadas, especialmente quando o preço deixa de ser plenamente compreensível.

CM: Quando o consumidor vê o valor final, mas não entende sua composição, ainda é possível falar em escolha informada?

RM: Nem sempre. Muitas vezes, ele vê o valor final, mas não sabe como esse valor é composto. Isso compromete a transparência. Quanto mais informação o consumidor tem, maior é sua liberdade de escolha, e isso é positivo para o mercado. A personalização, impulsionada por algoritmos, amplia essa assimetria e torna a relação ainda mais complexa.

CM: Em decisões mediadas por algoritmos, o consumidor consegue, de fato, compreender com quem ou com o que está interagindo?

RM: A Inteligência Artificial traz ganhos importantes, mas também desafios, especialmente pela opacidade dos algoritmos. O consumidor precisa compreender a lógica da relação de consumo e saber quando interage com um sistema automatizado. Essa transparência é fundamental para relações mais equilibradas. Nesse ambiente, consciência e exposição deixam de ser opostos e passam a coexistir.

CM: Isso significa que o consumidor avançou em termos de consciência, mas perdeu capacidade de controle?

RM: As duas coisas. O Código de Defesa do Consumidor construiu uma base importante de consciência ao longo dos anos, mas o ambiente digital trouxe novos desafios. Em alguns casos, as jornadas acabam priorizando os interesses das empresas, e isso pode gerar excessos que precisam ser enfrentados.

Mais do que uma mudança tecnológica, o que está em curso é uma transformação estrutural das relações de consumo, em que o acesso ao serviço passa, inevitavelmente, por ambientes controlados por plataformas.

Mais do que uma mudança tecnológica, o que está em curso é uma transformação estrutural das relações de consumo

O desafio, agora, é garantir que, mesmo dentro dessas novas interfaces, os direitos do consumidor não se percam no caminho nem se tornem mais difíceis de exercer.

SUMÁRIO – Edição 297

A evolução do consumidor traz uma série de desafios inéditos, inclusive para os modelos de gestão corporativa. A Consumidor Moderno tornou-se especialista em entender essas mutações e identificar tendências. Como um ecossistema de conteúdo multiplataforma, temos o inabalável compromisso de traduzir essa expertise para o mundo empresarial assimilar a importância da inserção do consumidor no centro de suas decisões e estratégias.

A busca incansável da excelência e a inovação como essência fomentam nosso espírito questionador, movido pela adrenalina de desafiar e superar limites – sempre com integridade.

Esses são os valores que nos impulsionam a explorar continuamente as melhores práticas para o desenho de uma experiência do cliente fluida e memorável, no Brasil e no mundo.

A IA chega para acelerar e exponencializar os negócios e seus processos. Mas o CX é para sempre, e fará a diferença nas relações com os clientes.

CAPA: Camila Nascimento
IMAGEM: IA Generativa | Runway


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