Meu doce algoritmo

Meu doce algoritmo

Como é bom renunciar à minha vontade e entregar minhas escolhas para um algoritmo bacaninha

Chego em casa, vou pedir comida. Uso aquele app que você conhece e o algoritmo, já todo assanhado, me sinaliza: “você tem entrega grátis em restaurantes selecionados”.  Faz sentido. Podemos perder o equivalente a uma semana por ano escolhendo comida.

Estou no supermercado e vejo as promoções para quem é membro do programa de benefícios. Se abro o aplicativo, outro algoritmo, cheio de ofertas para oferecer, aponta os produtos que compro com mais frequência. Penso em pegar um cinema e o aplicativo, com um algoritmo mais bobinho, tenta me convencer a comprar aquela pipoca que custa os olhos com os quais eu verei o filme.

Por falar em filme, acesso o streaming, qualquer um, e lá vem o algoritmo, amistoso e bisbilhoteiro a me recomendar o que devo assistir. Tenho de comprar um chuveiro elétrico, mas o marketplace quer mesmo é me vender um armário. Claro, insisto em procurar o produto que motivou minha busca e, em alguns minutos, sou inundado por ofertas de chuveiro.

Leio um livro de Daniel Kahneman. Leio dois, todos digitais. Logicamente, parece que meu interesse eclético de repente se resume à economia comportamental. O algoritmo, sempre ele, tem uma missão: facilitar a minha escolha e motivar compras por impulso. A descoberta, a curadoria, o diálogo ficam para o comércio físico. Na vida digital, o algoritmo, agora anabolizado por Inteligência Artificial, quer mesmo assumir minha escolha.

Apesar da evolução rápida, os algoritmos ainda são toscos. Têm lá sua influência, têm lá sua utilidade, mas são um instrumento defeituoso

Apesar da evolução rápida, os algoritmos ainda são toscos. Têm lá sua influência, têm lá sua utilidade, mas são um instrumento defeituoso. Estão mais para um listão de afinidades do que para um mecanismo de predição precisa. Sim, minha assistente virtual calcula com razoável taxa de acerto quando é o momento de comprar novamente um produto recorrente. Mas ela nem desconfia qual uso faço desse produto e o que ele significa para mim.

Ela também não sabe que, naquele fim de semana, eu queria cozinhar para impressionar a mim mesmo com um macarrãozinho básico. Ou que aquela busca por “antialérgico” às 3 da manhã foi mais desespero do que rotina. Ou que, quando cliquei em “tênis de corrida”, o que eu queria mesmo era uma desculpa para sair de casa, não um par novo de amortecedores para o ego. O algoritmo entende o clique, não a missão. Sabe o que comprei, mas não o porquê.

A lógica, franca e cansada, é previsível e cada vez mais onipresente. Em nome do conforto, abrimos mão da espontaneidade. Nos apps de mobilidade urbana, se já pedimos corridas para o trabalho no mesmo horário em determinado dia da semana, pronto, nossa rotina virou protocolo. O algoritmo não só prevê nosso itinerário: ele o transforma em hábito. E quem ousaria nadar contra a ordem algorítmica das segundas-feiras?

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Mas a culpa não é (só) dele. Nós é que entregamos tudo. A liberdade de escolha, esse valor democrático tão celebrado, anda meio fora de moda. A nova tendência é a “seleção induzida”: o site ou o app faz uma curadoria esperta e nos dá a sensação de autonomia. “Veja aqui as 10 melhores opções para você.” Pronto. Escolher entre 10 é menos penoso do que decidir entre 1.000. E o que é melhor: parece que fui eu quem decidiu. Um truque cognitivo, uma ilusão elegante.

É como se disséssemos: “me poupe do livre-arbítrio; só me deixe confortável com a minha decisão”. E o algoritmo atende, feliz, como um garçom que traz sempre o prato de sempre, ainda que você não tenha dito nada. O problema é que, aos poucos, você esquece até o gosto das outras opções do cardápio.

Quanto menos controlável for a expe-riência, mais relevante ela se torna para consumidores saturados de recomenda-ções seguras

Não por acaso, mas por vontade, gosto de supermercado físico. Foi nele que tive a ideia desse texto. Andar pelos corredores é passear um tanto pelo acaso: encontrar um tempero novo, cruzar com a promoção escondida do produto que não escolheria a preço cheio, passar os olhos nas gôndolas. Quero romper com a “personalização recorrente”. O algoritmo, focado em eficiência, quer otimizar o tempo, encurtar caminhos. Com isso, reduz também as oportunidades de descoberta. Ele recalcula a rota emocional da experiência: menos tropeços, menos poesia.

Sim, somos mais eficientes. Compramos mais rápido, consumimos mais certeiramente, erramos menos e, também, descobrimos menos. O acaso, esse velho conhecido das grandes histórias de amor e das boas ideias, está sendo demitido, sem aviso prévio. No lugar dele, entra um fluxo contínuo de recomendações baseadas em padrões anteriores. Como se o futuro fosse uma projeção linear do nosso passado, sem sobressaltos e arestas. Como se fôssemos apenas um espelho retroativo. E, com tudo isso, não percebemos que uma alternativa eficaz de diferenciação não é entregar mais do mesmo com precisão algorítmica, mas sim desafiar a lógica estatística. Quanto menos controlável for a experiência, mais relevante ela se torna para consumidores saturados de recomendações seguras.

Porque temos de ter a coragem de reconhecer que, quanto mais os algoritmos aprendem sobre mim, menos eu aprendo sobre mim mesmo. Deixo de ser explorador para virar piloto automático. Será essa então uma era de domesticação silenciosa? Clicamos aqui e ali e agradecemos pelas sugestões certeiras. Pior, ainda achamos que somos livres.

Lá no fundo, no entanto, um defeito humano me come a mente. Falo daquela pequena rebelião interna que nos faz, de vez em quando, fechar o app, ir à livraria, entrar numa loja qualquer sem buscar preço antes. Só pra lembrar que existe vida fora do script. Que a surpresa ainda vale a pena. Que errar feio pode render uma boa história. Que o impulso também tem poesia.

No fim, o algoritmo é doce, mas previsível. Uma sobremesa plástica e de sabor convencional. Você sabe: existem momentos em que tudo o que a gente quer é um prato que não combina com a dieta. Dopamina que vem da gula, da vontade, da descoberta e do risco.

SUMÁRIO – Edição 297

A evolução do consumidor traz uma série de desafios inéditos, inclusive para os modelos de gestão corporativa. A Consumidor Moderno tornou-se especialista em entender essas mutações e identificar tendências. Como um ecossistema de conteúdo multiplataforma, temos o inabalável compromisso de traduzir essa expertise para o mundo empresarial assimilar a importância da inserção do consumidor no centro de suas decisões e estratégias.

A busca incansável da excelência e a inovação como essência fomentam nosso espírito questionador, movido pela adrenalina de desafiar e superar limites – sempre com integridade.

Esses são os valores que nos impulsionam a explorar continuamente as melhores práticas para o desenho de uma experiência do cliente fluida e memorável, no Brasil e no mundo.

A IA chega para acelerar e exponencializar os negócios e seus processos. Mas o CX é para sempre, e fará a diferença nas relações com os clientes.

CAPA: Camila Nascimento
IMAGEM: IA Generativa | Runway


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