IA da promessa ao valor real

IA da promessa ao valor real

Evolução e adoção aceleradas inauguram uma nova fase da tecnologia, marcada por novas prioridades, propósito e confiança

A Inteligência Artificial (IA) vive um ponto de inflexão. Se antes era tratada como promessa ou tendência de longo prazo, hoje já se consolidou como uma força capaz de remodelar mercados, redefinir modelos de negócios e influenciar decisões políticas em escala global. Cada avanço reforça a urgência: compreender – e adotar – a IA deixou de ser um diferencial para se tornar condição de permanência no jogo competitivo.

O impacto dessa tecnologia vai além da inovação tecnológica. A IA já influencia o consumo de informação, altera as rotinas de trabalho e inaugura as novas dinâmicas de relacionamento entre empresas, governos e cidadãos. Estamos diante de um vetor de mudança que redefine estruturas e abre caminhos para formas inéditas de organização social e econômica.

Após um período de cautela, os investimentos na tecnologia se intensificaram. No último ano, startups dedicadas à IA generativa multiplicaram-se, enquanto grandes companhias aceleraram a incorporação de soluções em suas operações. O que há pouco tempo era tratado como “teste”, agora ocupa o coração da estratégia corporativa.

De acordo com o estudo Artificial Intelligence Index Report 2025, os investimentos privados em IA generativa atraíram US$ 33,9 bilhões globalmente em 2024 – um aumento de 18,7% em comparação ao ano anterior. Além disso, 78% das organizações afirmaram usar alguma solução de IA, registrando um crescimento de impressionantes 55% de um ano para o outro.

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Governos também passaram a adotar uma postura mais prática. Deixaram de apenas discutir a regulamentação da tecnologia para investir em infraestrutura e capacidade energética para sustentar o desenvolvimento da tecnologia. Projetos nacionais bilionários surgem em várias partes do mundo, sinalizando que a corrida pela liderança em IA não é apenas corporativa, mas também geopolítica.

Os Estados Unidos, por exemplo, possuem o “Plano de Ação de Inteligência Artificial da América”. O documento está estruturado em três pilares:  aceleração da inovação, construção de infraestrutura e liderança em diplomacia e segurança internacionais. Na introdução desse documento, uma frase chama a atenção: “Quem possuir o maior ecossistema de IA estabelecerá padrões globais de IA e colherá amplos benefícios econômicos”.

A China não fica para trás nessa disputa. Nos últimos dez anos, o país incentivou a produção de tecnologias avançadas por empresas locais e, agora, possui poder computacional, engenheiros qualificados e infraestrutura necessária para a nova era da IA. Nesse período, o governo investiu cerca de US$ 100 bilhões na indústria de semicondutores. Recentemente, anunciou aporte de US$ 8 bilhões em startups de IA.

Outros países como Índia e Canadá também buscam avançar nesse sentido. Com o plano IndiaAI Mission, a Índia anunciou, no início deste ano, investimentos em 18 projetos para desenvolver modelos de IA que devem executar múltiplas tarefas e permitir adaptação para usos específicos, sendo capazes de “competir com os melhores do mundo”. Já o Canadá avança em redes computacionais e data centers.

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dos executivos acreditam que é possível desbloquear os verdadeiros benefícios da IA a partir de uma base de confiança 

Fonte: Boletim do Mapa de Empresas

Revolução em curso

Esse movimento marca uma virada importante: a IA passa a ser sobre realidades concretas. A velocidade dessa transformação obriga empresas, instituições e profissionais a refletir sobre o papel que desejam assumir na construção desse novo cenário.

Para executivos e líderes, isso exige repensar prioridades. A difusão da tecnologia abre espaço para novos patamares de eficiência, criação de modelos de negócio e formas inéditas de relacionamento com clientes. Porém, dominar a lógica da IA não significa apenas adotar sistemas: é preciso aprender a direcioná-los com propósito e planejamento.

Quando a execução passa a ser terceirizada para algoritmos, a estratégia entre em cena e a IA deixa de competir com os humanos para complementar suas capacidades. Contudo, para isso, ainda há um logo caminho a ser percorrido.

A pesquisa Tech Vision 2025, da Accenture, mostra que apenas 36% dos executivos afirmam que suas organizações conseguiram escalar soluções de IA generativa, e somente 13% relatam ter alcançado impacto significativo em nível empresarial. Por outro lado, 77% dos executivos acreditam que desbloquear os verdadeiros benefícios da IA é possível se ela for construída sobre uma base de confiança.

Quem possuir o maior ecossistema de IA estabelecerá padrões globais de IA e colherá amplos benefícios econômicos

Dessa forma, acompanhando a rápida evolução da tecnologia, entram em cena fatores como segurança, consistência, previsibilidade e rastreabilidade – colocando a confiança em IA no centro das estratégias de instituições que buscam usufruir de todo o potencial de reinvenção dessa tecnologia.

A Consumidor Moderno analisou os principais relatórios, pesquisas e estudos de consultorias e instituições renomadas globalmente. A seguir estão as tendências do mercado de IA que deverão ser levadas em consideração nessa busca.

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5 tendências em IA

1. ROI e reinvenção de processos

O mercado está migrando de uma lógica de experimentos isolados com IA para a construção de estratégias integradas e orientadas a valor. Quando a pressão, para além da adoção da tecnologia, recai sobre um ROI (Retorno sobre o Investimento) claro e mensurável, processos passam a ser revistos e reposicionados.

Nesse sentido, a PwC alerta: o valor não está apenas na produtividade ou na eficiência trazidas pela IA. No relatório 2025 AI Business Predictions, a consultoria indica equilibrar os esforços em escalas. Na base estão os projetos rápidos e incrementais; no meio, os ‘roofshots’, que exigem mais foco e recurso – entregando maior potencial de impacto e viabilidade; e, no topo, os ‘moonshots’, apostas inovadoras e de maior risco.

Para colocar isso em prática, são sugeridas três ações principais:

  • Avaliação formal da estratégia: Para definir prioridades, identifique o que a IA pode e irá fazer pela empresa, pelo setor e pelos clientes. Onde ela vai reduzir custos e criar valor?
  • Abordagem “menos é mais” em relação aos dados: A base de dados da empresa não precisa estar completamente perfeita; concentre-se em encontrar e organizar apenas os dados certos para o objetivo definido.
  • Monitoramento e KPIs: Acompanhe métricas relevantes para o negócio em relação à IA, sempre com o cuidado de não automatizar em excesso. O fator humano sempre segue indispensável para orientar decisões estratégicas.

Dessa forma, a adaptação de estruturas e processos – evoluindo a governança e reduzindo os riscos – passa a fazer parte do dia a dia das empresas. Segundo pesquisa da McKinsey, o redesenho dos fluxos de trabalho tem um maior efeito na capacidade de uma organização enxergar o impacto da IA generativa no EBIT (lucro antes dos juros e tributos).

As empresas que geram mais valor a partir da IA focam 80% dos investimentos na remodelagem de processos específicos. O dado é do BCG, que enfatiza a tendência na pesquisa AI At Work 2025: 50% das empresas estão redesenhando fluxos de trabalho e processos de ponta a ponta, além de reestruturar funções; enquanto apenas 22% buscam construir novos modelos de negócios e produtos para impulsionar o crescimento. 

As empresas que geram mais valor a partir da IA focam
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dos investimentos na remodelagem de processos específicos

2. IA Agêntica

Enquanto empresas ainda adaptam estruturas e processos, uma nova fase já desponta: a da IA Agêntica. Se antes os modelos generativos eram usados para produzir textos, imagens e análises sob demanda, agora a expectativa é que evoluam para agentes autônomos, capazes de planejar, raciocinar e executar fluxos de trabalho complexos. Como bem sintetiza a McKinsey, “a tecnologia está passando do pensamento à ação”.

Para a Accenture, estamos diante de “uma mudança revolucionária nos blocos de construção da tecnologia”. O relatório Technology Vision 2025 explica porque o movimento é chamado pela empresa de Big Bang Binário: em breve, esses modelos criarão processos, fluxos de trabalho e softwares. Se antes softwares eram usados pelas empresas para novas capacidades e resultados, a IA multiplicará essa produção, expandindo todos os limites.

A previsão é que, em pouco tempo, as organizações irão trabalhar em um cenário no qual novos conceitos digitais ganham vida em horas e as soluções padronizadas deixarão de existir. Será uma nova era de tecnologia personalizável, em que experimentações e inovações digitais sem restrições serão centrais nas estratégias de crescimento dos negócios.

Esse movimento, porém, ainda está em estágio inicial. Dados do BGC mostram que apenas 13% das empresas utilizam agentes de IA de forma integrada. Mas o potencial é claro e a curva de adoção deve ser acelerada: 77% dos entrevistados acreditam que esses agentes serão cruciais nos próximos três a cinco anos.

O alerta da Accenture para esse processo de adoção é claro: “Se os líderes enxergarem os agentes apenas como uma forma de ampliar um software, e não como algo que está desafiando a própria natureza do software, deixarão passar oportunidades e disrupções essenciais que caracterizam esse período de transição”. Nesse modelo, máquinas e pessoas são pares complementares. 

Adoção de Agentes de IA em crescimento

DAS EMPRESAS JÁ USAM AGENTE DE IA
10%
PLANEJAM INTEGRÁ-LOS NOS PRÓXIMOS TRÊS ANOS
82%
ACREDITAM QUE OS AGENTES DE IA IRÃO AUMENTAR A AUTOMAÇÃO DO FLUXO DE TRABALHO E MELHORAR A SATISFAÇÃO DO CLIENTE
71%

Fonte: Harnessing the value of generative AI; Capgemini

3. IA Multimodal, IA personificada e dados de precisão

No segmento de Customer Experience (CX), alguns avanços tecnológicos passam a permitir uma automação mais empática e personalizada no atendimento ao cliente. A Accenture destaca três em especial: IA Multimodal, IA personificada e dados de precisão.

Diferente das soluções anteriores, que se limitavam a um tipo de input, os modelos de IA Multimodal são capazes de processar e combinar diferentes formatos de dados – texto, imagem, áudio, vídeo e até sinais sensoriais – em um mesmo fluxo de raciocínio. O Google Cloud destaca que isso não é apenas um avanço técnico, mas um diferencial competitivo.

Ao integrar múltiplos formatos de dados, esses modelos tornam a interação com máquinas mais próxima da maneira como os humanos aprendem e se comunicam. Isso amplia as possibilidades de uso da IA em setores como Saúde, Educação, Marketing e Atendimento ao Cliente. E já existem soluções acessíveis: o relatório Stanford AI Index 2025 reforça que modelos abertos e de baixo custo estão acelerando a difusão de aplicações.

É o tamanho do mercado global de IA Multimodal em 2025
US$ 0 bilhões
É a previsão do tamanho do mercado global de IA Multimodal até o final de 2037
US$ 0 Bilhões

Fonte: AI Business Trends 2025, Google Cloud  

Além da IA Multimodal, as empresas estão buscando dar personalidades semelhantes às humanas para os modelos generativos – é o que a Accenture chama de IA personificada. “Pode parecer apenas um exercício interessante sobre como os modelos se apresentam, mas será um diferencial para as empresas no futuro, tanto na interação com os clientes quanto na forma como as marcas serão representadas por agentes em outras aplicações de IA”, traz o relatório da consultoria.

Por fim, os dados de precisão e contextuais apoiam experiências mais personalizadas e empáticas. Contudo, atualmente, as empresas estão limitadas às formas tradicionais de coleta de dados. A Accenture acredita que, por meio das interações com a IA personificada, as empresas têm a oportunidade de coletar dados de clientes de maneira mais segura e eficaz – conhecendo-os para além do histórico de compra e dos dados demográficos. Isso alimentaria a evolução de toda a cadeia de CX.

O futuro será moldado pela capacidade de as organizações equilibrarem inovação e responsabilidade, eficiência e ética, escala e personalização

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4. Infraestrutura e energia

À medida que a IA avança em escala, o desafio da infraestrutura ganha evidência. Modelos cada vez mais poderosos pressionam dois recursos críticos: energia e capacidade computacional. Apesar de o aprendizado de máquina e de a eficiência energética dos hardwares terem aumentado 43% e 40%, respectivamente, no último ano, a arquitetura tecnológica – data centers, redes e sistemas de energia – precisa se tornar mais escalável e acessível.

Outros dados do Stanford AI Index 2025 mostram que a capacidade computacional usada no treinamento de modelos de IA de ponta dobra, em média, a cada cinco meses. Já os conjuntos de dados para treinar LLMs dobram a cada oito meses. Isso faz com que a potência energética necessária dobre anualmente. Não por acaso, boa parte dos investimentos de governos e empresas se volta para fontes de energia sustentáveis.

No entanto, como destaca a PwC, o equilíbrio entre oferta e demanda não será alcançado com tanta rapidez – mesmo que mais chips sejam produzidos e o fornecimento de energia se expanda. Nesse cenário, a IA deve ser encarada como valor, e não como volume. Mas, com o tempo, novas fontes de poder computacional e energia estarão disponíveis, o que reduzirá drasticamente os custos e aumentará a acessibilidade da tecnologia.

Além disso, outra lacuna importante é a disponibilidade de talentos de IA no mercado de trabalho. Segundo dados da Bain & Company, a demanda por esses profissionais cresceu 21% por ano desde 2019, e a previsão é de que haja escassez até 2027 – com diferenças entre países que estão investindo em formação.

O treinamento de profissionais de todas as áreas também se mostra essencial. De acordo com o BCG, apenas 36% dos colaboradores afirmam ter sido treinados com as habilidades necessárias para a transformação da IA. A parcela dos funcionários de linha de frente que diz receber suporte da liderança sobre como e quando usar IA no trabalho é ainda menor: 25%.

Todos esses fatores deverão ser levados em consideração por empresas que desejam avançar em IA.

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dos colaboradores afirmam ter sido treinados com as habilidades necessárias para a transformação da IA

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5. Governança, risco e confiança

Outro ponto que tem ganhado a atenção das empresas é a governança. Elas perceberam que a confiança – tanto dos colaboradores quanto dos consumidores – e a redução de riscos são fundamentais para a capacidade de gerar valor a partir da tecnologia. Há um consenso: a IA só atingirá seu pleno potencial se for usada de forma responsável e transparente.

O relatório da McKinsey mostra que imprecisão, cibersegurança e violação de propriedade intelectual foram os riscos associados à IA generativa que mais resultaram em consequências negativas para as empresas – e estão sendo gerenciados de forma ativa por elas. 

Ainda que as ações relacionadas à gestão de risco e à IA responsável tenham sido tímidas, a previsão da PwC é que isso mude. Isso porque, mesmo que a avaliação e validação rigorosas das práticas e dos controles de IA não sejam exigidas por regulamentações, os stakeholders irão demandá-las – da mesma forma que já exigem confiança em outras informações críticas para decisões, como resultados financeiros.

Fato é que apenas 1% dos executivos descreve a implementação de IA generativa em suas empresas como “madura”. A McKinsey explica que a adoção de práticas mais bem definidas para a adoção e escalabilidade de IA generativa ainda está no início, mas duas se destacam: o acompanhamento de KPIs bem-definidos e o estabelecimento de um roteiro estruturado.

Se os líderes não enxergarem os agentes como algo que está desafiando a própria natureza do software, deixarão passar oportu-nidades e disrupções essenciais

À medida que as empresas evoluem na adoção de IA, a tecnologia consolida-se como um divisor de águas. O futuro será moldado pela capacidade de as organizações equilibrarem inovação e responsabilidade, eficiência e ética, escala e personalização. Em um cenário no qual a IA irá se tornar cada vez mais parecida com o humano, a diferença estará justamente na forma como as capacidades serão potencializadas. Assim, empresas, líderes e instituições que conseguirem alinhar tecnologia, propósito e confiança estarão mais bem posicionados não apenas para competir, mas para guiar a construção de uma economia e de uma sociedade mais inteligentes, eficientes e sustentáveis.

SUMÁRIO – Edição 297

A evolução do consumidor traz uma série de desafios inéditos, inclusive para os modelos de gestão corporativa. A Consumidor Moderno tornou-se especialista em entender essas mutações e identificar tendências. Como um ecossistema de conteúdo multiplataforma, temos o inabalável compromisso de traduzir essa expertise para o mundo empresarial assimilar a importância da inserção do consumidor no centro de suas decisões e estratégias.

A busca incansável da excelência e a inovação como essência fomentam nosso espírito questionador, movido pela adrenalina de desafiar e superar limites – sempre com integridade.

Esses são os valores que nos impulsionam a explorar continuamente as melhores práticas para o desenho de uma experiência do cliente fluida e memorável, no Brasil e no mundo.

A IA chega para acelerar e exponencializar os negócios e seus processos. Mas o CX é para sempre, e fará a diferença nas relações com os clientes.

CAPA: Camila Nascimento
IMAGEM: IA Generativa | Runway


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