Crédito em tempos de incerteza econômica

Crédito em tempos de incerteza econômica

Fernando Honorato, economista-chefe do Bradesco, analisa as decisões que devem estar relacionadas à concessão de crédito no Brasil

Em um cenário econômico marcado por altas taxas de juros e uma previsão de desaceleração do PIB, a concessão de crédito no Brasil enfrenta desafios significativos. Fernando Honorato, economista-chefe do Bradesco, em entrevista à Consumidor Moderno, compartilha sua visão sobre os fatores que influenciam as decisões de crédito, destacando a relevância do emprego, da taxa de juros e da inflação.

Para Honorato, o prognóstico é que a demanda por crédito diminua, uma vez que os consumidores, diante da Selic elevada, tendem a solicitar menos empréstimos. No entanto, a oferta por parte das instituições financeiras deve permanecer robusta – o que pode criar um paradoxo no mercado.

Na entrevista, o especialista também analisa a situação fiscal do Brasil, ressaltando que, embora a incerteza fiscal possa elevar o custo do crédito, a expectativa de cortes nas taxas de juros pelo Banco Central, a partir de dezembro, pode oferecer um alívio no cenário creditício.

Confira a entrevista na íntegra.

Consumidor Moderno: Como o cenário econômico atual pode influenciar as decisões de crédito no Brasil?

Fernando Honorato: No Brasil, a concessão de crédito é influenciada pelo emprego, pela taxa de juros e pela inflação. Esses três fatores costumam ser os principais motores do crédito, especialmente no que diz respeito às pessoas físicas – embora também sejam relevantes para as pessoas jurídicas, para quem a questão das taxas de juros é bastante significativa. Assim, ao analisarmos o cenário até o final do ano, percebemos que as taxas de juros permanecem elevadas e espera-se uma desaceleração da economia, com o PIB apresentando um desempenho mais fraco no segundo semestre.

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CM: Isso deve resultar em uma diminuição na demanda de crédito por parte dos consumidores?

FH: Sim. Entretanto, a oferta de crédito, ou seja, a disponibilidade por parte dos bancos, não deve ser afetada, pois as instituições bancárias estão bastante líquidas e as captações apresentam bons resultados. Portanto, a restrição não virá do lado da oferta de crédito, mas sim do consumidor, que, diante das altas taxas de juros da Selic, deverá solicitar menos crédito. Estimamos uma desaceleração do crédito bancário entre 7% e 9%. Esses dados não correspondem ao Bradesco – são projeções gerais para o sistema bancário.

CM: Quando olhamos para a situação fiscal do País, o vai e vem do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) pode impactar o crédito?

O principal desafio é o nível de juros, visto que o desemprego está em seus menores índices dos últimos anos. Há geração de renda na economia, mas o custo do crédito, em razão da Selic elevada, está impactando

FH: Sobre esse aspecto, existem alguns fatores a considerar. O aumento do IOF, especialmente para as empresas, tem um efeito similar ao de um aumento da taxa de juros. Embora os objetivos sejam diferentes – o governo busca arrecadar recursos e corrigir distorções de mercado – o resultado é o aumento do custo do crédito final. Para as famílias, o impacto não se origina da concessão por parte dos bancos; não há falta de apetite para emprestar, pelo contrário. Contudo, com juros mais altos e a adição do IOF para as empresas, o custo do crédito final torna-se mais elevado, o que, de fato, impacta a desaceleração do crédito nos próximos meses.

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CM: E no que diz respeito às contas públicas?

FH: Quanto à questão mais estrutural relacionada às contas públicas, a incerteza acerca da trajetória futura da dívida pública tem provocado uma valorização maior do câmbio, resultando em um real um pouco mais desvalorizado do que o esperado. Dessa forma, o desafio fiscal impacta os juros de três a cinco anos, assim como os juros reais da Nota do Tesouro Nacional, encarecendo o crédito. Dessa maneira, a temática fiscal relaciona-se com a discussão sobre crédito em duas frentes: o aumento do IOF, que eleva o custo do crédito; e o prêmio de risco, resultando em juros estruturais mais altos.

CM: Esse cenário é persistente?

FH: Não. Por exemplo, se no fim do ano o Banco Central começar a reduzir a Selic devido a uma leve desaceleração da economia e à inflação em recuo, essa situação tende a ser mitigada. Embora o IOF permaneça inalterado, o impacto desse cenário é de diminuição. Além disso, acredito que uma solução mais estrutural para as contas públicas ajudará a promover taxas de juros mais baixas no médio prazo.

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CM: De que forma os consumidores podem ser afetados pelo cenário econômico atual?

FH: O principal desafio é o nível de juros, visto que o desemprego está em seus menores índices dos últimos anos. Há geração de renda na economia, mas o custo do crédito, em razão da Selic elevada, está impactando. Na minha visão, o risco de um surto inflacionário, que comprometa o orçamento dos consumidores e os impeça de saldar dívidas, é baixo. A economia está resfriando um pouco, mas continuamos a observar índices de desemprego bastante baixos, mesmo nas previsões para 2026. Entretanto, o fator juros, sem dúvida, afeta o consumidor.

CM: Portanto, a variável que mais encarece o crédito é a taxa de juros?

FH: Sim, exato. O Banco Central indicou que manterá os juros altos por algum tempo, mas, conforme nos aproximamos do fim do ano, as taxas de juros começarão a cair, o que deverá dinamizar novamente o mercado de crédito.

SUMÁRIO – Edição 297

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