Durante grande parte do século 20, o cuidado em saúde foi pensado como destino: algo a que se chega quando o problema já apareceu. Não por acaso, à época, em um mundo com poucos recursos de comunicação, gestos simples ganharam valor simbólico. Um deles era acenar um lenço branco para fora da janela do carro para pedir passagem em situações de urgência – um gesto nascido da necessidade, em um contexto com menos meios de comunicação instantânea. A lógica era reagir rápido. O hospital, o pronto atendimento e a emergência eram (e são até hoje) o centro da experiência.
Atualmente, a pergunta já não é mais “como chegar rápido ao cuidado?”, mas “como fazer o cuidado chegar até você de maneira preventiva?”. Essa mudança diz muito sobre o momento que estamos vivendo. A saúde deixou de ser apenas um lugar para onde se vai quando algo dá errado. Ela se transformou em uma experiência contínua, moldada pela escolha consciente e pela integração de tecnologias que permitem que o cuidado seja mais próximo, mais personalizado e mais conectado à vida real, valorizando a predição, prevenção e autocuidado antes de chegar a urgência.
Um dos fenômenos centrais dessa transformação é o crescimento acelerado do atendimento domiciliar, um modelo essencial para responder às necessidades de uma população que vive mais e, com mais frequência, convive com condições crônicas que exigem acompanhamento contínuo.
Os números ajudam a dimensionar essa virada. Segundo a MarketsandMarkets™, o mercado mundial de cuidados domiciliares à saúde deve passar de cerca de US$ 309,9 bilhões em 2025 para US$ 473,8 bilhões até 2030.
No Brasil, o movimento é ainda mais intenso: de acordo com a Grand View Research, o mercado brasileiro de assistência domiciliar à saúde, que gerou US$ 12,7 bilhões em 2024, deve alcançar cerca de US$ 23,6 bilhões até 2030, com crescimento anual composto de 10,9% entre 2025 e 2030.
Essa mudança não é apenas um fenômeno econômico. Ela reflete uma transformação mais profunda sobre o que significa, na prática, “ser cuidado”.
Cases que confirmam a tendência
Dados ajudam a explicar por que modelos híbridos, que combinam presença física e acompanhamento remoto, vêm se consolidando como parte estrutural da jornada do paciente.
Uma revisão de escopo conduzida por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina, publicada na Revista Bioética, mapeou evidências sobre o uso da telessaúde no manejo de doenças crônicas no Brasil e nos Estados Unidos e concluiu que a telehealth tem papel relevante na ampliação do acesso, na continuidade do cuidado e na integração dos serviços de saúde, especialmente em contextos de limitações geográficas e sobrecarga do sistema.
Na prática do sistema público brasileiro, esse potencial já aparece de forma concreta. Um estudo coordenado por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) em parceria com a Agência Brasileira de Apoio à Gestão do SUS (ABG-SUS), publicado no Journal of Medical Internet Research, analisou o projeto UBS+Digital e mostrou que as teleconsultas conseguiram resolver mais de 80% das demandas da atenção primária, reduzindo a necessidade de deslocamentos presenciais e ampliando o acesso ao cuidado.
Tecnologias que ampliam a qualidade do cuidado
A transformação do cuidado domiciliar tem sido impulsionada pela incorporação de tecnologias digitais. A mesma revisão conduzida pela equipe da UFSC aponta que ferramentas de telehealth, quando integradas ao cuidado clínico, favorecem o acompanhamento longitudinal de pacientes com doenças crônicas e fortalecem a coordenação do cuidado entre diferentes níveis de atenção.
Já o estudo do projeto UBS+Digital indica que a telemedicina, além de ampliar o acesso, organiza fluxos assistenciais, qualifica o encaminhamento de casos e melhora a resolutividade da atenção primária, especialmente em cenários de escassez de profissionais e alta demanda por serviços.
Essas tecnologias não substituem o contato humano. Ao contrário: ampliam a capacidade do sistema de saúde de acompanhar, antecipar e personalizar cuidados, com foco em melhores desfechos clínicos e mais qualidade de vida.
E, para mim, a abordagem centrada no paciente coloca na agenda pilares cada vez mais evidentes:
- Continuidade do cuidado, integrando jornadas presenciais e remotas;
- Facilidade de acesso, permitindo que pessoas recebam atenção em casa, com menos deslocamentos;
- Empoderamento do paciente, que passa a gerir melhor sua própria saúde com suporte clínico e tecnológico.
O cuidado domiciliar, nesse contexto, não é apenas um serviço prestado fora do hospital. Ele representa um novo pilar do sistema de saúde, que valoriza não só o resultado clínico, mas também a experiência, a conveniência e a autonomia de quem está no centro dessa jornada, algo que os próprios dados de mercado global e brasileiro já começam a refletir.
Inovações que ampliaram horizontes em 2025
Ao longo de 2025, essa mudança também passou a aparecer na forma como as pessoas organizam o acesso e planejam a relação com o cuidado. Ganharam espaço soluções que não substituem planos de saúde nem criam regimes de cobertura, mas funcionam como instrumentos práticos de organização, facilitação e previsibilidade da jornada de cuidado.
Entre esses formatos, estão os cartões de benefícios em saúde, que viabilizam acesso a serviços em condições específicas sem configurar cobertura assistencial; os gift cards, que permitem transformar consultas, exames ou serviços em escolhas planejadas (inclusive como presente), deslocando a lógica exclusiva da urgência de saúde; e os programas de acompanhamento contínuo, voltados a apoiar pessoas ao longo do tempo, especialmente em prevenção, monitoramento e gestão da saúde.
O ponto comum não está na estrutura jurídica ou comercial de cada um, mas no sinal que eles emitem: a saúde começa a ser tratada como parte do planejamento de vida, e não apenas como resposta a eventos agudos.
O cuidado em saúde já está mudando de lugar. Ele começa antes da doença aparecer e acompanha cada vez mais a rotina das pessoas, impulsionado por tecnologia e novos modelos de atendimento – mas ainda não no mesmo ritmo para todos.
O desafio agora não é provar que funciona, e sim transformar essa lógica em algo acessível e integrado em escala, sem que a inovação vire privilégio de poucos. A questão não é se essa transição vai acontecer. Ela já começou. O que importa é quem vai conseguir acelerá-la – e quem pode ficar para trás.

Roberto Cury é vice-presidente de Atendimento e Experiência do Cliente da Dasa, líder em medicina diagnóstica no Brasil.





