Por onde passa, o biomédico britânico Audrey de Grey lota – e intriga – plateias. Pesquisador da Universidade de Cambridge e presidente científico do SENS Research, um laboratório de pesquisa instalado em Mountain View, na Califórnia, ele defende que é absolutamente possível postergar e combater o processo de envelhecimento. E provoca: “Todos têm certeza de que a malária é uma coisa ruim. E sabe qual a única diferença real entre ela e o envelhecimento? Mata muito mais”, diz ele. Um dos grandes destaques da Campus Party, em São Paulo, o cientista da barba longa (que lhe rendeu o apelido de profeta do envelhecimento), concedeu a seguinte entrevista à CM:
Como o senhor define o envelhecimento?
Ele é um longo acúmulo de danos. O corpo humano é uma máquina muito complicada. Isso significa que os efeitos colaterais do seu funcionamento natural criam danos e alguns deles causam doenças e incapacidade.
O que quer dizer quando se refere à “cura” para o envelhecimento?
Isso significa que nos tornaremos velhos em número de anos, mas não em como nos parecemos, nos sentimos e funcionamos. O que queremos fazer é postergar as doenças estendendo, assim, o tempo de vida.
E como isso seria possível?
Fazer isso acontecer é o maior problema que temos hoje. As doenças infecciosas são fáceis de prevenir com antibióticos, vacinas e saneamento básico, por exemplo. Mas não temos ainda solução para doenças relacionadas à idade. E sabe por que não? Porque essas doenças são consideradas causas naturais e as pessoas querem esquecer essa coisa terrível que vai acontecer com elas. Há séculos descobrimos remédios e vacinas que aumentaram a expectativa de vida, mas não fizemos a mesma coisa com as doenças causadas pela velhice. Cometemos um erro grotesco ao não considerar o processo de envelhecimento uma doença.
No que se baseia a teoria desenvolvida pelo senhor?
Temos de atacar alguns fatores que causam o envelhecimento no nosso corpo. Primeiro, precisamos entender que o envelhecimento nada mais é do que a incapacidade de uma célula de se renovar com o passar dos anos. Isso leva a uma diminuição de sua quantidade, o que acaba afetando sensivelmente outras perdas, como a de massa óssea, por exemplo. Mas há outros pontos a serem considerados. Uma intoxicação das células que não se dividiram corretamente e a liberação de toxinas são determinantes para a velhice. Temos ainda as questões relacionadas às mutações no núcleo das células e nas mitocôndrias (a estrutura da célula que fornece energia). Outro fator diz respeito aos materiais descartados pelo corpo e que se unem as células. Esse lixo, vamos chamar assim, é proveniente do descarte das proteínas feito pelas células e de outras reações químicas. Por fim, temos as proteínas que se desenvolvem de maneira errada e se grudam umas às outras. Isso pode atrapalhar o funcionamento dos vasos sanguíneos.
Nós temos tecnologia para atacar essas causas fatais para o envelhecimento?
Sim. Quer dizer, é claro que temos alguns desafios em algumas dessas áreas, mas nós temos uma chance de 50% de atacá-las nos próximos 20 anos.
O senhor mencionou o uso de nanobots que, injetados ao seu corpo, poderiam curar algumas doenças. O que pensa sobre eles?
Eu realmente acredito que isso seja uma boa ideia. Basicamente estamos nos referindo a um dispositivo (um agente não biológico) que pode realizar tarefas médicas que o seu corpo não faz por meio das células, por exemplo. Acho que é possível haver esse tipo de tecnologia e ela pode ser muito útil. Eu vejo que estamos caminhando nessa direção, mas não acho que isso vai acontecer em pouco tempo. É algo para o futuro e que depende de muitos investimentos.
Isso significa que a humanidade está se aproximando da imortalidade?
Por enquanto, tudo não passa de especulação, uma vez que precisamos de maiores investimentos nessas áreas. Mas, teoricamente, sim, é possível. Aliás, muitos desses problemas que mencionei anteriormente já podem ser revertidos. E é como eu disse: há uma chance de 50% para chegarmos lá nos próximos 20 anos. Mas se fizermos os investimentos pesados nessas áreas, penso que temos 90% de chances de alcançar a imortalidade.
E o que muda com o alcance da imortalidade?
A eliminação do envelhecimento deve acarretar em muitas mudanças na sociedade. Passamos por um processo de automação das nossas vidas bem significativo a partir do uso da inteligência artificial. Isso pode eliminar muitos trabalhos e coisas que fazemos hoje. O fim do envelhecimento deve acompanhar essa problemática para o bem da humanidade. Afinal, como viveremos mais, com menos trabalho?
O senhor tem dificuldade em convencer as pessoas das suas crenças?
Estou numa batalha constante. É mais fácil para as pessoas acreditar que isso não faz sentido. Mas é preciso ser menos covarde. Eu acredito que devamos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para salvar vidas e aliviar o sofrimento das pessoas.





