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PL que restringe atuação dos Procons deixa de ser analisado na Câmara

PL que restringe atuação dos Procons deixa de ser analisado na Câmara

A estrutura dos Procons é vital para a proteção dos consumidores. Este projeto, se aprovado, poderia enfraquecer essa defesa.
A estrutura dos Procons é vital para a proteção dos consumidores. Este projeto, se aprovado, poderia enfraquecer essa defesa.
Foto: Shutterstock.
Entidades de defesa do consumidor criticam o Projeto de Lei nº 2.766/21 por enfraquecer os Procons e reduzir a fiscalização contra práticas abusivas. A proposta é vista como um retrocesso, pois incentiva a impunidade e coloca os consumidores em risco, especialmente diante de crises como a de intoxicação por metanol. Especialistas defendem que modernizar a legislação não pode significar perda de direitos.

A Câmara dos Deputados deixou de votar o controverso Projeto de Lei nº 2.766/21. A matéria foi alvo de críticas das entidades de defesa do consumidor por propor restrições significativas à atuação dos Procons. A proposta, de relatoria do deputado federal Luiz Gastão (PSD-CE), surge em um momento crítico. Isso porque o Brasil enfrenta uma grave crise de intoxicação por metanol, resultando em múltiplos óbitos e internações.

O fato de a Câmara ter deixado de analisar esse projeto não retira a preocupação das entidades de defesa do consumidor. Pelo contrário. Esses órgãos afirmam que a intenção parlamentar de diminuir a capacidade de atuação dos Procons pode prejudicar diretamente os consumidores. Especialmente em um momento em que a confiança do público nas práticas de mercado está em nível crítico.

Ademais, a mobilização que levou à suspensão da votação do projeto evidencia a união de diversas entidades. Elas se mobilizaram e, juntas, alertaram para os potenciais danos à defesa do consumidor como um todo. Segundo todas elas, ao invés de promover um ambiente favorável ao consumo, as propostas resultariam em um cenário de impunidade. E não só: o consumidor ficaria desprotegido, vulnerável às práticas abusivas.

Preocupação

Renata Ruback, presidente da Procons Brasil.

A presidente da Procons Brasil (Associação Brasileira de Procons), Renata Ruback, expressou sua preocupação com o projeto. Ela o avaliou como um retrocesso nas conquistas obtidas ao longo dos anos em prol da proteção dos consumidores. “É inaceitável que, depois de tantos anos de luta e avanços na proteção dos consumidores, queiram enfraquecer a atuação dos Procons. E ainda reduzir o poder de fiscalização dos órgãos. Justo neste momento de crise e da necessidade, cada vez maior, de uma atuação enérgica em defesa do consumidor”, afirmou Ruback.

O projeto de lei pretende alterar a Lei nº 8.078/1990, o Código de Proteção e Defesa do Consumidor. Ele propõe, entre outras mudanças, que as multas aplicadas pelos Procons não possam ser revertidas para o aprimoramento do trabalho de cada órgão. Além disso, estabelece que a primeira ação de fiscalização deve ser sempre preventiva. Isso se daria diante de flagrantes de produtos impróprios para consumo.

Proteção do consumidor

Amélia Rocha, presidente do Brasilcon.

A situação se torna ainda mais alarmante diante da crise atual, onde a venda de bebidas adulteradas tem causado sérias consequências à saúde pública.

Amélia Rocha, presidente do Instituto Brasileiro de Política e Direito do Consumidor (Brasilcon), criticou a proposta, afirmando que ela pode facilitar a continuidade de práticas inadequadas por parte dos fornecedores, expondo os consumidores a produtos e serviços que não atendem aos padrões de qualidade e segurança. “É essencial que o arcabouço legal proteja os indivíduos de abusos e fraudes, e o PL é totalmente contrário a isso”, ressalta.

Fiscalização orientadora

Marcia Moro, do Procon de Santa Maria/RS

O projeto também sugere uma abordagem predominantemente orientadora nas fiscalizações, o que, segundo especialistas, pode levar a um aumento das infrações, uma vez que os fornecedores seriam incentivados a ignorar regulamentos, confiando na possibilidade de regularização posterior sem consequências imediatas. “A falta de penalidades rápidas pode desestimular denúncias, resultando em um ambiente propício à impunidade”, garante Marcia Moro, à frente do Procon de Santa Maria/RS.

Ou seja, segundo ela, a ausência de consequências imediatas pode criar uma cultura de complacência entre os fornecedores, que podem optar por desrespeitar normas e regulamentações, pensando que a fiscalização não se traduzirá em sanções efetivas. “Essa situação gera preocupações sobre a eficácia das políticas de proteção ao consumidor, uma vez que a confiança nas instituições reguladoras se baseia na certeza de que infrações serão devidamente punidas.”

Modernização ou retrocesso?

André Marchesan, procurador de Justiça.

A discussão em torno do projeto revela um dilema crucial: enquanto se busca modernizar o Código de Defesa do Consumidor, é fundamental que essa modernização não comprometa os direitos dos consumidores.

O procurador de Justiça André Ricardo Colpo Marchesan alerta que a efetividade dos direitos do consumidor depende da atuação constante e efetiva dos Procons, e que a proposta pode enfraquecer a função coercitiva do Estado, essencial para proteger os interesses públicos.

Em sua visão, a proposta de revisão do Código deve ser analisada com cautela, levando em consideração a necessidade de fortalecer os mecanismos de defesa existentes, em vez de substituí-los por alternativas que possam oferecer menos proteção ao consumidor. “Um equilíbrio é necessário, no qual a inovação e a modernização da legislação não signifiquem a coação de um retrocesso nos direitos adquiridos ao longo dos anos.”

Quem seriam os beneficiários desse PL?

Quando as empresas investem em um melhor relacionamento com consumidor, a colheita de resultados a longo prazo é certa.
Cláudio Pires Ferreira, presidente do FNECDC.

Por fim, Cláudio Pires Ferreira, presidente do Fórum Nacional das Entidades Civis de Defesa do Consumidor (FNECDC), considera o PL um retrocesso na proteção do consumidor no Brasil. “Adiar a aplicação de multas é prolongar e incentivar as violações aos direitos do consumidor. Ninguém pode alegar desconhecimento das leis, portanto, parece inadequado que os Procons, ao identificarem irregularidades, não tenham a possibilidade de aplicar penalidades. Ao fragilizar os órgãos do Sistema Nacional de Defesa do Consumidor (SNDC), quem realmente perde é o consumidor brasileiro.”

E, nesse contexto, ele pergunta: a quem isso interessa e quem são os beneficiários dessa situação?

Diante desse cenário, a mobilização dos Procons e dos órgãos de defesa do consumidor se mostra vital para garantir que as vozes de quem defende os direitos dos cidadãos sejam ouvidas, e que a proteção ao consumidor não seja comprometida em meio a propostas que visam, supostamente, modernizar a legislação. A sociedade, em sua totalidade, deve estar atenta e engajada na defesa dos direitos que asseguram a sua proteção em um mercado cada vez mais complexo e arriscado.

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