O Brasil foi um dos pioneiros na abertura do mercado de energia elétrica. Seu início formal aconteceu em 1995, com a publicação da Lei 9.074/1995. A legislação permitiu que consumidores com demanda maior que 10.000 kW pudessem comprar energia de produtores independentes. Ainda, após oito anos, todos os consumidores poderiam fazer o mesmo.
Em 1998, outro decreto marcou a criação e a estruturação do Ambiente de Contratação Livre no setor, viabilizando o mercado. Já em 1999, aconteceu o primeiro contrato de compra e venda de energia no ambiente livre. No entanto, o avanço ficou no plano das ideias. E o Brasil, que estava na dianteira, perdeu protagonismo para outros países, como Estados Unidos, Japão e na Europa.
No entanto, a promessa da evolução do setor voltou com força nos últimos anos. A portaria 50/2022 do Ministério de Minas e Energia definiu que, a partir de 1º de janeiro de 2024, todos os consumidores de alta tensão poderiam migrar para o mercado livre de energia.
Abertura do mercado brasileiro
Os números levantados pela Abraceel mostram como o mercado livre de energia brasileiro segue mostrando avanços. Em outubro, foram contabilizadas 80,9 mil unidades consumidoras, com um aumento de 50% em 12 meses. O ambiente livre responde por 44% de toda a eletricidade consumida no País.
Agora, o Congresso aprovou a MP 1.304, que estabelece a expansão do mercado livre para consumidores de baixa tensão – como residências e pequenos comércios – até 2027. Com isso, os consumidores finais poderão ser diretamente beneficiados com a abertura. Uma vez que poderão escolher seus fornecedores, é possível esperar benefícios como redução de custo, previsibilidade de condições, liberdade de escolha e flexibilidade de planos e tarifas.
Um exemplo desse efeito está em um estudo da Abraceel com apoio da Thymos Energia. Segundo o levantamento, estados dos Estados Unidos que mantiveram um mercado regulado reduziram seus custos de energia em 18% entre 2010 e 2019. Já aqueles que optaram pela abertura total reduziram em 31%. Já no Brasil, no mesmo período, houve um aumento real de 10% nas tarifas. Enquanto os consumidores no Ambiente de Contratação Livre têm registrado preços até 30% mais baixos.
Experiência do cliente como diferencial
Uma vez que o Brasil é o terceiro país com a maior relação entre tarifa de energia e renda per capita, a abertura poderá levar mais decisão de escolha ao consumidor, assim como alívio na conta de luz, segundo relatório da Thymos Energia.
Assim, a experiência do cliente será determinante para a competição do setor. Empresas fornecedoras deverão entender comportamentos de consumo, preferências, benefícios e serviços complementares para fidelizar um consumidor que, até o momento, não possui poder de escolha.
Para entender melhor as oportunidades para esse novo momento do mercado de energia elétrica no Brasil, a Consumidor Moderno conversou com João Carlos Guimarães, VP Comercial do Grupo Delta Energia, e Rafael Szarf, CEO da LUZ, comercializadora de energia varejista do grupo. Confira!
Mudança cultural do setor
Consumidor Moderno: Hoje, quais são os principais desafios para o avanço do mercado livre de energia no Brasil?
João Carlos Guimarães: O mercado livre de energia enfrenta desafios significativos para sua expansão no Brasil, especialmente quanto à regulamentação para que possamos atender aos consumidores de baixa tensão. A aprovação da Medida Provisória 1.304 pelo Congresso é fundamental para a definição de regras para a abertura total do mercado. É crucial termos diretrizes que contribuam para uma convivência harmônica entre os diferentes atores do mercado – empresas varejistas, distribuidoras e consumidores.
Outro desafio do mercado livre de eletricidade é que o setor, tradicionalmente, não tem habilidade para lidar com o varejo. Ou seja, o pequeno consumidor como comércio, empresa e residencial conectados a redes elétricas de baixa tensão. É uma mudança cultural para o setor elétrico. O desafio é chegar a esses públicos com um custo competitivo e acessível para que todos possam se beneficiar.

A experiência que já temos com a Geração Distribuída (GD) mostra a dificuldade e as dores na contratação desse pequeno consumidor. No Grupo Delta Energia, já começamos a nos preparar para essa transição para o mercado livre para todos. Por meio da LUZ, nossa comercializadora de energia varejista, temos iniciado essa jornada com o consumidor final, acumulando aprendizados para a ampliação da carteira de clientes.
CM: Qual é o panorama do País em relação ao restante do mundo? O levantamento da Thymos destaca que o Brasil foi pioneiro, mas ficou para trás frente a outras economias. Por quê? E quais são as práticas desses países líderes no mercado livre que podem servir como um bom aprendizado para o Brasil?
João Carlos Guimarães: A abertura total do mercado não seguiu o cronograma previsto em nosso País, enquanto outras nações adotaram medidas regulatórias que têm garantido os benefícios do mercado livre ao consumidor. Em termos de modelo, este é um processo que segue mais ou menos a mesma cartilha em diversos outros países, considerando as devidas adaptações conforme o perfil e especificidades de cada nação. E para o Brasil, vale ressaltar que temos uma das matrizes energéticas mais renováveis do mundo, seja hidrelétrica, solar e eólica. Precisamos aproveitar nosso potencial energético para oferecer preço de energia justo ao nosso consumidor.
Rafael Szarf: Os grandes campeões no mundo mostram que a tecnologia é fundamental. Por exemplo, na Inglaterra, o líder de mercado (Octopus Energy) é uma empresa que não tem histórico no setor de energia. Eles utilizam gamificação e criam benchmarks de economia entre vizinhos para engajar o cliente. O aprendizado é adaptar essas práticas em inovação, tecnologia e experiência em outros mercados e adaptar à nossa cultura e às características do País.
Benefícios do mercado livre de energia
CM: Além do preço, quais são os benefícios para o consumidor ao migrar para o mercado livre?
João Carlos Guimarães: Consideramos, ao menos, sete benefícios principais para a mudança para o mercado livre de energia:
- Redução de Custo: Benefício mais imediato e procurado pelo consumidor.
- Previsibilidade: Contratos com condições e reajustes claros, sem surpresas.
- Liberdade de Escolha: Possibilidade de escolher seu próprio fornecedor, em vez de ficar atrelado à distribuidora local.
- Flexibilidade: Planos e tarifas adaptados ao perfil de consumo, ou seja, as empresas têm condições de ofertar um produto taylor made, ou seja, de acordo com a necessidade de cada consumidor.
- Energia Renovável: Acesso a fontes limpas e sustentáveis.
- Sem Investimento ou Obras: Migração não exige qualquer instalação ou obra.
- Foco na Experiência: A proposta de valor vai além do desconto, com serviço de alta qualidade, bom atendimento e opções de escolha, permitindo que o cliente opte pelo melhor serviço, aquele que melhor se adequa à realidade do consumidor, mesmo que não seja o mais barato.
Rafael Szarf: A jornada do cliente não é só sobre desconto. É sobre ter um serviço muito bem qualificado. O consumidor pode escolher pagar mais para ter um serviço melhor. A flexibilidade também se manifesta no “não investimento”, ou seja, o cliente não precisa fazer obras para ter uma conta de luz mais barata.
Num mundo cada vez mais tecnológico, contar com empresas neste novo momento do setor elétrico que apresente uma experiência totalmente digital e flexível faz muita diferença para o consumidor. Imagine contratar seu novo fornecedor com apenas três cliques.
A experiência no mercado livre de energia
CM: E qual é o papel da experiência do consumidor para a competitividade do setor? Como a CX poderá ser determinante para uma migração efetiva da população brasileira?
João Carlos Guimarães: O mercado livre empodera o consumidor. O cliente, que precisava aceitar as condições da distribuidora no mercado cativo, agora vai exigir mais e pressionar por melhorias. As empresas que melhor se adaptarem à experiência do cliente (bom atendimento, site, canais) vão ganhar o jogo. Além disso, o canal de faturamento (billing) permite a oferta de outros produtos e serviços (seguros, serviços financeiros, produtos de eficiência energética), ou seja, um produto taylor made.
Rafael Szarf: O CX será determinante porque resolve a principal dor do consumidor: a falta de previsibilidade. O uso da tecnologia, como o medidor inteligente da LUZ, é um bom exemplo. O equipamento torna-se um aliado na gestão do consumo porque identifica o aparelho “vilão”, como o ar-condicionado, uma geladeira que precisa de manutenção, e traz a previsibilidade do consumo no fim do mês. A experiência de contratação deve ser 100% digital em sintomia com a realidade da população.
Vale destacar ainda que vivemos um movimento de transição para a eletricidade de eletrodomésticos a gás, como fogões e fornos, e do aumento do uso de carros híbridos e elétricos, portanto, a conta de luz se tornará ainda mais significativa e o consumidor precisará de serviços que ofereçam valor, com foco em preço e diferenciação.
CM: A conscientização e educação do consumidor brasileiro sobre o mercado livre é essencial. Quais são os caminhos possíveis para levar mais conhecimento à população, para que possa fazer a melhor escolha possível?
Rafael Szarf: A educação deve se concentrar na dor que o consumidor já sente: de acordo com a pesquisa Futuro da Energia, feita pela LUZ com o Futuros Possíveis, que ouviu 2.089 consumidores, 76% dizem que a conta de energia pesa no orçamento. Além disso, 96% apontam que gostariam que o valor da conta de energia fosse previsível no futuro.
A solução é educar com informações sobre como funciona a tarifa e o consumo. Os medidores inteligentes são, por exemplo, são uma ferramenta de educação, pois ajudam o consumidor a entender o hábito de consumo e gerir melhor o uso de energia elétrica.

O setor de telecomunicações é um bom exemplo de que o consumidor domina planos complexos quando há concorrência. Portanto, o que precisamos é levar informação ao consumidor sobre este novo momento do setor elétrico brasileiro para que ele tome as decisões que melhor irão atendê-lo.
O novo consumidor de energia
CM: Como o mercado livre atende a um novo perfil de consumidor, mais exigente, digital e antenado?
João Carlos Guimarães: O mercado livre propicia a possibilidade de termos uma oferta maior de produtos e serviços. O cliente passa a ser empoderado, e o mercado, mais competitivo, cria oportunidades que favorecem o consumidor (serviços financeiros, seguros, produtos de eficiência energética).
A abertura do mercado seguirá o exemplo do setor bancário, que se abriu e proliferou a oferta de serviços e produtos. Em suma, a abertura do mercado de eletricidade trará bons frutos, com redução de custos, tarifas mais justas, investimentos, melhora na qualidade do serviço e uma expansão eficiente de toda a cadeia de valor da infraestrutura da indústria da energia elétrica quando cada consumidor puder individualmente a sua escolha de fornecedor de acordo com suas preferências.
Experiência digital e flexível
Rafael Szarf: Para um público mais novo e antenado, a experiência 100% digital e flexível é chave. A conta de energia já é um peso, e a tendência é que se torne ainda mais pesada com a eletrificação (carros elétricos, fogões elétricos). O serviço deve ser excelente para atender a essa necessidade. A plataforma de energia deve se tornar o principal aplicativo da casa para coordenar todas as contas domésticas, uma vez que será a principal conta.
Esse novo formato também favorece o medidor inteligente que, com Inteligência Artificial, como o da LUZ, consegue:
- Desagregar o consumo: Identificar quais eletrodomésticos e equipamentos, como o ar-condicionado, micro-ondas e chuveiro, mais consomem energia em uma residência.
- Gerar previsões: Estimar o valor da conta no fim do mês, permitindo que o consumidor ajuste seus hábitos de consumo a tempo do fechamento da fatura.
- Fornecer dados comparativos: Para um ponto comercial, como uma padaria, um açougue ou lavanderia, a tecnologia pode indicar como seu consumo se compara ao de outros estabelecimentos similares.
Demanda de energia da IA
CM: O Brasil conta com uma das matrizes elétricas mais limpa do mundo, o que poderia ser um potencial destino para empresas de IA e data centers. De que forma o mercado livre pode atender à maior demanda energética do setor de tecnologia?
João Carlos Guimarães: O mercado livre é uma solução na medida – e talvez a mais recomendável – para data centers e empresas de IA. O modelo ideal é a autoprodução, uma modalidade dentro do mercado livre, pois traz maior competitividade e confiabilidade. O Brasil tem uma das gerações de energia mais competitivas do mundo. Existe a possibilidade de usar a energia renovável hoje desperdiçada (curtailment) no Nordeste para atender a esses consumidores intensivos (data centers, mineradores de bitcoin), reduzindo o custo de contratação.





