Das telas do cinema, teatro e TV para o maior palco de CX do mundo, Ingrid Guimarães coroou o encerramento do CONAREC 2025. Em uma roda de perguntas conduzida pelas jornalistas da Consumidor Moderno Larissa Lemos, Nayara de Deus e Julia Fregonese, a atriz, humorista, roteirista e apresentadora brilhou, inspirou e arrancou boas risadas de milhares de CX lovers que lotaram a arena.
Reconhecida como um dos maiores nomes do cinema brasileiro e tendo o humor como marca registrada, Ingrid construiu uma carreira que dialoga diretamente com os desafios de empresas, marcas e líderes. Afinal, para se manter relevante e conectar consumidores ao propósito do negócio, é preciso inovar, pensar fora da caixa e conhecer profundamente o seu público.
Sinônimo de reinvenção
Recordista de bilheteria com sucessos como De Pernas pro Ar, Minha Mãe é uma Peça – o Filme, Loucas pra Casar e Fala Sério, Mãe, Ingrid, hoje aos 53 anos, é sinônimo de sucesso e reinvenção. Seu início foi marcado pelas dificuldades de quem insiste em trilhar um caminho próprio. Como ela mesma relembra, nunca foi a primeira opção para nenhum papel, e tampouco seu telefone tocava com convites de trabalho. Foi preciso ser perspicaz, resiliente e ousada para assumir o protagonismo da própria história.
O ponto de virada veio em 2001, quando produziu, ao lado da atriz Heloísa Périssé, a peça Cócegas. O espetáculo se tornou um fenômeno, levando quase 800 mil pessoas ao teatro e abrindo as portas para uma trajetória de protagonismo.
Confira os principais destaques da participação de Ingrid Guimarães no CONAREC 2025, o maior evento de CX do mundo!
O desafio da reinvenção
Consumidor Moderno: Qual foi a reinvenção mais divertida e qual foi a mais desafiadora nessa sua trajetória?
Ingrid Guimarães: A mais divertida é que eu nunca fui a primeira opção pra nada. A verdade é essa. Só pra vocês terem uma ideia: vocês assistiram De Pernas Pro Ar? Pois eu não era a primeira opção, era a Glória Pires. Então, eu sempre fui a pessoa que estava no segundo lugar.
Eu comecei fazendo papel pequeno, coadjuvante. Teve até uma novela chamada Por Amor. Eu era a empregada, só falava uma frase: “A senhora aceita um café, açúcar ou adoçante?”.
Depois, eu fiz uma peça de teatro chamada Cócegas com a minha sócia, Heloísa Perissé. A gente tinha só 400 reais pra montar a peça. Ela mudou a minha carreira. Foi um fenômeno: ficamos quase 12 anos em cartaz, e mudou a minha vida.
Depois que fiz uma peça com minhas histórias, com o meu texto, eu voltei com um programa na Globo. Então, o mais divertido é isso: sair de coadjuvante e virar protagonista da própria história. Isso é muito legal!
E a mais desafiadora é justamente isso que vocês me chamaram pra falar aqui: envelhecer sendo relevante. Esse é um grande desafio. E que desafio gostoso!
CM: Você sentiu que ali, no sucesso da peça, nasceu uma virada para mostrar que a mulher também podia ser protagonista na comédia?
A comédia vem de uma história muito machista. Na minha geração, os protagonistas eram sempre homens: programa do Chico Anysio, Jô Soares, Trapalhões. Na gringa tinha o Gordo e o Magro, os Irmãos Marx… Não tinha mulher protagonizando.
Quando a gente fez sucesso no teatro, fomos para a TV fazer Sob nova direção [sitcom brasileira exibida pela Rede Globo] e viramos protagonistas. Mas, pra eu chegar onde cheguei, antes tivemos a Dercy Gonçalves falando muito palavrão, abrindo caminho. Acredito que sempre precisamos reverenciar quem veio antes.
O Cócegas era texto meu e da Heloísa Perissé. E ali eu descobri que a gente precisa valorizar a própria história. Às vezes queremos o trabalho do outro, o emprego do outro. Mas, a nossa ideia é potente porque nasce de um lugar verdadeiro.
O “Costa” e o “César” eram personagens que a gente já fazia em mesa de bar, falando sobre mulheres casadas, solteiras, separadas, profissão, busca pelo amor… Aquilo gerou identificação absoluta! Ali eu descobri que se reinventar é ser dona da própria história. Não é fácil, mas é essencial.

Influência no mercado
CM: Ao longo da sua carreira, você trouxe muito protagonismo feminino, quebrou tabus, falou de maternidade, casamento… E De Pernas pro Ar até ajudou a bombar o mercado de prazer feminino. Como foi essa experiência?
De Pernas pro Ar foi meu primeiro filme como protagonista. Eu li o roteiro daquela mulher que nunca tinha gozado e usava um vibrador.
Naquela época, ninguém vendia vibrador em qualquer lugar. Lembro que, em São Paulo, tinha uma loja na Augusta: você entrava fingindo comprar uma calcinha, apertava um botão, abria um espelho e entrava como se fosse comprar droga. Saía escondendo a sacola, o marido não podia ver.
O filme teve 10 milhões de expectadores. E, mais do que um filme, ele duplicou o mercado de sex shops.
Recentemente, a gente filmou em São Paulo e na Amazônia. E eu sempre falo: por que nós, mulheres maduras, não podemos influenciar? Somos nós que consumimos, temos poder aquisitivo, gostamos de escolher coisas boas.
CM: E como foi gravar na Amazônia? Muito perrengue?
Foi um Perrengue Fashion, título do meu novo filme! Eu inventei de fazer uma personagem toda grifada no meio da Amazônia.
O sonho da personagem era fazer uma campanha da Gucci, porque ela já tinha trabalhado como vendedora da marca. A Gucci, inclusive, está no filme. Então, a gente aparece toda “grifada”, e ela fala justamente sobre esse desejo de estar em uma marca para ser reconhecida em algum lugar. Afinal, a gente não é europeu, né? Que coloca só uma t-shirt branca e pronto.
Essa piada, inclusive, está no trailer. E muitas situações reais também entraram no filme – o calor, as paisagens incríveis da Amazônia, esse lugar maravilhoso. A gente aborda bastante moda, mas também fala de moda sustentável. Porque, ao mesmo tempo em que a moda gera muito emprego, existe esse movimento importante de sustentabilidade. Então a gente faz uma brincadeira com esse tema.
Humor como filosofia de vida
CM: O humor virou a sua marca registrada. Dá para dizer que o humor é a sua forma de traduzir a vida? E quando falta humor, como você se recarrega?
O humor realmente virou a minha marca registrada. Mas, exige muito: eu fico horas pensando em uma piada só para vocês rirem. Cada risada me deixa feliz. O humor é generoso – não é para mim, é para vocês. Às vezes, na rua, uma pessoa me cumprimenta como se fosse minha prima. Meu marido até pergunta: “Você conhece?”. E eu respondo: “Não!”. Mas isso é o humor: ele cria proximidade e também me recarrega. Arrancar uma gargalhada é uma das coisas mais gostosas que existem. Quem não gosta de sair com amigos que dão boas risadas?
O novo filme Minha amiga, que faço com a Mônica Martelli nasceu de uma história que compartilhei nas redes sociais. A gente começou a viajar com as nossas filhas pela Europa. Foi só perrengue, tudo dava errado. Perdemos a chave do carro, quase ficamos sem gasolina… As adolescentes filmaram tudo! E a gente transformou esses momentos em um filme que estreia em janeiro.
Essas mesmas cenas, quando a gente começou a postar na internet, viralizaram de um jeito impressionante. Quanto mais espontâneo, melhor. Demos o celular na mão das nossas filhas e dissemos: “Filma a gente fazendo besteira”. No fim, parecia até série.
CM: Você sempre fala de identificação como algo central na sua carreira. Pode explicar melhor?
Eu acredito muito na palavra identificação. Fiz minha carreira em cima disso. Eu testo tudo: em mesas, em conversas, com pessoas de todas as idades. Sempre pergunto o que querem ouvir, o que é relevante.
Às vezes é algo simples, como falar de adolescente. Hoje, vejo que o mercado melhorou: agências trabalham junto, abrem meus filmes. Eu me meto em tudo, porque trago o que observo nos cenários.
É muito importante ouvir todo mundo: Geração Z, Y, qualquer geração. Não precisa ser jovem para ser relevante. Tem muito jovem velho por aí. O que importa é estar aberto e, principalmente, ser autêntico.
A internet nos deu poder: podemos ser a nossa própria propaganda. Mas, também trouxe o risco de todo mundo querer ser igual. Eu prefiro arriscar, mesmo que erre, porque autenticidade é o que as pessoas querem ver.
Próximos passos
CM: Você saiu de Goiânia, passou por teatro, cinema, redes sociais… Qual é o próximo sonho?
Daqui para frente, quero fazer projetos meus, que eu mesma criei. Quero trabalhar com mulheres, formar um grupo criativo feminino, com várias gerações, pra pensar e comandar.
Meu sonho é ter uma produtora ou algo nesse formato. E também quero voltar ao teatro com um monólogo. O cinema me engoliu, fui emendando filme atrás de filme, e acabei deixando o palco. No ano que vem, vou realizar esse projeto!






