/
/
CM Entrevista: “A IA gera eficiência; o CMO precisa gerar significado e relevância”

CM Entrevista: “A IA gera eficiência; o CMO precisa gerar significado e relevância”

Brasileiro que criou campanhas icônicas para Nike e adidas aponta como um CMO pode criar fãs em torno de uma marca a partir do conceito de fandom.
Fábio Tambosi, executivo de marketing, professor e escritor.
Fábio Tambosi, executivo de marketing, professor e escritor.
Foto: Divulgação.
Fábio Tambosi defende que marcas viram “idolatradas” quando deixam de vender produto e passam a construir identidade e pertencimento, transformando clientes em “sócios emocionais”. No conceito de fandom, CX sai do papel de suporte e vira facilitação de comunidade e cocriação (como a NuCommunity do Nubank), com rituais e participação real do cliente nas decisões. Ele também critica fidelidade baseada em pontos/cashback e diz que o CMO, na era da IA, deve ser o guardião da alma da marca, priorizando narrativas autênticas e comunidade acima de mídia tradicional.

Em um mundo saturado de mensagens publicitárias, poucas marcas conseguem capturar a emoção do público e conquistá-lo de verdade. Mais difícil ainda é a missão do CMO em transformar esses consumidores em fãs leais. Para o executivo de marketing, professor e escritor Fábio Tambosi, fãs não apenas compram, “eles acreditam, compartilham valores e integram as marcas às suas próprias identidades”.

Capa do livro "FANDOM", de Fábio Tomasi. 
Foto: Divulgação.

Fábio foi responsável por campanhas famosas, como Ready For Sport (adidas) com Lionel Messi, Mo Salah, Siya Kolisi, James Harden e David Beckham; The Switch (Nike) com Cristiano Ronaldo; Play Free (Joga Solto) com o Ronaldinho Gaúcho, e Live Legendary para a ESL. Ele diz que nenhuma delas dependia do produto para vender; “elas criaram identidade”.

Fabio lançou recentemente o livro, FANDOM – Como transformar clientes em fãs que impulsionam a sua marca. Nele, o autor conta os bastidores de cases de sucesso de grandes marcas e fala do conceito “fandom” – junção das palavras em inglês ‘fan’ (fã) + ‘kingdom’ (reino) –, representando a força que transforma consumidores em defensores e marcas em movimentos culturais.

O autor explica que “fandom” começa quando a marca para de tratar o cliente apenas como alvo e o convida para ser um “sócio emocional” do negócio. “Muitas empresas no Brasil ainda confundem fidelidade com programas de pontos ou cashback. Isso é transação, e quem vem por preço, vai embora por preço”, diz.

Com estudos de caso globais e frameworks aplicáveis, o livro é um guia claro e direto para criar narrativas autênticas, experiências relevantes e lealdade de longo prazo.  

A seguir, na conversa com Fabio, ele aprofunda o conceito “fandom” e as estratégias que estão por trás da construção de marcas verdadeiramente emocionais e de valor.

Busque um “sócio emocional” da sua marca

CM: No livro, você mostra que o crescimento sustentável da marca depende de conexões emocionais e comunidades engajadas, não só de produto ou campanha. Como as empresas podem redesenhar sua estratégia de CX para uma “orquestração de fandom” em torno da marca?

O erro clássico é tratar CX apenas como suporte ou resolução de atrito. Para orquestrar um fandom, o CX precisa evoluir de “atendimento ao cliente” para “facilitação de comunidade”. A estratégia deve parar de focar apenas na jornada individual de compra e começar a desenhar rituais de interação entre os próprios clientes.

CM: Dê um exemplo de uma marca com essa estratégia?

Um exemplo que exploro no livro é a NuCommunity, do Nubank. Eles elevaram o CX a um processo de cocriação, onde o consumidor tem voz ativa no roadmap da empresa. Na comunidade, os usuários não entram apenas para tirar dúvidas, mas para testar produtos em fase beta, sugerir funcionalidades e debater educação financeira entre si. O Nubank instrumentalizou o pertencimento: quando o cliente percebe que uma sugestão sua virou uma feature no app, ele deixa de ser um correntista e se torna um “sócio emocional” da marca. Isso é orquestração de fandom: dar ao cliente um lugar na mesa de decisões, transformando a experiência de uso em um ato de construção conjunta.

Priorize a comunidade sobre a mídia tradicional

CM: Você afirma que muitas empresas ainda confundem fidelidade com pontos e cashback, ou seja, transação pura. Que indicadores e métricas deveriam substituir NPS e “base ativa” para mensurar o nível de pertencimento da comunidade em torno da marca hoje?

Fidelidade por pontos é centro de custo; fidelidade por fandom é lucro. O NPS mede satisfação passada, mas não prevê crescimento. Para mensurar o valor real, olhamos para a Eficiência de Capital da Comunidade. O caso da chuteira “Tiempo VII”, onde atuei como Brand Director Global, é definitivo. Com orçamento de mídia zerado entre lançamentos gigantes, apostamos na influência real, não na comprada. Mapeamos os 100 maiores “Boot Heads” globais e produzimos uma edição limitada exclusiva. Em um movimento de autenticidade radical, enviamos como presente surpresa para esse verdadeiros fãs de futebol: sem briefing, contrato ou exigência de postagem. Entregas sincronizadas criaram um crescendo de sete dias nas redes.

O resultado foi avassalador. Com apenas US$5 mil de “seeding”, 70% dos 800 mil pares vendidos vieram desse movimento orgânico. A valores atuais, isso equivale a US$134 milhões. Não é só engajamento, é alavancagem financeira pura. Ao priorizar a comunidade sobre a mídia tradicional, a Nike transformou o envio em experiência. Quando você oferece valor real às vozes certas, elas não apenas apoiam sua marca, elas a defendem.

O papel do CMO frente a IA

CM: Com IA generativa criando desde roteiros até conteúdo em escala, como você enxerga o trabalho atual do CMO para garantir que essas narrativas continuem autênticas, emocionalmente relevantes e blindadas contra a comoditização criativa?

A IA democratizou a produção, mas inflacionou a mediocridade. O papel do CMO hoje deixa de ser o de líder criativo e gestor de campanhas para se tornar o guardião da alma da marca, que representa a voz ativa do consumidor dentro da empresa. A tecnologia escala a forma, mas só o humano garante a substância.

Para blindar a marca, o CMO precisa investir em narrativas que a IA não consegue replicar: experiências reais, vulnerabilidade genuína e histórias da própria comunidade. A autenticidade não virá de um prompt perfeito, mas da capacidade da marca de segurar o espelho para sua audiência e dizer: “eu vejo você, e você merece o melhor”. A IA gera eficiência; o CMO precisa gerar significado e relevância.

Fãs cocriam o futuro do produto e da comunicação

CM: Olhando para 2026, quais são as grandes tendências que vão separar marcas “indiferentes” de marcas “idolatradas”? Que fronteira ainda não está no radar da maioria dos executivos de marketing e na sua visão será decisivo para isso?

A grande fronteira é a descentralização da propriedade da Marca e do processo criativo. Marcas indiferentes continuarão tentando controlar cada aspecto da sua narrativa. Marcas idolatradas serão aquelas que tiverem a coragem de ceder o controle e permitir que os fãs cocriem o futuro do produto e da comunicação.

A tendência para 2026 é a marca como uma plataforma aberta e um ecossistema, em que a barreira entre “empresa” e “cliente” desaparece. O executivo que ainda enxerga o cliente apenas como um alvo de venda ficará para trás. O líder do futuro entenderá que seu papel é servir à comunidade que se formou em torno dos valores da empresa.

CM: Levando em consideração tudo o que analisamos até aqui, você seria capaz de estabelecer um ponto central sobre sucesso na conexão emocional entre clientes e marcas hoje – fundamental para transformar clientes em fãs?

O ponto central é a identidade e a personificação. As pessoas não compram o que você faz; elas compram quem elas se tornam quando usam o seu produto ou o seu serviço. O sucesso na conexão emocional acontece quando a marca deixa de ser um objeto externo e passa a ser uma extensão da personalidade do indivíduo. Transformar clientes em fãs não é sobre ter o melhor produto do mercado, é sobre oferecer o melhor senso de pertencimento. Se a sua marca ajuda o cliente a expressar quem ele é ou quem ele deseja ser, você não tem mais compradores; você tem um exército. É isso o que o conceito fandom ensina a construir.

Compartilhe essa notícia:

Recomendadas

MAIS +

Veja mais noticias

Emília Rabello, da NÓS, revela como impacto social e lucro podem caminhar juntos — e por que o consumo das favelas não deve ser ignorado.
Boteco da CM: Por que o mercado ainda insiste em ignorar o consumo das favelas?
Emília Rabello, fundadora da NÓS, revela como impacto social e lucro podem caminhar juntos – e por que a economia da proximidade é a próxima fronteira do consumo.
Novas lideranças e reposicionamentos estratégicos reforçam foco em inovação, expansão e transformação digital.
Conheça as novas lideranças do Grupo Bimbo, PepsiCo, Ferrero e Eletromidia
Contratações e reposicionamentos estratégicos reforçam foco em inovação, expansão e transformação digital.
Alexandre Afrange, CEO da Veste S.A..
5 perguntas para Alexandre Afrange, CEO da Veste S.A.
CEO da Veste S.A. revela os bastidores do crescimento da empresa, as estratégias phygital para 2026 e como competir com o fast fashion no mercado premium.
Entre previsões de desaceleração e um calendário repleto de pausas, como a Copa do Mundo e eleições, o mercado mostra que o ritmo dos negócios já não segue os feriados.
O ano dos feriados, da Copa e das eleições em que ninguém, de fato, parou
Entre previsões de desaceleração e um calendário repleto de pausas, como a Copa do Mundo e eleições, o mercado mostra que o ritmo dos negócios já não segue os feriados.
SUMÁRIO – Edição 296

A evolução do consumidor traz uma série de desafios inéditos, inclusive para os modelos de gestão corporativa. A Consumidor Moderno tornou-se especialista em entender essas mutações e identificar tendências. Como um ecossistema de conteúdo multiplataforma, temos o inabalável compromisso de traduzir essa expertise para o mundo empresarial assimilar a importância da inserção do consumidor no centro de suas decisões e estratégias.

A busca incansável da excelência e a inovação como essência fomentam nosso espírito questionador, movido pela adrenalina de desafiar e superar limites – sempre com integridade.

Esses são os valores que nos impulsionam a explorar continuamente as melhores práticas para o desenho de uma experiência do cliente fluida e memorável, no Brasil e no mundo.

A IA chega para acelerar e exponencializar os negócios e seus processos. Mas o CX é para sempre, e fará a diferença nas relações com os clientes.

CAPA: Rhauan Porfírio
IMAGEM: IA Generativa | ChatGPT


Publisher
Roberto Meir

Diretor-Executivo de Conhecimento
Jacques Meir
[email protected]

Diretora-Executiva
Lucimara Fiorin
[email protected]

COMERCIAL E PUBLICIDADE
Gerentes

Daniela Calvo
[email protected]

Elisabete Almeida
[email protected]

Érica Issa
[email protected]

Gustavo Bittencourt
[email protected]

Juliana Carvalho
[email protected]

Marcelo Malzoni
[email protected]

NÚCLEO DE CONTEÚDO
Head de Conteúdo
Larissa Sant’Ana
[email protected]

Editora do Portal 
Júlia Fregonese
[email protected]

Produtores de Conteúdo
Bianca Alvarenga
Danielle Ruas 
Jéssica Chalegra
Marcelo Brandão
Victoria Pirolla

Head de Arte
Camila Nascimento
[email protected]

Revisão
Elani Cardoso

COMUNICAÇÃO E MARKETING
Coordenadoras
Nayara Manfredi
Paula Coutinho

TECNOLOGIA
Gerente

Ricardo Domingues


CONSUMIDOR MODERNO
é uma publicação da Padrão Editorial Ltda.
www.gpadrao.com.br
Rua Ceará, 62 – Higienópolis
Brasil – São Paulo – SP – 01234-010
Telefone: +55 (11) 3125-2244
A editora não se responsabiliza pelos conceitos emitidos nos artigos ou nas matérias assinadas. A reprodução do conteúdo editorial desta revista só será permitida com autorização da Editora ou com citação da fonte.
Todos os direitos reservados e protegidos pelas leis do copyright,
sendo vedada a reprodução no todo ou em parte dos textos
publicados nesta revista, salvo expresso
consentimento dos seus editores.
Padrão Editorial Ltda.
Consumidor Moderno ISSN 1413-1226

NA INTERNET
Acesse diariamente o portal
www.consumidormoderno.com.br
e tenha acesso a um conteúdo multiformato
sempre original, instigante e provocador
sobre todos os assuntos relativos ao
comportamento do consumidor e à inteligência
relacional, incluindo tendências, experiência,
jornada do cliente, tecnologias, defesa do
consumidor, nova consciência, gestão e inovação.

PUBLICIDADE
Anuncie na Consumidor Moderno e tenha
o melhor retorno de leitores qualificados
e informados do Brasil.

PARA INFORMAÇÕES SOBRE ORÇAMENTOS:
[email protected]