Embora uma em cada três empresas esteja investindo pelo menos US$ 25 milhões em Inteligência Artificial (IA), a maior parte ainda não ultrapassou a fase experimental no uso da tecnologia, mesmo em setores altamente técnicos ou capitalizados, como o de seguros e o de desenvolvimento de software. De acordo com uma pesquisa do Boston Consulting Group (BCG), cerca de 70% dos desenvolvedores ainda não utilizam IA generativa no seu dia a dia.
A razão? A resposta não está apenas na infraestrutura ou no orçamento disponível, mas sim na cultura organizacional. As empresas que realmente colhem os frutos da IA são aquelas que encaram a tecnologia como uma aliada estratégica, além de investir na transformação de ponta a ponta, na capacitação das equipes e na criação de uma mentalidade de aprendizado contínuo. Mais do que produtividade, a IA exige uma nova forma de liderar, trabalhar e colaborar.
“A adaptação cultural é fundamental para o sucesso na era da IA. Não se trata de descartar o que funcionou no passado, mas sim de construir sobre os pontos fortes da cultura existente, incorporando novos valores e práticas que permitam à empresa prosperar em um ambiente em rápida mudança”, pontua Santino Lacanna, sócio do BCG.
Diante disso, uma das estratégias é colocar as pessoas no centro da transformação, investir em treinamento e requalificação para que os funcionários possam adquirir as habilidades necessárias para trabalhar com a IA. Além disso, é importante criar um ambiente que incentive a experimentação e a colaboração, permitindo que as equipes testem novas ideias e aprendam com seus erros.
A transformação com IA envolve desde a aquisição de novas habilidades até a criação de uma mentalidade de experimentação e aprendizado contínuo. Para inspirar suas equipes, os gestores precisam liderar pelo exemplo.
Santino Lacanna
Santino ressalta ainda que a tecnologia pode ajudar nesse processo, pois fornece ferramentas para comunicação, colaboração e aprendizado contínuo. Também recomenda a utilização do conceito 10-20-70, em que 10% dos recursos devem ser dedicados à construção de ferramentas e algoritmos, 20% a dados e tecnologia de alta qualidade e 70% à mudança organizacional, ou seja, cultura, processos, formas de trabalhar, capacitação das equipes, liderança e integração entre áreas.
“Vejo que um dos maiores desafios para os líderes hoje é equilibrar a necessidade de resultados rápidos com a construção de uma base sólida para o futuro”, comenta. “Para inspirar suas equipes, os líderes precisam se tornar ‘usuários praticantes’ da IA, demonstrando seu compromisso com a tecnologia e incentivando a experimentação. Além disso, é crucial que eles comuniquem de forma clara e transparente a visão da empresa para a IA, conectando-a ao propósito e aos valores da organização”, acrescenta.
Oportunidades da adoção da IA
O estudo do BCG When Companies Struggle to Adopt AI, CEOs Must Step Up mostra que a IA exige uma cultura mais aberta à experimentação e ao aprendizado contínuo. Para sua adoção em escala, é preciso ‘cocriar com os funcionários a adoção’, e isso implica flexibilizar a hierarquia tradicional para dar espaço a novas ideias e lideranças. Além disso, a resistência à IA vista em algumas organizações indica que a cultura precisa ser adaptada para superar o medo da mudança e do desconhecido.
O levantamento mostra ainda que os funcionários também são mais propensos a adotar a IA quando a tecnologia aumenta a alegria e reduz o esforço no trabalho diário. Em um piloto do BCG, os participantes economizaram até duas horas por semana usando ferramentas de calendário baseadas em IA, com 79% relatando que isso tornou a tarefa de agendar mais agradável, 86% relatando maior eficácia e 92% afirmando que continuariam usando a ferramenta.
“A IA não é apenas ‘mais uma tecnologia’. Sua adoção gera grandes oportunidades de melhoria de produtividade e inovação, mas requer mudanças significativas na empresa”, reforça.
Se por um lado nas áreas técnicas, como entre desenvolvedores de software, a adoção de GenAI pode ser baixa (aproximadamente 70% não estão usando), por outro tem sido visto o surgimento dos Augmented Learners (aprendizado potencializado), que são organizações que combinam o aprendizado organizacional tradicional com o aprendizado específico de IA. Diante disso, as empresas estarão mais bem equipadas para lidar com a incerteza e prosperar em um ambiente em rápida mudança.
“A transformação com IA envolve desde a aquisição de novas habilidades até a criação de uma mentalidade de experimentação e aprendizado contínuo. Para inspirar suas equipes, os gestores precisam ‘liderar pelo exemplo’, demonstrando seu próprio compromisso com a IA e incentivando todos a explorarem novas possibilidades”, aconselha.
Propósito, estratégia e cultura
Em tempos de Inteligência Artificial, é crucial construir uma equipe multifuncional com as habilidades necessárias para implementar a tecnologia e criar uma cultura de aprendizado contínuo. Assim, a equipe poderá se adaptar às mudanças constantes. Nesse cenário, alinhar propósito, estratégia e cultura é fundamental.

“As companhias que têm sucesso não veem a tecnologia apenas como uma ferramenta para cortar custos ou melhorar a eficiência, mas sim como uma chance de repensar como o trabalho acontece, como os funcionários prosperam, como as empresas operam e como as indústrias evoluem. A IA deve estar alinhada com o propósito da organização e que contribua para a criação de valor a longo prazo”, diz.
O estudo “From Potential to Profit: Closing the AI Impact Gap”, também do BCG, identificou que as empresas que realmente colhem os frutos da IA não a tratam como um projeto isolado, mas sim como um elemento central de sua estratégia de negócios. Os “AI Power Players” (empresas que estão na vanguarda da adoção da IA) têm 2,6 vezes mais probabilidade de obter um impacto financeiro significativo da IA.
Além disso, as empresas líderes em IA entendem que a tecnologia é apenas uma peça do quebra-cabeça, mas também investem em capacidades organizacionais, como o alinhamento da Inteligência Artificial com os objetivos de negócios e o desenvolvimento de uma cultura de inovação que incentive a experimentação, a colaboração e o aprendizado contínuo.
“Em outras palavras, o alinhamento entre estratégia, cultura e IA não é apenas uma questão de ‘boas práticas’, mas sim um imperativo de negócios. As empresas que conseguem alinhar esses elementos estão mais bem posicionadas para transformar seus negócios, impulsionar o crescimento e gerar valor a longo prazo”, destaca.
Novo cenário
Diante do avanço contínuo da IA, algumas características culturais serão indispensáveis para as empresas nos próximos cinco anos. Entre elas, está a adaptabilidade. No entanto, alerta Santino, é crucial entender que essa transformação não é apenas sobre tecnologia.
“É sobre pessoas, processos e propósito. As empresas precisarão ser ágeis e flexíveis para se adaptarem às mudanças constantes no cenário da IA, mas também precisarão investir em seus funcionários, capacitando-os a adquirir novas habilidades e a trabalhar em conjunto de novas maneiras. Além disso, é fundamental que a IA esteja alinhada com o propósito da organização, garantindo que a tecnologia seja usada para criar valor para todos os stakeholders, e não apenas para otimizar processos ou cortar custos. Uma cultura que valorize a aprendizagem contínua e a colaboração será imprescindível para o sucesso a longo prazo”, finaliza.
*Fotos: Shutterstock.com / Assessoria





